Relato de Caso

A IMPORTÂNCIA DA ANTROPOLOGIA FORENSE NA IDENTIFICAÇÃO DE VÍTIMAS EM MORTES POR TRAUMAS CONTUNDENTES DE ALTA ENERGIA: RELATO DE CASO

Como citar: Vieira ALF, Cardoso GMC, Alves CF, Moura MFR. A importância da antropologia forense na identificação de vítimas em mortes por traumas contundentes de alta energia: relato de caso. Persp Med Legal Pericia Med. Vol. 10, 2025; 250840.

https://dx.doi.org/10.47005/250840

Aceito em 04/09/2025

O autor informa não haver conflito de interesse.

THE IMPORTANCE OF FORENSIC ANTHROPOLOGY IN VICTIM IDENTIFICATION IN DEATHS DUE TO HIGH ENERGY BLUNT TRAUMA: CASE REPORT

Ana Luiza França Vieira

Conceitualização, Pesquisa, Redação do manuscrito original

https://orcid.org/0009-0008-4970-8831 - http://lattes.cnpq.br/2100314869828471

Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG, Belo Horizonte, MG

Gabriela Maciel Campolina Cardoso

Conceitualização, Curadoria de dados, Análise de dados, Supervisão/ Orientação

https://orcid.org/0000-0002-1612-1304 - http://lattes.cnpq.br/5846143665680190

Polícia Civil de Minas Gerais , Belo Horizonte, MG

Cibele Fontes Alves

Conceitualização, Curadoria de dados, Análise de dados, Supervisão/ Orientação

https://orcid.org/0000-0003-2390-3686 - http://lattes.cnpq.br/2331139776496333

Polícia Civil de Minas Gerais , Belo Horizonte, MG

Mateus Feliciano Resende Moura

Conceitualização, Curadoria de dados, Análise de dados, Supervisão/ Orientação, Redação - revisão e edição

https://orcid.org/0000-0003-2054-258X - http://lattes.cnpq.br/0674952452452984

Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG, Belo Horizonte, MG

Resumo

INTRODUÇÃO: Em acidentes envolvendo grande quantidade de energia cinética, muitas vezes a identificação de vítimas por meios tradicionais é impossibilitada ou dificultada. Esse relato de caso tem como objetivo demonstrar, nessas situações, a importância da antropologia forense, que estuda segmentos corporais, ossadas ou corpos em avançado estado de putrefação com o propósito de identificação. MÉTODOS: Trata-se da necropsia de um adulto do sexo masculino, cuja causa de morte foi identificada como politraumatimo contuso, em razão de acidente aéreo. DESCRIÇÃO: O legista fez uso de exame tomográfico do corpo, com ênfase em estruturas ósseas, do método Suchey-Brooks para estimativa da idade e de exame necropapiloscópico para realização da identificação da vítima. DISCUSSÃO: É, portanto, importante que tenha-se conhecimento dos demais métodos disponíveis para reconhecimento de corpos quando meios tradicionais não estão disponíveis.

Palavras Chave: Politraumatismo, Antropologia Forense, Identificação, Alta Energia

Abstract

INTRODUCTION: In accidents involving a large amount of kinetic energy, victim identification through traditional means is often impossible or highly challenging. This case report aims to demonstrate the importance of forensic anthropology in these situations, as it involves the study of body segments, skeletal remains, or bodies in advanced stages of decomposition for identification purposes. METHODS: The case involves an autopsy of an adult male whose cause of death was identified as blunt force polytrauma due to an aviation accident. DESCRIPTION: The forensic pathologist used a CT scan of the body, focusing on bone structures, the Suchey-Brooks method for age estimation, and necropapilloscopy for victim identification. DISCUSSION: Therefore, it is important to be knowledgeable about additional methods available for body identification when traditional methods are not feasible.

Keywords (MeSH): Blunt Trauma, Forensic Anthropology, Identification, High Energy

1. INTRODUÇÃO

Politraumatismo é o termo utilizado para designar a presença de lesões graves em dois ou mais órgãos ou partes do corpo (1). Em acidentes com alta energia cinética envolvida, como acidentes aéreos, muitas vezes o politraumatismo impede ou dificulta a identificação das vítimas por afetar meios tradicionais de reconhecimento, como datiloscopia ou análise odontológica (2). Nesse cenário, a antropologia forense é extremamente valiosa.

Definida como um ramo da antropologia que estuda segmentos corporais, ossadas ou corpos em avançado estado de putrefação com o propósito de identificação (3), a antropologia forense faz uso de identificadores como morfologia facial, sinais particulares (tatuagens e cicatrizes), características do esqueleto humano e anomalias anatômicas para possibilitar o reconhecimento de cadáveres (2). Além da identificação de características específicas da vítima, como tatuagens ou peças de roupa, que podem ser comparadas com relatos ante-mortem, a antropologia forense também faz uso de métodos como exames de imagem ou análise esquética para a estimativa de fatores como sexo e idade, também importantes no processo de identificação. A antropologia forense atua também diretamente, em questões relativas ao foro, no que diz respeito a elucidação da causa médico legal da morte dos fragmentos corporais, dos corpos com elevada destruição pelos mecanismos que perpassam grande violência na causalidade do dano com desfecho morte, e dos cadáveres em avançado estado de putrefação.

É, portanto, crucial que essas técnicas de identificação sejam de amplo conhecimento, principalmente no que tange a acidentes de grande porte.

2. MATERIAIS E MÉTODOS

As informações descritas neste relato se baseiam no laudo pericial produzido pela Polícia Civil de Minas Gerais. A discussão foi pautada em consulta à literatura disponível e seleção de artigos como referencial teórico.

3. DESCRIÇÃO

Trata-se da necropsia de um adulto do sexo masculino, cuja causa de morte foi identificada como politraumatimo contuso, em razão de  acidente aéreo, com alta energia envolvida resultando na queda da aeronave no ano de  2024.

 A queda do avião resultou na morte dos tripulantes que estavam a bordo. O resgate dos corpos sucedeu com a o requisição de necropsia das vítimas, incluindo um cadáver do sexo masculino, identificado pela genitália externa. Sua cor foi determinada pela observação de pele preservada e sua altura pela medida direta do corpo sobre a mesa de necropsia. 

A cronotanatognose permitiu estipular que o tempo estimado de morte era superior a 12 horas. Suas principais lesões foram produzidas por ação contundente, levando ao diagnóstico de causa de morte como politraumatismo contuso. 

Apesar da ação contundente, havia preservação do desenho digital de ambas as mãos, que possibilitou  exame necropapiloscópico  com resultado positivo. Também foram colhidas amostras biológicas para estudo genético e exame anatomopatológico. 

Na análise dos restos mortais, foram observadas áreas com presença de osteófitos (“bicos de papagaio”) se projetando dos corpos das vértebras torácicas inferiores. Também foi solicitado exame tomográfico que evidenciou reconstruções tomográficas tridimensionais do corpo com ênfase em estruturas ósseas. Corroborado pelo achado de osteófitos na coluna vertebral e pelo estudo da superfície sinfisial, compatível com fase V de Suchey Brooks (método que estima idade por meio de análise da sínfise púbica), estimou-se o intervalo de idade como em torno de 45,6 anos ± 10,4 anos.

Imagem 1: Fotografia panorâmica do cadáver (imagem à esquerda). Imagens tomográficas com ênfase nos tecidos ósseos (demais imagens).

Imagem 2: Detalhe dos osteófitos assinalados em azul e detalhe da área de solução de continuidade em amarelo.

3. DISCUSSÃO

Em acidentes de grande impacto, como quedas de aeronave, ou de grande escala, tal qual desastres naturais, não é incomum que métodos considerados como “padrão ouro” de identificação não estejam acessíveis. O guia de Identificação de Vítimas de Desastres, publicado pela Interpol e reconhecido em diversos países, nota que o ideal é realizar a identificação de vítimas por meio de “Identificadores Primários”: DNA, impressões digitais, registros odontológicos e próteses com números de série individuais (4). Quando o acesso a esses identificadores não é possível, a antropologia forense permite que outros caminhos sejam abertos para o reconhecimento de cadáveres: após o Tsunami no Japão em 2011, cerca de 90% das vítimas foram identificadas por meio de reconhecimento visual e de objetos pessoais/roupas (5).

Além disso, a antropologia forense também se faz útil em análises de cadáveres que já passaram pelo processo de decomposição ou estão em estado de putrefação extrema: Um estudo croata (6) demonstrou que a identificação de corpos exumados após a guerra de 1991 ocorreu, em sua maioria, por meio de “uma combinação de fatores biológicos e não biológicos”.

Caso a identificação da vítima se prove difícil em primeiro momento, é possível lançar mão de estratégias que limitem o perfil do indivíduo, como determinação de sexo e de idade. No caso relatado, o legista fez uso do método Suchey-Brooks para estimar a idade da vítima, como uma margem de erro de ± 10,4 anos. O método consiste na análise da sínfise púbica, que geralmente se encontra preservada em cadáveres. Na sínfise, mudanças da superfície óssea ocorrem em todas as idades, desde a fusão da epífise na juventude até a degeneração da velhice, que acabam por possibilitar a datação óssea com uma margem confiável (7). 

A radiologia forense também tem importante papel nesse processo. Por meio da tomografia computadorizada, reconstruções 3D do sistema ósseo possibilitam o reconhecimento de anomalias anatômicas e processos degenerativos, além de sequelas de traumas ou procedimentos (8). Atualmente, o uso de realidade aumentada para criação de modelos de reconstrução de restos craniofaciais fragmentados é uma empolgante possibilidade que pode ser aperfeiçoada e amplamente distribuída no futuro  (9).

4. CONCLUSÃO

Na necrópsia acima, foi possível fazer uso da necropapiloscopia para a confirmação concreta da identidade da vítima, e foi realizada a coleta de material genético; entretanto, em cenários com carência de meios de análise de DNA ou de impossível identificação de impressões digitais a antropologia forense é uma ferramenta crucial para a identificação.  Esses cenários são, frequentemente, casos como o descrito, em que a energia distribuída no impacto foi alta e as vítimas sofreram politraumatismos importantes, ou situações em que corpos já passaram por decomposição extensa. O legista pode fazer uso de estratégias como análise de roupas e objetos pessoais, reconhecimento de sinais como cicatrizes e tatuagens, análise dos restos mortais e emprego de exames radiológicos para estimações de sexo e idade. O presente trabalho objetiva expor a possibilidade e a importância de lançar mão desses métodos quando meios mais fidedignos, como datiloscopia e estudos genéticos, não estão disponíveis. 

Referências bibliográficas

1. Butcher N, Balogh ZJ. The definition of polytrauma: the need for international consensus. Injury. 2009;40 Suppl 4:S12-S22. doi:10.1016/j.injury.2009.10.032
2. de Boer HH, Obertová Z, Cunha E, et al. Strengthening the role of forensic anthropology in personal identification: Position statement by the Board of the Forensic Anthropology Society of Europe (FASE). Forensic Sci Int. 2020;315:110456. doi:10.1016/j.forsciint.2020.110456
3. Franklin D. Forensic age estimation in human skeletal remains: current concepts and future directions. Leg Med (Tokyo). 2010;12(1):1-7. doi:10.1016/j.legalmed.2009.09.001
4. Interpol, Disaster Victim Identification Guide. Interpol, Lyon (2018)
5. Iino M, Aoki Y. The use of radiology in the Japanese tsunami DVI process. The use of radiology in the Japanese tsunami DVI process. Journal of Forensic Radiology and Imaging 2016;4:20-26. doi.org/10.1016/j.jofri.2015.12.006
6. Slaus M, Strinović D, Pećina-Slaus N, et al. Identification and analysis of human remains recovered from wells from the 1991 War in Croatia. Forensic Sci Int. 2007;171(1):37-43. doi:10.1016/j.forsciint.2006.10.003
7. S. Brooks, J.M. Suchey, Skeletal age determination based on the os pubis: a comparison of the Acsádi-Nemeskéri and Suchey-Brooks methods, Hum. Evol. 5 (1990) 227–238.
8. De Angelis D, Gibelli D, Palazzo E, Sconfienza L, Obertova Z, Cattaneo C. Skeletal idiopathic osteosclerosis helps to perform personal identification of unknown decedents: A novel contribution from anatomical variants through CT scan. Sci Justice. 2016;56(4):260-263. doi:10.1016/j.scijus.2016.03.003
9. Kolpan KE, Vadala J, Dhanaliwala A, Chao T. Utilizing augmented reality for reconstruction of fractured, fragmented and damaged craniofacial remains in forensic anthropology. Forensic Sci Int. 2024;357:111995. doi:10.1016/j.forsciint.2024.111995