Resumos

Inteligência artificial: o cavalo de Troia da modernidade?

Os autores informam que não há conflito de interesse.

Victória Meirelles Honorato

Nicole Rodrigues Oliveira

Isadora Neves Nogueira

Sophia Vilhena Xavier

INTRODUÇÃO: Na mitologia grega, a história do cavalo de Tróia traz como metáfora a ideia de uma tática ilusória, algo que aparentava ser bom, como um presente, mas foi capaz de destruir toda uma cidade. Analogamente, muitos dispositivos médicos que surgiram no mercado como grandes inovações, no presente, são contraindicados pelas mais consagradas literaturas. Prova disso é o dispositivo contraceptivo Essure, que tinha como proposta uma solução definitiva e implantação cirúrgica simples; porém, após quase uma década causando problemas como dor pélvica crônica, hemorragia e depressão, foi retirado do mercado. Nesse contexto, assim como outras inovações, a inteligência artificial (IA) surgiu com um expoente potencial, especialmente, para democratizar o conhecimento médico e reduzir a carga burocrática da prática. Todavia, a medicina é a terra das ciências biológicas, ou seja, não exatas, e esse fato pode ser considerado o maior desafio de sua aplicabilidade. Isso porque, em muitos casos, a escolha da conduta depende não só de respaldo científico e jurídico, como também da concordância com os valores e a ética de cada profissional. Diante do exposto, ao considerar que a Medicina Legal e Perícia Médica tem função de esclarecer o conhecimento médico aos operadores de Direito urge a necessidade de entender a real valia da IA.

OBJETIVO: Apresentar e discutir a aplicabilidade das novas tecnologias, principalmente, da IA no exercício da Medicina Legal e Perícia Médica.

MATERIAL E METODOS: Trata-se de um revisão simples realizada no primeiro semestre de 2024, na base de dados PubMed sem limitação referente ao período de publicação, utilizando os descritores em português “medicina legal”; “difusão de inovações”; “desenvolvimento tecnológico” e “inteligência artificial”.

RESULTADOS: A definição e os limites do cumprimento das diretrizes éticas podem até variar de pessoa para pessoa, mas essa é a alma de qualquer profissão capaz de estabelecer a qualidade, validade e autenticidade. Diante disso, uma vez que a IA depende de informações significativas dos usuários, cresce a preocupação relacionada a problemas de privacidade de dados que podem gerar cenários como a estigmatização de portadores de doenças marcadas pelo preconceito, vide portadores de HIV. Além disso, a relação entre o paciente e o médico é um dos pilares do método clínico centrado na pessoa, conhecido por elevar a qualidade do atendimento, no qual é fundamental que o profissional se mostre presente, aberto a conversas e demonstre soft skills como empatia. Ante o exposto, há dúvidas se a IA seria capaz de ponderar fatores como contexto social, preferências e valores morais; o que é imprescindível na compreensão não só do indivíduo além da sua doença, mas também de suas expectativas que podem ultrapassar bons marcadores biológicos.

CONCLUSÃO: Em suma, o maior perigo da IA é acreditar, precocemente, que há uma compreensão plena da sua capacidade funcional. Assim, é imprescindível reconhecer a limitação sobre a reflexão de padrões factuais para que a IA seja usada como ferramenta norteadora e supervisionada sob a ótica ética e moral de um ser humano; antes da sua adoção em larga escala, evitando que se transforme no cavalo de Troia da modernidade.


Referências bibliográficas