Editorial

Carta ao editor: PIRANHAS CRIARAM FAMA E DEITARAM-SE NA CAMA!

Como citar: Valente-Aguiar MS, Falcao AC. Piranhas criaram fama e se deitaram na cama [Carta ao editor]. Persp Med Legal Pericias Med. 2021; 6: e210610

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Piranhas created fame and lay down on the bed!

Murilo Sérgio Valente-Aguiar (1)

Lattes: http://lattes.cnpq.br/5886046890650632 https://orcid.org/0000-0003-4623-7022

Ana Cecília Guedes Pereira Falcão(2)

Lattes: http://lattes.cnpq.br/8421929250333889 https://orcid.org/0000-0002-0876-2590

(1) Instituto Médico Legal Dr. José Adelino da Silva, Porto Velho -RO, Brasil.

(2) Acadêmica de Medicina da Faculdades Integradas Aparício de Carvalho – FIMCA, Porto Velho – RO, Brasil.

email: medicolegista-murilo@valente-aguiar.med.br

 

Senhor Editor,

 

Recentemente publicamos um artigo sobre a Ictiofauna cadavérica do Rio Madeira onde demonstramos que os responsáveis pelas lesões encontradas nos corpos resgatados do rio são os candirus e a piracatinga (1).

As piranhas até hoje são responsabilizadas como a espécie devoradora de homens nos rios da Amazônia. Esse equívoco é compartilhado tanto fora do Brasil como por nativos da própria região amazônica.

A expressão “Criou fama e se deitou na cama”, que conota a ideia de que uma pessoa por ser famosa recebe os créditos de algo que ela não fez, também acontece em outros níveis no reino animal.

As piranhas fazem parte da família Serrasalmidae. Essa família possui dois grupos facilmente distinguíveis entre si pelo número de séries e tipos de dentes do pré-maxilar. O grupo com hábito alimentar frugívoro como os pacus, os tambaquis e as pirapitingas, que são importantes para a pesca comercial e de subsistência no estado de Rondônia, por terem carne muito saborosa e apreciada. E temos o grupo com hábito alimentar carnívoro onde estão agrupadas as piranhas, que também são muito utilizadas na culinária dos ribeirinhos pois consideram o seu caldo um poderoso afrodisíaco. Elas possuem apenas uma série de seis dentes triangulares cortantes, pontiagudos e alinhados (2).

Estes pequenos peixes carnívoros de água doce, muito ágeis, com dentes afiados, capazes de destruir um pedaço de carne em segundos são as espécies que os viajantes mais temem. Sua dieta é composta principalmente por peixes, e dependendo da época do ano podem também aumentar a ingestão de frutos e sementes (2, 3).

Das várias espécies de piranha encontradas na bacia amazônica, apenas duas espécies têm relatos de ataques humanos na região.

piranha vermelha (Pygocentrus nattereri) é a espécie mais agressiva. Isto porque suas mandíbulas são mais fortes e os seus dentes mais acentuados.

piranha preta (Serrasalmus rhombeus), geralmente maior que a espécie anterior, porém ela prefere se alimentar das escamas e barbatanas de outros peixes.

Essas espécies são encontradas em rios, igarapés e lagos, de águas, preferentemente, límpidas e com pouca correnteza, frequentando as margens do Rio Madeira apenas quando estão mudando de área. Utilizam o rio como passagem, pois o Rio Madeira tem águas barrentas e correnteza muito forte o que não lhes fornece condições de habitat ideal (1-4).

No período de outubro a abril ocorrem as enchentes, em virtude do volume de chuvas na região, e os rios transbordam invadindo a mata ciliar. São as florestas inundadas, onde encontramos a maior concentração de piranhas que caçam em bandos e dão ênfase para peixes moribundos ou feridos.

Elas ganharam a fama de devoradores de homens através do presidente americano Theodore Roosevelt, que em 1914 em seu relatório “Through the Brazilian Wilderness (1914; Pelas selvas brasileiras)” narra a expedição científica que ocorreu entre 1913-1914 e teve como líderes Marechal Cândido Mariano Rondon e ele próprio (5).

Neste documento, Roosevelt relatou que as piranhas poderiam despedaçar ou devorar qualquer homem ou animal ferido, pois o sangue na água excitaria estes peixes até a loucura.

Essa opinião se deu pelo fato dele ouvir os relatos dos habitantes de Concepción, na região pantaneira do Paraguai, que se um boi é empurrado para dentro do rio, ou entra na água por sua própria vontade, ele geralmente não é molestado; mas se, por acaso, algum desses terríveis peixes morder o animal o sangue liberado na água excita os membros do cardume faminto, e a menos que o animal atacado possa escapar imediatamente da água, ele é devorado vivo.

Tal relato acabou perpetuando a expressão popular “Boi de Piranhas”. Designa uma situação em que um bem menor e de pouco valor é sacrificado para que em troca outros bens mais valiosos não sofram dano. Essa expressão é erroneamente substituída pela “Bode Expiatório”, que tem significado completamente diferente. Significa que alguém que é escolhido arbitrariamente para levar (sozinho) a culpa de uma calamidade, crime ou qualquer evento negativo (embora não o tenha cometido).

Três casos de cadáveres humanos que foram registrados no Mato Grosso, oeste do Brasil, como tendo sido atribuídos ao ataque de piranhas, ocorreram após a morte por outras causas (por exemplo, insuficiência cardíaca e afogamento), e podem as piranhas os ter devorados por serem carnívoros oportunistas (6). Sob alguns aspectos das lesões descritas no artigo, essas mortes podem ter sido erroneamente atribuídas às piranhas.

Estes peixes predadores, ocasionalmente, ferem veranistas quando estão nadando em águas represadas em açudes, lagos e rios do sudeste e nordeste do Brasil, em virtude de seu comportamento territorialista no período de reprodução da espécie, ao proteger o local da desova e os alevinos (além das mordidas resultantes do manuseio descuidado dos peixes pelos pescadores)(7).

A mordida típica consiste em uma única ferida circular, semelhante à cratera de vulcão, com laceração dos tecidos, localizada, quase sempre, nas extremidades dos membros inferiores (7)(Figura 1).

Figura 1: A – Foto dos dentes de uma piranha. B – Foto de uma lesão causada por mordida de piranha. Fonte: Haddad, V., Jr. and I. Sazima, 2003 (7)

Considermos compartilhar alguns aspectos do comportamento das piranhas na região Amazônica e esclarecer que os corpos resgatados dos rios da região, que apresentam ação da ictiofauna cadavérica, tem essa ação erroneamente atribuídas às piranhas. Elas se alimentam de peixes vivos, doentes ou sangrando e, quando comem carniça o fazem por serem carnívoras oportunistas.


Referências bibliográficas

1.         Valente-Aguiar MS, Falcao AC, Magalhaes T, Dinis-Oliveira RJ. Cadaveric ichthyofauna of the Madeira River in the Amazon basin: the myth of man-eating piranhas. Forensic Sci Med Pathol. 2020; 16: p345–351. https://doi.org/10.1007/s12024-020-00221-8

2.         Queiroz LJd, Torrente-Vilara G, Ohara WM, Pires THdS, Zuanon J, Doria CRdC. Peixes do rio madeira. 1 ed. São Paulo, Brasil: Dialeto Latin American Documentary; 2013.

3.         Ferreira FS, Vicentin W, Costa FEdS, Súarez YR. Trophic ecology of two piranha species, Pygocentrus nattereri and Serrasalmus marginatus (Characiformes, Characidae), in the floodplain of the Negro River, Pantanal. Acta Limnologica Brasiliensia. 2014; 26: p381-91. https://doi.org/10.1590/S2179-975X2014000400006

4.         Cella-Ribeiro A, Torrente-Vilara G, Lima-Filho JA, Doria CRdC. Ecologia e biologia de peixes do Rio Madeira. Porto Velho: EDUFRO; 2016. p305.

5.         Roosevelt T. Through the Brazilian Wilderness. New York: Projeto Gutenberg’s; 1914. Disponível em: http://www.gutenberg.org/cache/epub/11746/pg11746-images.html.

6.         Sazima I, Guimarães SA. Scavenging on human corpses as a source for stories about man-eating piranhas. Environ Biol Fishes. 1987; 20(1): p75-7. https://doi.org/10.1007/BF00002027

7.         Haddad V, Jr., Sazima I. Piranha attacks on humans in southeast Brazil: epidemiology, natural history, and clinical treatment, with description of a bite outbreak. Wilderness environ med. 2003; 14(4): p249-54. https://doi.org/10.1580/1080-6032(2003)14[249:PAOHIS]2.0.CO;2