Os autores informam não haver conflito de interesse.
Flavio Gomes Figueira Camacho (1)
Marcela Boroski (1)
Carmen Coba (2)
(1) Universidade Federal de Integração Latino-Americana;
(2) Universidad Central del Paraguay
A utilização de tecnologias portáteis e colaborativas tem transformado significativamente a forma como as investigações forenses são conduzidas, principalmente no que se refere à coleta, análise e interpretação inicial de evidências diretamente em locais de crime. O artigo em questão apresenta o desenvolvimento e a validação de uma plataforma integrada que combina um espectrômetro UV-Vis portátil, de baixo custo, fabricado com prototipagem rápida por impressão 3D, com um software colaborativo baseado em web, destinado a oferecer suporte imediato e eficiente à perícia criminal. Essa inovação surge em resposta à necessidade crescente de ferramentas que aliem rapidez, confiabilidade, acessibilidade econômica e integração digital, características essenciais no contexto dinâmico das cenas de crime contemporâneas.
A motivação central do trabalho parte do reconhecimento de que a análise laboratorial tradicional, embora altamente precisa, apresenta limitações relevantes quando considerada a etapa inicial das investigações criminais. Normalmente, amostras coletadas no local do crime — como fluidos biológicos, resíduos sólidos ou líquidos — são enviadas a laboratórios especializados, demandando tempo e recursos financeiros significativos. Esse processo, por vezes, pode retardar as fases críticas da investigação, comprometendo a formulação rápida de hipóteses sobre a dinâmica do crime ou a priorização de evidências. Nesse cenário, surge a proposta de empregar a espectroscopia UV-Vis, técnica analítica consagrada pela sua aplicabilidade na detecção de diversos compostos, mas historicamente restrita a ambientes laboratoriais, devido ao alto custo e ao porte volumoso dos equipamentos convencionais.
A proposta apresentada no artigo diferencia-se por sua capacidade de transpor as barreiras do laboratório e oferecer ao perito uma ferramenta portátil e acessível. O dispositivo foi projetado de forma compacta, com carcaça produzida em impressora 3D utilizando PLA, integrando uma fonte de luz LED branca baseada em semicondutores de nitreto de gálio (GaN), revestida com fósforo YAG:Ce³? para emissão contínua, e um sensor fotoelétrico de sulfeto de cádmio (CdS) para detecção espectral. Todo o sistema é gerenciado por um microcontrolador ESP32, que desempenha funções de aquisição de dados e comunicação via Wi-Fi, garantindo a transmissão em tempo real dos resultados. O equipamento é alimentado por bateria de polímero de lítio recarregável, permitindo operação autônoma no campo.
O artigo descreve detalhadamente a arquitetura do software que sustenta a solução. O controle do dispositivo foi programado em C++ pela IDE Arduino, enquanto a plataforma web foi construída com o framework Flask (Python) no back-end e tecnologias responsivas (HTML, CSS, JavaScript) no front-end. Entre as funcionalidades destacam-se: autenticação segura, upload de espectros, pré-processamento automático (com filtros de Savitzky-Golay e correção de linha de base), biblioteca de espectros de referência e comparação baseada no coeficiente de correlação de Pearson. Essa última função é especialmente relevante, pois fornece uma métrica quantitativa para identificar substâncias desconhecidas por meio da semelhança espectral com amostras previamente catalogadas. O sistema ainda possibilita compartilhamento controlado de dados, assegurando o aspecto colaborativo entre peritos e a construção de uma biblioteca forense em rede.
Os testes experimentais realizados demonstraram resultados promissores. O espectrômetro apresentou faixa útil de 400 a 700 nm, adequada à detecção de vários compostos de interesse forense. Amostras-padrão de ortofosfato, nitrito, amônia e ferro foram analisadas, e os espectros obtidos mostraram-se consistentes e reprodutíveis, com coeficiente de correlação linear (R) de 0,98 em leituras repetidas, evidenciando confiabilidade. A plataforma online também mostrou eficiência, com tempo médio inferior a 15 segundos entre a aquisição no dispositivo e a disponibilidade da análise na interface web. Esse desempenho sugere que a solução pode efetivamente ser aplicada como ferramenta de triagem imediata, complementando técnicas mais complexas que continuariam a ser realizadas em laboratório.
Na discussão, os autores reforçam que a proposta não busca substituir métodos confirmatórios de alta precisão, como cromatografia ou espectrometria de massas, mas sim oferecer uma camada intermediária de triagem rápida. Essa abordagem é estratégica, pois possibilita ao perito no local do crime decidir quais amostras devem ser priorizadas, reduzindo o volume de material encaminhado aos laboratórios e otimizando recursos. Além disso, a acurácia de cerca de 90% na identificação de substâncias puras confirma o potencial da técnica, embora reconheçam limitações relacionadas a amostras muito diluídas ou compostos estruturalmente semelhantes. Mesmo assim, a possibilidade de análise preliminar de misturas abre caminho para futuros aprimoramentos, como algoritmos de deconvolução espectral mais sofisticados.
Um dos aspectos mais inovadores do sistema é sua integração em rede. Ao permitir que peritos compartilhem espectros e análises em tempo real, a plataforma deixa de ser apenas um software de registro para se tornar um repositório colaborativo de inteligência forense. Esse modelo rompe barreiras geográficas, possibilita a consulta a especialistas remotos e potencializa o valor de cada dado coletado em campo. Assim, cada espectro armazenado não representa apenas uma análise isolada, mas parte de uma biblioteca coletiva em constante expansão, capaz de fortalecer investigações futuras e gerar padrões de referência mais robustos.
O estudo também reconhece limitações. A dependência de conexão à internet, por exemplo, pode comprometer o pleno uso em locais remotos ou de difícil acesso. Além disso, a sensibilidade do equipamento ainda não é suficiente para análises confirmatórias, o que reforça seu papel de ferramenta de apoio inicial. Os autores indicam perspectivas de trabalhos futuros, incluindo a ampliação da biblioteca espectral, a incorporação de técnicas de segurança mais avançadas, como criptografia de ponta a ponta, e o aprimoramento de algoritmos para lidar com amostras complexas e de baixa concentração.
Na conclusão, destaca-se que a combinação de um espectrômetro UV-Vis portátil com uma plataforma web colaborativa constitui uma inovação de impacto para a área da perícia criminal. O sistema demonstrou robustez, confiabilidade e aplicabilidade direta em campo, oferecendo não apenas análises rápidas, mas também uma base de dados colaborativa que transforma a prática pericial em um processo mais ágil, integrado e inteligente. O dispositivo representa um proof-of-concept sólido para a viabilidade de soluções baseadas em hardware aberto e software dedicado, reforçando o papel das tecnologias acessíveis na modernização da Medicina Legal e da Perícia Criminal.
Em síntese, o artigo mostra que a inovação tecnológica aplicada de forma estratégica pode reconfigurar paradigmas tradicionais da ciência forense. Ao levar a espectroscopia UV-Vis para o campo, integrando-a a uma plataforma digital colaborativa, cria-se não apenas uma ferramenta de análise, mas um ecossistema de inteligência pericial em rede, com potencial de acelerar investigações, reduzir custos e fomentar a cooperação entre profissionais. Tal abordagem se alinha às demandas contemporâneas de agilidade, precisão e interdisciplinaridade, projetando um cenário no qual a perícia em campo se torna mais dinâmica, participativa e eficaz.







