Os autores informam que não há conflito de interesse.
Carmen Silvia Molleis Galego Miziara
Renan Sakamoto Martins
Ivan Dieb Miziara
INTRODUÇÃO: A poliomielite é uma infecção viral altamente contagiosa, causada por três sorotipos de poliovírus (PV). A doença frequentemente é assintomática ou manifesta sintomas semelhantes aos de infecções respiratórias ou gastrointestinais. Contudo, aproximadamente 1% dos infectados pode desenvolver paralisia, que geralmente afeta os membros inferiores de maneira assimétrica, com perda de reflexos e força muscular. Em casos severos, a poliomielite pode comprometer os músculos respiratórios, levando ao óbito. O Brasil recebeu o certificado de erradicação da circulação do poliovírus selvagem em 1994. No entanto, a vacinação contra a poliomielite continua essencial, visto que países como Afeganistão e Paquistão ainda possuem sorotipos circulantes do poliovírus selvagem. Este estudo tem como objetivo analisar se houve uma redução na cobertura vacinal (ICV) para a poliomielite no Brasil entre 2013 e 2023. Este estudo teve por objetivo avaliar o impacto da pandemia de COVID-19 (SARS-CoV-2) e projetar a estimativa da cobertura vacinal para os próximos anos.
MÉTODOS: Foi conduzido um estudo ecológico retrospectivo sobre a cobertura vacinal da poliomielite no Brasil e nas macrorregiões de 2012 a 2023. Dados até 2022 foram obtidos do Departamento de Informação e Informática do SUS (DATASUS) e dados de 2023 foram fornecidos pelo Departamento de Monitoramento, Avaliação e Disseminação de Informações Estratégicas em Saúde (DEMAS) da Secretaria de Informação e Saúde Digital (SEIDIGI). Os dados foram tabulados e analisados no software estatístico SPSS® versão 17.0 (SPSS® Inc; Illinois, EUA), utilizando regressão linear simples para estabelecer a equação de previsibilidade das amostras. Foram consideradas significativas as regressões com p-valor < 0,005 e que atenderam aos critérios básicos para a realização de regressão linear.
RESULTADOS: Dados referentes à cobertura vacinal da poliomielite no Brasil e em suas regiões foram levantados para o período de 2012 a 2023. A cobertura vacinal no Brasil caiu de 96,55% em 2012 para 85,83% em 2023, com declínio observado em todas as macrorregiões. A regressão linear simples permitiu prever a cobertura vacinal da poliomielite no Brasil [F(1,10) = 20,692, p = 0,001; R² = 0,674], com a equação Cobertura Vacinal = 4434,437 – 2,155Xano. Esse método foi aplicado para todas as macrorregiões, exceto para a região Nordeste, devido à falta de significância da regressão (p-valor > 0,005). Analisando o padrão de cobertura durante os anos mais críticos da COVID-19, 2020 e 2021, observou-se um declínio em comparação com os anos anteriores e posteriores à pandemia. Em 2023, a cobertura vacinal apresentou uma discreta recuperação, atingindo níveis superiores aos de 2019.
DISCUSSÃO: A redução na cobertura vacinal no Brasil não se limita à vacina contra a poliomielite; outras vacinas também apresentaram declínios. Dados de junho de 2024 mostram que a cobertura vacinal da BCG foi de 77,81%, a segunda dose da vacina tríplice viral foi de 77,19% e a vacina contra a varicela foi de 68,73%. Esses resultados são preocupantes e exigem uma resposta governamental imediata para reverter o cenário projetado para os próximos anos. A poliomielite causou numerosas vítimas no país, tanto em termos de mortalidade quanto de morbidade. A reintrodução do poliovírus no Brasil acarretaria custos humanos e financeiros imensuráveis. O estudo revelou uma tendência de queda progressiva na cobertura vacinal, com piora durante a pandemia com uma tentativa discreta de recuperação em 2023, mas a projeção para os próximos anos é alarmante. Medidas de conscientização da população são essenciais para reverter a queda observada na última década. A vacinação eficaz conseguiu erradicar a poliomielite nas Américas há 30 anos, e o Brasil sempre foi um exemplo global em imunização.
CONCLUSÃO: Na última década, a cobertura vacinal contra a poliomielite no Brasil apresentou declínio progressivo, com previsão de piora nos próximos anos. Medidas urgentes de contenção e reversão desse cenário são necessárias. O período da pandemia exacerbou a redução da cobertura vacinal, com diversas causas possíveis, como o isolamento social, fatores econômicos, sobrecarga dos serviços de saúde e medo da população de sair de casa, sendo a disseminação de informações falsas uma das principais preocupações. Não é raro que médicos se manifestem contra a vacinação, o que destaca dilema bioético significativo, assim como as repercussões na saúde coletiva.







