Resumos

Tipologia e perfil psicopatológico dos agressores em familicídios no Brasil (2001-2024)

Os autores informam não haver conflito de interesse.

Daniel Felix Valsechi (1)

Débora Ribeiro de Almeida (1)

Pedro Henrique Silva Cruz (1)

Victor Rocha Tolentino (1)

(1) )[Escola de Saúde Pública do Distrito Federal.

INTRODUÇÃO: O familicídio é definido como o assassinato de múltiplos membros da família do agressor. Embora a definição clássica envolva o homicídio do parceiro atual ou prévio e de pelo menos um filho, estudos recentes ampliaram o conceito de familicídio para abranger outros familiares e diferentes vínculos com o autor do crime. A incidência mundial é estimada em 1 a 2 casos por 10 milhões de pessoas, mas no Brasil permanece desconhecida. Há estudos nacionais em psiquiatria forense sobre determinados homicídios intrafamiliares (como parricídio, matricídio, filicídio e fratricídio), porém são escassas as pesquisas científicas sobre familicídio. Apesar da comoção social e ampla cobertura midiática após a ocorrência desses crimes, não há legislação específica e o Projeto de Lei n. 215/2023 não define o termo com precisão. Diante dessa lacuna na literatura científica, especialmente nos campos da medicina legal e da psiquiatria forense, o presente estudo busca caracterizar o perfil psicopatológico dos agressores e propor uma tipologia dos familicídios ocorridos no Brasil.

MATERIAL E MÉTODO: O estudo é ecológico, observacional e documental, com abordagem quali-quantitativa e caráter exploratório-descritivo, voltado à análise do perfil psicopatológico e da tipologia dos agressores em familicídios ocorridos no Brasil entre 2001 e 2024. Diante da inexistência de dados oficiais sobre o tema, as informações foram obtidas a partir de reportagens jornalísticas, fragmentos de sentenças judiciais e comunicados públicos disponíveis na internet. A busca utilizou operadores booleanos combinando termos relacionados a homicídios e vínculos familiares, com aplicação da metodologia bola de neve para identificar casos adicionais e complementar informações. Adotou-se a definição ampliada de familicídio como homicídio doloso e/ou tentativa de homicídio contra dois ou mais membros da família do agressor, resultando em pelo menos uma morte. Foram excluídos casos sem vítimas fatais, ocorridos fora do Brasil, homicídios isolados, acidentes, crimes culposos, eventos sem vínculo familiar direto, ocorrências fora do período de análise, entre outros. As informações, coletadas entre julho e setembro de 2025, foram organizadas em planilha compartilhada entre os pesquisadores, estruturada segundo o Heptâmetro de Quintiliano. As variáveis foram agrupadas em três seções: 1) características espaço-temporais, incluindo data, local e tipo de ambiente do crime; 2) características do agressor, como idade, sexo, histórico psiquiátrico e criminal, motivação, uso de substâncias, desfecho e sinais de alerta; e 3) características das vítimas e médico-legais, abrangendo idade, sexo, relação com o agressor, mecanismos de morte, tipo de agente vulnerante e localização das lesões. Termos imprecisos das fontes jornalísticas foram ajustados conforme o uso típico dos instrumentos, com base na classificação de Borri. Após a sistematização dos casos, as variáveis foram transformadas em registros dicotômicos em uma planilha auxiliar. A tipologia australiana de Cullen e Fritzon serviu como base para a seleção de variáveis, totalizando 35 que englobam aspectos comportamentais, motivacionais e instrumentais, como agressividade, uso de armas, vínculos familiares, fatores econômicos, transtornos mentais e tentativas de suicídio. A análise estatística foi realizada no software Jamovi (módulo jMDS), com aplicação do escalonamento multidimensional, técnica que representa graficamente a similaridade entre variáveis. Utilizou-se o coeficiente de Jaccard para medir distâncias entre variáveis, e o algoritmo SMACOF foi executado em 71 iterações para minimizar o estresse do modelo. O resultado tridimensional foi projetado em mapa bidimensional, permitindo a identificação de agrupamentos de variáveis, posteriormente comparados à Teoria do Sistema de Ação Facetada (FAST) e sendo classificados em quatro tipos de modos de ação: expressivo, adaptativo, integrativo e conservador. A consistência interna de cada agrupamento foi verificada pelo alfa de Cronbach (α). Em seguida, procedeu-se à descrição das tipologias resultantes, analisando-as segundo a psicopatologia descritiva e em comparação com estudos internacionais. Adicionalmente, aplicaram-se filtros para reunir variáveis relacionadas ao uso de substâncias psicoativas, histórico psiquiátrico e ocorrência de suicídio – foram extraídos descritores textuais das reportagens que indicavam traços comportamentais e psicopatológicos, ocorrência de suicídio ou tentativa após o crime e uso de álcool e outras drogas.

RESULTADOS: A análise de escalonamento multidimensional agrupou as 35 variáveis em quatro tipologias de familicídio, conforme o modelo FAST. O valor de stress (0,217) e o R² não-métrico (0,953) indicaram boa preservação da estrutura das dissimilaridades, validando a configuração espacial. Embora alguns quadrantes tenham apresentado consistência interna baixa ou moderada, os resultados mantiveram coerência teórica com o modelo original, justificando a manutenção das categorias. O modo Integrativo agrupou as variáveis parricídio, fratricídio, psicose, dinheiro, asfixia, fogo, múltiplos e contundentes (α=0,543). Caracteriza-se por atos explosivos e desorganizados, motivados por intensas emoções e sintomas psicóticos, frequentemente voltados contra pais e irmãos. Reflete a destruição do núcleo familiar, com múltiplas vítimas e métodos de alta letalidade. O modo Expressivo (α=0,112) incluiu guarda, público, vingança, veneno, sexual, vanglória e gestante. Esses crimes apresentam caráter simbólico e comunicativo: o agressor utiliza o homicídio para expressar sentimentos destrutivos, buscando destruir vínculos afetivos ou familiares em formação. São ações cometidas em locais públicos, motivadas por vingança ou disputas conjugais, com comportamentos de exibição e autovalorização. O modo Adaptativo (α=0,653) apresentou consistência moderada, incluindo as variáveis arma, alerta, mensagem, relacionamento, doméstica, criminal, agressividade, suicídio, depressão, familiares, filicídio, uxoricídio e tiro. Nesses casos, as ações são planejadas e motivadas por pressões externas, especialmente conflitos conjugais e familiares. O uso de armas de fogo e a escrita de mensagens de despedida sugerem premeditação e intenção de controle. O agressor demonstra traços de agressividade, sintomas depressivos e histórico de violência doméstica, frequentemente culminando em suicídio após os homicídios. O modo Conservador (α=0,449) reuniu feminicídio, casa, drogas, descompensação, excesso, perfurocortante e preso. Trata-se de uma resposta reativa a estressores externos, geralmente em contexto doméstico. Os crimes são cometidos de forma impulsiva, sob efeito de álcool ou drogas, e resultam com frequência na prisão do agressor. O predomínio de vítimas mulheres reforça a dimensão de vulnerabilidade e impulsividade, associada à deterioração mental e emocional prévia. A análise de 85 casos com histórico psiquiátrico revelou predominância masculina (89%) e média de idade de 35,4 anos. Transtornos da personalidade e comportamento foram os mais prevalentes (62,4%), seguidos por transtornos de humor (24,7%) e psicoses (12,9%). Entre os que cometeram suicídio após o crime (n=88), 18,2% apresentavam transtornos de humor e 17% traços de personalidade antissocial ou impulsiva, com média etária de 40,1 anos. O uso de álcool e drogas foi identificado em 41 casos (98% homens), com média de 31,1 anos. O vínculo entre dependência química, instabilidade emocional e comportamentos violentos reforça a importância da patologia dual como fator de risco. Em síntese, o perfil psicopatológico típico dos agressores brasileiros de familicídio corresponde a homens jovens ou de meia-idade, frequentemente em sofrimento psíquico, com histórico de conflitos conjugais, abuso de substâncias e risco de autoextermínio após o crime.

DISCUSSÃO: Os resultados indicam que os agressores de familicídio no Brasil compartilham perfis psicopatológicos semelhantes aos descritos em estudos internacionais, com predominância de homens adultos, histórico de uso de substâncias psicoativas, presença de transtornos mentais graves ou da personalidade e elevada incidência de comportamento suicida. A análise foi estruturada em quatro eixos: uso de álcool e drogas, psicose primária, transtornos de humor e transtornos da personalidade. O consumo de substâncias aparece como o fator mais prevalente entre os autores de familicídio, confirmando achados internacionais que associam abuso de álcool e drogas à violência intrafamiliar. No estudo, 41 agressores (97,6% homens) apresentavam histórico de uso de substâncias, com média etária de 31,1 anos. A maioria (56%) não possuía diagnóstico psiquiátrico definido, evidenciando lacunas nos registros públicos. Entre os casos com diagnóstico conhecido, 29,3% apresentavam transtornos de personalidade, 9,7% transtornos de humor e 4,9% psicoses. Os resultados reforçam que o uso de substâncias atua como potencializador da impulsividade, reduzindo o controle inibitório e favorecendo desfechos fatais em contextos de conflito familiar. A psicose, especialmente a esquizofrenia, surge em proporção reduzida entre os autores de familicídio (5,1% dos casos), sendo que delírios persecutórios, místicos ou religiosos, alucinações auditivas e desorganização do pensamento foram os sintomas mais relatados. Muitos episódios foram precedidos por conflitos familiares ou ameaças de internação. Ainda assim, destaca-se que o risco de homicídio por quadros psicóticos é baixo, uma vez que a maioria das pessoas com esquizofrenia não comete atos de violência. No estudo, os diagnósticos foram inferidos indiretamente por meio de termos como “surto psicótico” ou “ouvia vozes”, o que limita a precisão diagnóstica. A exclusão de descrições vagas (“louco”, “tratamento psiquiátrico” etc.) reduziu o viés de classificação. Reforça-se que o tratamento precoce e a adesão terapêutica são estratégias essenciais de prevenção, pois a psicose, embora relevante em alguns homicídios familiares, representa uma minoria dos casos. Os transtornos depressivos e bipolares foram identificados em 21 casos (9,8%), com predominância masculina (81%) e média de idade de 43 anos. Dois casos apresentavam diagnóstico explícito de transtorno bipolar. Apesar de pouco frequentes, esses quadros se associam fortemente ao suicídio: 76,2% dos agressores com transtorno de humor cometeram autoextermínio, proporção semelhante à observada em estudos internacionais. Em contraste, a literatura estrangeira descreve prevalência mais alta desses transtornos, sobretudo entre mulheres. As divergências decorrem de limitações metodológicas, visto que as informações derivam majoritariamente de reportagens, sem laudos periciais. Mesmo assim, a presença de sintomas depressivos e ideação suicida reforça o papel do adoecimento psíquico como gatilho para crimes seguidos de suicídio. Observa-se também possível sobreposição entre transtornos de humor e sintomas psicóticos, como ocorre em episódios depressivos graves e fases maníacas do transtorno bipolar, sugerindo que parte dos casos psicóticos pode derivar de quadros afetivos. Os transtornos da personalidade ou alterações comportamentais foram o grupo mais representativo, observados em 53 casos (24,8%), quase todos do sexo masculino (92,5%), com 22% apresentando associação com uso de substâncias. Traços como frieza emocional, hostilidade, agressividade, possessividade e ausência de empatia foram descritos, compatíveis com personalidades antissociais, narcisistas e borderline. Um caso apresentou diagnóstico explícito de transtorno borderline. Esses achados corroboram descrições clássicas do familicida como homem controlador e violento, incapaz de aceitar o término do relacionamento ou a reconfiguração da família (por exemplo, gravidez ou novos parceiros da vítima). Em diversos casos, o crime surge como ato de vingança ou preservação da autoridade sobre o grupo familiar.

CONCLUSÃO: O familicídio no Brasil é caracterizado por agressores predominantemente homens, com transtornos de personalidade, uso de substâncias psicoativas e elevado risco suicida. O estudo propõe um modelo conceitual que contribui para a psiquiatria forense e para a formulação de políticas públicas integradas de prevenção, ampliando a avaliação pericial e o enfrentamento da violência intrafamiliar.


Referências bibliográficas