Relato de Caso
A IMPORTÂNCIA DA AVALIAÇÃO NECROSCÓPICA NA DEFINIÇÃO NA CAUSA DA MORTE ASSOCIADA A SÍNDROME DO BEBÊ SACUDIDO: RELATO DE CASO
Como citar: Rocha IPG, Gazzola LDPL, Pereira GRDS, Amaral LHO. A importância da avaliação necroscópica na definição na causa da morte associada a síndrome do bebê sacudido: relato de caso. Persp Med Legal Pericia Med. Vol. 10, 2025; 250526.
https://dx.doi.org/10.47005/250526
Recebido em 13/11/2024
Aceito em 26/12/2025
O autor informa não haver conflito de interesse.
THE IMPORTANCE OF NECROSCOPIC EVALUATION IN DEFINING THE CAUSE OF DEATH ASSOCIATED WITH SHAKEN BABY SYNDROME: CASE REPORT
Resumo
INTRODUÇÃO: A síndrome do Bebê sacudido é uma forma de abuso infantil, que decorre do ato de chacoalhar violentamente um lactente, levando a movimentos cefálicos de rotação, aceleração e desacelaração. Esse quadro é caracterizado pela presença de lesões retinianas, hemorragia subdural e encefalopatia, cursando muitas vezes com sintomas inespecíficos. Devido a isso e ao fato que em muitos casos não há sinal externo de trauma, esse diagnóstico é difícil de ser feito, tornando a SBS um quadro muito desafiador. MATERIAIS E MÉTODOS: O presente trabalho se baseia no laudo produzido pela Polícia Civil e em 7 artigos que foram utilizados como referencial teórico. RELATO DE CASO: Neste relato, apresenta-se a necropsia de uma criança do sexo masculino de aproximadamente 2 meses de idade, que foi recebida no IML com história de óbito após broncoaspiração em agosto de 2017. Durante a necropsia, além de não se constatar sinais de aspiração, observou-se que a criança apresentava uma volumosa hemorragia intracraniana tanto no espaço subaracnóideo, quanto no espaço subdural, o que na ausência de fatores como hemofilia e deficiências nutricionais, indica a SBS como a provável causa da morte. DISCUSSÃO: A SBS é descrita na literatura como a causa mais comum de morte e lesões neurológicas graves em crianças com histórico de abuso. Ela afeta principalmente crianças menores de 1 ano, devido a imaturidade neuromuscular presente nessa faixa. CONCLUSÃO: Este estudo reforça a importância de considerar a SBS em casos suspeitos de maus-tratos e destaca o papel essencial da necropsia como recurso diagnóstico.
Palavras Chave: Palavras-chave: Síndrome do Bebê Sacudido, Abuso Físico, Violência, Autópsia.
Abstract
INTRODUCTION: Shaken Baby Syndrome (SBS) is a form of child abuse resulting from the violent shaking of an infant, leading to head movements involving rotation, acceleration, and deceleration. This condition is characterized by retinal injuries, subdural hemorrhage, and encephalopathy, often presenting with nonspecific symptoms. Due to these factors and the frequent absence of external signs of trauma, diagnosing SBS can be challenging, making it a particularly complex condition. MATERIALS AND METHODS: This study is based on a report produced by the Civil Police and seven articles used as theoretical references. CASE REPORT: This report presents the necropsy of a male infant, approximately 2 months old, who was received at the Forensic Medical Institute (IML) with a history of death following bronchoaspiration in August 2017. During the necropsy, no signs of aspiration were found, but a large intracranial hemorrhage was observed in both the subarachnoid and subdural spaces, which, in the absence of factors such as hemophilia and nutritional deficiencies, suggests SBS as the probable cause of death. DISCUSSION: SBS is described in the literature as the most common cause of death and severe neurological injuries in children with a history of abuse. It primarily affects children under 1 year of age due to the neuromuscular immaturity characteristic of this age group. CONCLUSION: This study emphasizes the importance of considering SBS in suspected cases of abuse and highlights the essential role of necropsy as a diagnostic tool.
Keywords (MeSH): Keywords: Shaken Baby Syndrome, Physical Abuse, Violence, Autopsy.
1. INTRODUÇÃO
A violência infantil é caracterizada pelo uso da força física ou do poder de ameaça por parte dos pais ou cuidadores contra a criança, podendo se manifestar nas esferas emocionais, físicas ou psicológicas. No Brasil, somente em 2019 o “disque 100” recebeu 86.837 denúncias de abuso infantil que compreendiam negligência, violência física e violência psicológica, o que é uma perspectiva desafiadora do ponto de vista social e de saúde pública. (1)
No que tange à violência física, cerca de 45% das mortes ocorrem em crianças menores de 1 ano (2), sendo o traumatismo craniano a causa mais comum de morte não acidental nessa faixa etária. Essas lesões podem ser provocadas por trauma contundente, sacudidas e combinação dessas com outras forças. Esse conjunto de afeções podem ser encontradas na Síndrome do Bebê Sacudido, que é uma forma de abuso infantil que se apresenta com hemorragia subdural e subaracnoídea, lesões retinianas e ósseas.
Como na citada síndrome o quadro clínico é muito inespecifico e comumente não há sinais de outras lesões externas, esse diagnóstico é difícil de ser realizado (2). Portanto, é importante que tanto os pediatras quanto os médicos legistas mantenham-se atentos sobre a síndrome ao conduzir a avaliação de crianças.
2. MATERIAIS E MÉTODOS
As informações descritas neste trabalho se baseiam no laudo pericial produzido pela Polícia Civil de Minas Gerais. Para realização da discussão, foi realizada consulta bibliográfica em bases de dados médicos e foram selecionados sete artigos como referencial teórico.
3. RELATO DE CASO
Neste relato, apresenta-se a necropsia de uma criança do sexo masculino de aproximadamente 2 meses de idade, que foi recebida no IML com história de óbito após broncoaspiração em agosto de 2017.
Segundo o histórico de ocorrência, a genitora relatou que, por volta das 10:30, havia oferecido água à criança e que, ao levar o bebê para o banho, notou que ele estava choroso. De acordo com ela, após o banho, quando foi vestir a criança, observou sinais de cianose e a saída de secreção aquosa pelas narinas e boca do lactente. O SAMU e o Corpo de Bombeiros foram acionados, tendo sido orientadas algumas medidas até a chegada do atendimento. O Corpo de Bombeiros foi o primeiro a prestar assistência, realizando manobras de ressuscitação, porém sem sucesso. O atendimento foi assumido pela equipe do SAMU, que constatou o óbito. Como se tratava de uma causa externa de morte, o corpo foi encaminhado para avaliação médico-legal.
Ao exame necroscópico, não se constatou presença macroscópica de corpo líquido ou sólido na região cervical e torácica ou lesão tecidual nestas regiões, como seria esperado em um quadro de broncoaspiração.

Figuras 1 e 2: Demonstrando ausência de sinais de broncoaspiração
No entanto, observou-se que a criança apresentava uma volumosa hemorragia intracraniana, tanto no espaço subaracnoídeo, quanto no espaço subdural. Não havia fraturas na calota craniana indicando que o provável mecanismo de trauma foi indireto, possivelmente aceleração e desaceleração.

Figura 3: Presença de hemorragia intracraniana em região parietotemporal esquerda
Além disso, foram identificadas escoriações na região perianal, perineal e na parte posterior da coxa, compreendendo uma área de 22 cm2, em um quadro sugestivo de “assadura”. Convém ressaltar que esse tipo de lesão está associado a longos períodos de exposição a agentes irritativos como umidade, urina e as fezes. Pelo nível de profundidade e pelo tamanho das lesões, pode se pressupor que a criança não recebia os devidos cuidados no que tange a higienização, o que pode ser um indicativo de negligência.

Figura 4: Presença de escoriações em glúteos, escroto e coxa compreendendo a uma área de 22cm2
Nessa perspectiva, a presença dessa hemorragia na ausência de outros fatores, como hemofilia e deficiências nutricionais, pode contribuir para se indicar a Síndrome do Bebê Sacudido como provável causa da morte.
4. DISCUSSÃO
A Síndrome do Bebê Sacudido é descrita na literatura como a causa mais comum de morte e lesões neurológicas graves em crianças com histórico de abuso. O nome que dá origem à síndrome foi cunhado em 1974, por John Caffey um radiologista americano, com contribuições importantes de Kempe e Guthkelch.(3)
A fisiopatologia desse quadro ainda é bastante discutida na literatura. Contudo, muitos estudiosos argumentam que, ao se chacoalhar um bebê violentamente, a cabeça da criança chicoteia para frente e para trás, com movimentos de aceleração, desaceleração e rotação. Acredita-se que esse tremor leve a um estiramento e ruptura das veias pontíneas e consequentemente a um hematoma subdural. Além disso, esse processo de aceleração e desaceleração está associado a hemorragia subaracnoídea, lesão axonal difusa, hemorragia intracraniana e edema cerebral. Convém ressaltar também que em muitos casos é encontrada a presença de hemorragia retiniana, que se relaciona com o aumento da pressão intraocular e com o processo de tração dos vasos retinianos durante o incidente traumático. Ressalte-se ainda que o quadro também pode acarretar fraturas de costela, dos ossos do crânio e dos membros superiores (4).
A faixa etária atingida é principalmente abaixo de 1 ano. Acredita-se que se deva ao fato de a cabeça da criança ser proporcionalmente maior nessa idade, com músculos do pescoço ainda pouco desenvolvidos e, portanto, com menor capacidade de resistir às forças de tração. Além disso, muitas vias nervosas ainda estão em processo de mielinização sendo mais propensas ao estiramento e as fontanelas não estão consolidadas, o que propicia maior tração das estruturas aderidas a elas e, consequentemente, maiores lesões. (5)
Do ponto de vista clínico, a síndrome possui apresentação heterogênea, podendo a criança apresentar vômitos, letargia, inconsciência, irritabilidade, dificuldade de se alimentar e sinais de instabilidade como palidez, hipotermia, cianose, apneia e respiração irregular. (4)
No caso em análise, o quadro inicialmente apresentado pela criança caracterizado por irritabilidade, cianose e regurgitação do conteúdo ingerido, provavelmente se tratava de apresentação clínica da Síndrome do Bebê Sacudido, que, pela semelhança e relato de ingestão de água recente, levou erroneamente ao diagnóstico de obstrução de vias aéreas. O fato demonstra a dificuldade de definição diagnóstica e manejo de crianças vítimas dessa forma de abuso. Convém destacar que, no caso descrito, o diagnóstico só pode ser realizado através da necropsia, evidenciando o papel crucial dessa ferramenta na investigação de casos em que há suspeita de violência.
Portanto, é de extrema importância que os profissionais em saúde, ao atender crianças com quadros inespecificos, realizem uma anamnese aprofundada e um exame físico completo. Além disso, é fundamental que se observe se há sinais de trauma, histórias de queda e se o relato dos cuidadores é compatível com o quadro apresentado pela criança, a fim de que se realize o diagnóstico de forma célere, evitando uma conduta inadequada para o caso e o retorno da criança a um ambiente violento. (2)
No tocante à necropsia, é importante que as avaliações macro e microscópicas sejam realizadas de forma criteriosa. Deve-se analisar o crânio e as estruturas encefálicas, procurando focos de hemorragia, avaliando globos oculares e nervos ópticos, além de ossos costais, membros superiores e inferiores na busca de possíveis fraturas. Além disso, deve-se ao máximo avaliar se a criança apresenta algum outro sinal de maus-tratos, como hematomas, escoriações e equimoses. (6)
5. CONCLUSÃO
A Síndrome do Bebê Sacudido é um quadro extremamente comum e desafiador para os profissionais de saúde, estando muitas vezes relacionada a desfechos graves. O presente trabalho tem como objetivo demonstrar a importância de os profissionais de saúde terem em mente esse quadro ao atender um paciente com suspeita de maus-tratos e destacar a importância da avaliação necroscópica em casos que o mecanismo de morte não está bem estabelecido.
AGRADECIMENTOS
Cumprimentamos a Polícia Civil de Minas Gerais e externamos nossos agradecimentos mediante a possibilidade de produzir conhecimento técnico-científico com a apresentação deste trabalho. Deixamos, também, nossas homenagens à Superintendência de Polícia Técnico Científica da PCMG pela cooperação prestada na elaboração deste projeto
Referências bibliográficas
1. Silva Beyle. As práticas profissionais realizadas em situações de maus-tratos infantis: uma revisão integrativa. Ciênc. saúde coletiva [Internet]. 2023 Jun 01 [cited 2024 Jul 6];28 Available from: https://www.scielo.br/j/csc/a/JySm8L9HchJtYZ57y3g7B5J/#
2. Christian Cindy. Abuso infantil: Avaliação e diagnóstico de traumatismo craniano abusivo em bebês e crianças. Up to date [Internet]. 2023 Sep 18 [cited 2024 Jul 6]; Available from: https://www.uptodate.com/contents/child-abuse-evaluation-and-diagnosis-of-abusive-head-trauma-in-infants-and-children?source=history_widget
3. Blumenthal I. Shaken baby syndrome. Postgrad Med J. 2002 Dec;78(926):732-5. doi: 10.1136/pmj.78.926.732. PMID: 12509690; PMCID: PMC1757926.
4. Martin HA, Woodson A, Christian CW, Helfaer MA, Raghupathi R, Huh JW. Shaken baby syndrome. Crit Care Nurs Clin North Am. 2006 Sep;18(3):279-86. doi: 10.1016/j.ccell.2006.05.001. PMID: 16962449.
5. Fernandes Yvens. Síndrome do bebê Skaken: relato de caso. Arq. Neuro-Psiquiatra [Internet]. 1995 Sep 01 [cited 2024 Jul 6];53 DOI https://doi.org/10.1590/S0004-282X1995000400017.
6. Oruç M, Dündar AS, Okumuş H, Görmez M, Şamdancı ET, Celbiş O. Shaken baby syndrome resulting in death: a case series. Turk J Pediatr. 2021;63(1):31-36. doi: 10.24953/turkjped.2021.01.004. PMID: 33686824.
7. Mian M, Shah J, Dalpiaz A, Schwamb R, Miao Y, Warren K, Khan S. Shaken Baby Syndrome: a review. Fetal Pediatr Pathol. 2015 Jun;34(3):169-75. doi: 10.3109/15513815.2014.999394. Epub 2015 Jan 23. PMID: 25616019







