Artigo Original

Avaliação da virtópsia radiológica como método de substituição das necrópsias tradicionais nos casos de morte por ferida transfixante, na região craniana, decorrente de ação pérfuro-contundente (projétil de arma de fogo)

Como citar: Chambriard CJ, Souza SALD, Menegassi ZJB. Avaliação da virtópsia radiológica como método de substituição das necrópsias tradicionais nos casos de morte por ferida transfixante, na região craniana, decorrente de ação pérfuro-contundente (projétil de arma de fogo). Persp Med Legal Pericia Med. Vol. 11, 2026; 260428.

https://dx.doi.org/10.47005/260428

Recebido em 26/04/2026
Aceito em 29/04/2026

O autor informa não haver conflito de interesse.

EVALUATION OF RADIOLOGICAL VIRTOPSY AS A SUBSTITUTION METHOD FOR TRADITIONAL NECROPSIS IN CASES OF DEATH BY TRANSFIXING WOUND IN THE CRANIAL REGION, DUE TO PUNCHING ACTION (FIREGUN PROJECTILE)

Claude Jacques Chambriard

Conceitualização, Pesquisa, Supervisão/ Orientação, Redação - revisão e edição

https://orcid.org/0000-0003-0124-0930 - http://lattes.cnpq.br/6391220773880758

Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ

Sérgio Augusto Lopes de Souza

Pesquisa

https://orcid.org/0000-0002-7901-4805 - http://lattes.cnpq.br/6829155093609377

Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ

Zartur José Barcelos Menegassi

Pesquisa, Redação - revisão e edição

https://orcid.org/0000-0002-6902-0136 - http://lattes.cnpq.br/1871351954460851

Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ

Resumo

A investigação médico-legal atual tem cada vez mais ao seu dispor técnicas de exames de imagem que visam auxiliar o diagnóstico da causa de morte e mecanismos fisiopatológicos determinantes da mesma. Contudo, a dúvida levantada pela utilização desses métodos é se estes poderiam vir a ser substitutos da necrópsia convencional, ou se apenas têm capacidade de ser implementados como adjuntos da mesma. Neste trabalho, tentou-se focar os pontos a favor e contra de uma das técnicas utilizadas, modernamente, aparelho de Raios X, e fazer uma análise comparativa entre este método, no caso de feridas transfixantes por ação pérfuro contundente decorrente de projétil de arma de fogo (PAF), na região craniana, identificando2 se as estruturas lesionadas, assim como analisar o benefício de menor invasibilidade do corpo humano. ABSTRACT The current medico-legal investigation has more and more at its disposal imaging exam techniques that aim to help diagnose the cause of death and its underlying pathophysiological mechanisms. However, the question raised by the use of these methods is whether they could come to be a substitute for conventional necropsy, or whether they are only capable of being implemented as an adjunct to it. In this work, an attempt was made to focus on the points in favor and against of one of the techniques used today, the X-Ray apparatus, and to make a comparative analysis between this method, in the case of transfixing wounds by blunt perforation action resulting from a projectile of a weapon. fire (PWF), in the skull region, identifying the injured structures, as well as analyzing the benefit of less invasiveness to the human body.

Abstract

The current medico-legal investigation has more and more at its disposal imaging exam techniques that aim to help diagnose the cause of death and its underlying pathophysiological mechanisms. However, the question raised by the use of these methods is whether they could come to be a substitute for conventional necropsy, or whether they are only capable of being implemented as an adjunct to it. In this work, an attempt was made to focus on the points in favor and against of one of the techniques used today, the X-Ray apparatus, and to make a comparative analysis between this method, in the case of transfixing wounds by blunt perforation action resulting from a projectile of a weapon. fire (PWF), in the skull region, identifying the injured structures, as well as analyzing the benefit of less invasiveness to the human body.

1. INTRODUÇÃO

Tendo como paradigma o momento pelo qual o mundo passou, mais precisamente a pandemia de coronavírus (COVID-19), e a recomendação da Associação Brasileira de Medicina Legal e Perícias Médicas (ABMLPM)1, quanto a não realizar necrópsia nos cadáveres das pessoas que morreram de COVID19, independentemente de serem casos classificados como investigados, prováveis ou confirmados, exceto por indicações clinicas bem fundamentadas a época, este trabalho foi desenvolvido, tendo se revelado como um adjuvante relevante nas necropsias de cadáveres vitimados por projéteis de arma de fogo (PAF) que tenham atingido a região craniana. Como não existia a possibilidade de, nos casos de cadáveres vítimas de ação perfuro-contusa (PAF), o estabelecimento de se eram ou não portadores de COVID-19, o pensamento vigente era que todos eram e, desta forma, todas as medidas de precaução deveriam ser tomadas pelos Peritos Legistas, evitando espalhar fragmentos ao remover, manipular ou lavar os órgãos, especialmente o tecido pulmonar e intestino2. Como forma de nos adequar e proteger, foi sugerido a realização do estudo no qual, foi realizada análise de radiografias de cadáveres vítimas de morte por ferida transfixante, no cranio, decorrente de ação pérfuro-contundente (PAF), e sua posterior correlação com a necrópsia convencional correspondente. Ao avaliar a utilidade que a virtópsia radiológica oferece em certos casos para elucidar a causa da morte e as circunstâncias que a acompanham, sem a necessidade da realização do exame clássico. Os estudos de imagem representam uma grande ferramenta para a medicina legal, há cada vez mais casos em que a aplicação deste tipo de tecnologia é necessária no campo da ciência forense3.

A virtópsia nasce com a introdução da tomografia computadorizada (TC) e da ressonância nuclear magnética (RNM) no exame cadavérico4 A Virtópsia tem uma alta capacidade de detectar e localizar com precisão anomalias comuns na prática forense, como hematomas, coleções anormais de gás, fraturas e também corpos metálicos5, razão da escolha para este trabalho. Conexo com os motivos apresentados retro, existe ainda o fator econômico, uma vez que, sabido é que faltam aparelhos de exame de imagens nos hospitais públicos do SUS, seja pela inexistência dos mesmos, seja pela falta de manutenção; nos serviços de Medicina Legal, a realidade é a mesma, a existencia de Tomógrafos e aparelhos de Ressonância Nuclear Magnética é uma exceção, sendo possível, apenas, em alguns serviços, o aparelho de Raios X, como é o nosso caso.

2. LEGISLAÇÃO APLICADA

O Art. 162. Do Código de Processo Penal6, expressa: “ A autópsia será feita pelo menos seis horas depois do óbito, salvo se os peritos, pela evidência dos sinais de morte, julgarem que possa ser feita antes daquele prazo, o que declararão no auto. Parágrafo único. Nos casos de morte violenta, bastará o simples exame externo do cadáver, quando não houver infração penal que apurar, ou quando as lesões externas permitirem precisar a causa da morte e não houver necessidade de exame interno para a verificação de alguma circunstância relevante”. Para que possamos compreender como o Art.162 do Código de Processo Penal, mais especificamente seu Parágrafo Único, justifica e apoia este trabalho de pesquisa, há que se tecer comentários quanto a Interpretação Extensiva da Lei. A interpretação extensiva da Lei ocorre quando a lei carece de amplitude, significa que não abarca o que precisa para atender ao caso concreto, devendo o intérprete verificar quais os limites da norma. Tem-se como interpretação extensiva uma técnica de decisão na qual o aplicador do direito amplia o sentido da norma fazendo com que um caso que, à primeira vista não esteja coberto por ela, passe a estar. Desse modo pode-se falar em subsunção deste caso àquela norma “extensiva”. Não podemos negar a instrumentalidade do vocábulo “interpretação extensiva”, caso contrário poderia vir a comprometer a análise de alguns julgados.

A fim de esclarecimento exemplificativo, temos uma norma estabelecida na Constituição Federal que protege o domicílio (art. 5º, XI)7, assim, quando está se refere a palavra “casa” como sendo o asilo inviolável do indivíduo sendo que nela ninguém poderá penetrar, é possível ser teologicamente interpretada, gerando um resultado extensivo, isto é, o aplicador pode construir uma interpretação extensiva na qual a proteção que o artigo admite para “casa”, estenderá, a consultórios dentários, escritórios de advocacia entre outros. Essa interpretação extensiva, no referido exemplo foi possível graças as semelhanças em relação ao termo “casa” (local de propriedade privada, fechado, com acesso restrito), e ninguém poderá adentrar sem prévia autorização legal ou do seu dono. Diferentemente dessa interpretação que se não fosse extensiva, “casa” seria entendida num sentido comum e não abarcaria escritórios, consultórios. O nosso entendimento coaduna com a doutrina que entende que interpretação extensiva não cria direito novo, mas apenas tem por objeto identificar o verdadeiro conteúdo e alcance da lei quando não foi suficientemente expresso no texto normativo. Quando no Parágrafo Único, em comento, o Legislador expressa, “in verbis”: “Nos casos de morte violenta, bastará o simples exame externo do cadáver, quando não houver infração penal que apurar, ou quando as lesões externas permitirem precisar a causa da morte e não houver necessidade de exame interno para a verificação de alguma circunstância relevante”. Pode-se concluir que, nos casos de morte violenta, quando as lesões externas permitirem…reparem que, o Legislador, quando da criação desta norma, desconhecia as possibilidades que o avanço da tecnologia iria alcançar. Como ciência jurídica, o Direito nasceu de uma forma já ultrapassada, no sentido de que sempre resolveu os anseios que a sociedade já vivenciava. Não à toa, quando falamos sobre a área logo remetemos a um pensamento de algo clássico, com matrizes mais tradicionais. Por outro lado, a palavra “tecnologia” leva uma ideia de modernidade, avanços, futuro. Com os impactos das inovações desenvolvidas nos últimos anos, o direito cada vez mais incorpora em sua imagem esses conceitos. A área vem se modernizando, criando novos formatos de trabalho e prestando ao jurisdicionado uma melhor solução aos casos em litígio. Levando em conta este cenário, refletir sobre a relação entre direito e tecnologia se torna pauta pertinente para profissionais de ambas as áreas8. Como exemplo desta relação, podemos citar a digitalização de documentos, as videochamadas e a agenda eletrônica, que são alguns exemplos de ferramentas desenvolvidas para diferentes públicos que facilitam muito o trabalho no meio jurídico.

Saímos da era de processos físicos, onde eram impressas milhares de folhas para cada petição, e ingressamos na fase do processo judicial eletrônico, regulado pela Lei nº 11.419, de 19 de dezembro de 2006. Com isso, é possível acessar, consultar e até peticionar de qualquer lugar do país. Não é mais necessário ir até o Fórum com duas vias impressas da petição, gastando tempo e recursos com deslocamento. Agora é possível ter economia de tempo e ser sustentável, além de ter o andamento do processo acessível e de fácil acompanhamento. Em suma, o processo eletrônico foi um marco da aplicação de soluções envolvendo direito e tecnologia. Hodiernamente, com o conceito de virtópsia, as lesões internas podem, com mínima chance de erro, serem identificadas sem a necessidade do exame interno e, mais uma vez, a interpretação extensiva de uma norma, vai ao encontro dos anseios de uma sociedade que se moderniza a cada minuto. Por derradeiro, a nosso ver, os exames clássicos de determinadas lesões não possuem nenhum significado prático, oferecendo pouco ou nenhum acréscimo a investigação e, ao contrário, serve apenas para mutilar mais ainda o cadáver. Com o objetivo de demonstrar o que aqui afirmamos, apresentamos caso no qual, a necropsia clássica em nada contribuiu, seja para identificar a causa da morte, seja para colher provas, servindo apenas para aumentar a exposição da equipe a riscos biológicos e aumentar o grau de deformidade do cadáver. Para exemplificar o que aqui afirmamos, passamos a apresentar caso de ferida transfixante de região cefálica, região objeto de estudo deste trabalho, para o emprego desta modalidade de necrópsia.

ferida de entrada de PAF, com a ressalva de vir com o comemorativo de apresentar lesão sugestiva de impressão da boca da arma e/ou da massa de mira, decalcados na pele da vítima (circundada em azul).

Ferida de bordas evertidas e irregulares, compatível com a de saída de PAF (circunscrita em azul).

Tendo identificado as feridas resultantes da lesão transfixante decorrente de ação de PAF, estilete metálico foi introduzido pela ferida de entrada, após a tomada de fotografias que permitam, posteriormente, o estudo da mesma, sendo lentamente impulsionado em direção a ferida de saída, com objetivo de demonstrar o trajeto desenvolvido.

Na fotografia disposta abaixo, demonstramos a presença de estilete metálico, descrevendo o trajeto realizado pelo PAF no interior da cavidade craniana. A informação sobre o ângulo de incidência da ferida de entrada é uma das mais importantes e necessárias, pois permitirá aos Peritos Criminais estabelecer a trajetória do projétil.

Com este tipo de procedimento, consegue-se, sem nenhuma dificuldade, identificar o trajeto realizado pelo PAF no interior do crânio e, com o auxílio da técnica que será apresentada, objeto deste trabalho, identificar-se com precisão, as estruturas comprometidas, sem a necessidade da realização da técnica clássica que, como foi expressado, que serve apenas para aumentar a exposição da equipe a riscos biológicos e aumentar o grau de deformidade do cadáver.

Na fotografia disposta a seguir, demonstramos o que foi encontrado quando da realização da técnica clássica de necropsia. Feita a incisão bimastoídea e rebatido o couro cabeludo, se observa importante infiltração hemorrágica na face profunda dos retalhos e músculos temporais; abóbada craniana completamente fraturada, e com comprometimento dos três andares da base do crânio; O encéfalo encontra-se transformado em uma massa amorfa.

3. OBJETIVOS

O objetivo deste estudo foi avaliar a correlação existente entre os achados radiológicos e os achados de necrópsia clássica, nas cadáveres vítimas de morte produzida por ação perfuro-contundente (Projétil de Arma de Fogo (PAF) na região craniana, nos quais as lesões foram de caráter transfixante, não existindo PAF a ser acautelado para posterior estudo pericial. Utilizar a tecnologia de imagem com aparelho de Raios X para detectar e documentar provas forenses, para aperfeiçoar a necrópsia clássica independente do observador. Demonstrar que a virtópsia radiológica é uma ferramenta de identificação e exame rápido, em cadáveres, vítimas de lesões provocadas por PAF, do tipo transfixante. Mostrar suas aplicações e sua objetividade nas conclusões de necrópsias forenses. Descrever a qualidade, capacidade e a eficiência que esse método pode trazer para as soluções de casos9. Conexo com os motivos apresentados retro, existe ainda o fator econômico, uma vez que, sabido é que faltam aparelhos de exame de imagens nos hospitais públicos do SUS, seja pela inexistência dos mesmos, seja pela falta de manutenção; nos serviços de Medicina Legal, a realidade é a mesma, a existencia de Tomógrafos e aparelhos de Ressonância Nuclear Magnética é uma exceção, sendo possível, apenas, em alguns serviços, o aparelho de Raios X, como é o nosso caso.

4. MATERIAL E MÉTODO

Este trabalho teve a aprovação do Centro de Estudos e Pesquisas Forenses da Policia Civil do Estado do rio de Janeiro e Parecer Consubstanciado do CEP da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Entre maio de 2021 e junho de 2023, realizamos estudo radiológico do corpo de 20 (vinte) cadáveres, vítimas de morte por ferida transfixante, decorrente de ação pérfuro-contundente, na região do crânio, enviados a este Posto Regional de Polícia Técnico-Científica (PRPTC) do município de Niterói-RJ, da Secretaria de Estado de Polícia Civil (SEPOL) do Estado do Rio de Janeiro – RJ, pela Delegacia de Homicídios de Niterói-São Gonçalo e Itaboraí (DHNSGI) e Delegacias Distritais dos municípios de Niterói e Maricá. Para a realização deste estudo, o cadáver é previamente examinado e, as feridas existentes são avaliadas e fotografadas, identificando aquelas com características de serem de entrada, que são assinaladas pela letra E, e com características de serem de saída, assinaladas pela letra S, de PAF; a seguir, estilete metálico é introduzido pela ferida identificada como de entrada e, de forma delicada, o trajeto realizado pelo PAF é refeito pelo estilete até que encontre a ferida identificada como de saída. Com os estiletes colocados em posição, o cadáver é submetido a exame radiológico para a identificação do trajeto desenvolvido pelo PAF no interior do corpo e, a seguir, é submetido à necrópsia clássica, ainda com os estiletes em posição, identificando, passo a passo, o trajeto e as estruturas comprometidas. Em cada caso, foi realizada uma correlação entre os achados encontrados no estudo de imagem e no estudo do cadáver, descrevendo as alterações e semelhanças encontradas.

Nos casos das feridas localizadas na região cefálica, a técnica revelou-se extremamente fácil de ser empegada.

4.1. AVALIAÇÃO DAS FERIDAS PARA IDENTIFICAÇÃO DAS DE ENTRADA E DE SAÍDA DE PAF – INCIDÊNCIA DO DISPARO – ORLA DE ESCORIAÇÃO – A IMPORTÂNCIA MÉDICO-LEGAL DO ESTUDO DA ORLA DE ESCORIAÇÃO.

Para a identificação das feridas tanto de entrada como de saída do PAF, procuramos identificar as orlas descritas na literatura médico legal, como próprias das feridas tanto de entrada e de saída.

5. ESPECIFICAÇÃO TÉCNICA DO EQUIPAMENTO PARA LAUDO PERICIAL POR IMAGENS EM CADAVERES ATRAVÉS DE INSPEÇÃO POR RAIOS-X

Na gravura disposta abaixo, apresentamos a especificação técnica do equipamento para laudo pericial por imagens em cadáveres através de inspeção por raios-x.

5.1. EXEMPLO DA OPERACIONALIDADE

Atualmente, a Polícia Técnico-Científica do Rio de janeiro, dispõe de aparelho de Raios X, o que permite, com mais facilidade, a identificação e localização dos Projéteis de Arma de Fogo (PAF) no interior do corpo do cadáver, assim como de outros corpos estranhos.

 

Na fotografia acima, tomada no Posto Regional de Polícia Técnico-Científica (PRPTC) de Niterói, demonstramos a utilização do aparelho de Raios X durante a procura de PAF no corpo do cadáver. Repare que existe uma imagem na qual o Perito observa o corpo, para escolher o local que deseja radiografar (circundada em azul). 8

5.2. ESTILETES METÁLICOS – VARETA BALÍSTICA

Para avaliar a correlação existente entre os achados radiológicos e os achados de necrópsia clássica, nos cadáveres vítimas de morte produzida por ação perfuro-contundente decorrente de PAF, nos quais as lesões foram de caráter transfixante, não existindo PAF a ser acautelado para posterior estudo pericial, foram utilizados estiletes metálicos (vareta balística), que foram introduzidos pela ferida identificada como de entrada e, de forma delicada, o trajeto realizado pelo PAF é refeito pelo estilete até que encontre a ferida identificada como de saída. Para demonstrar a importância da utilização da vareta balística, iremos reproduzir a seguir, sequência de imagens, copiadas da série de televisão, exibida pelo canal “AXN”, de nome CSI (Crime Scene Investigation), Temporada 7, Episódio1, no qual, o Perito Legista, para identificar o trajeto do PAF no interior do corpo do cadáver, faz uso da introdução da vareta balística com esta finalidade.

 

Na gravura disponibilizada acima, pode-se identificar o Perito Legista introduzindo a vareta no corpo do cadáver.

Na gravura disponibilizada acima, pode-se identificar a vareta no corpo do cadáver (circundada em vermelho), identificando o trajeto que o PAF realizou quando trespassou o corpo.ss

5.3. POEIRA METÁLICA

A poeira metálica vem a ser achado radiológico caracterizado por pequenas imagens esbranquiçadas que se relacionam tanto com a entrada, saída e trajeto do PAF.

Na gravura disposta acima, apresentamos caso de poeira metálica (circundada em azul) associada a fratura diafisária do osso rádio, decorrente do impacto direto do PAF. 9 10 Esta poeira pode ser de utilidade quando do estudo do trajeto do PAF, como, em alguns casos, na determinação da ferida de entrada. Importante ter em mente, que nem sempre a poeira metálica estará associada a ferida de entrada, a depender do tipo de PAF. Os projéteis em chumbo nú, semiencamisados (ponta oca), de ponta oca com pino central e de ponta oca, a poeira metálica poderá ser encontrada próxima a ferida de entrada; já nos projéteis encamisados, poderá ser encontrada próxima a ferida de saída, uma vez que os fragmentos do núcleo são expelidos pela base do projétil.

6. COMENTÁRIOS

Pelo que se pode depreender, a colocação de estilete metálico no trajeto percorrido pelo PAF, localiza com perfeição as estruturas anatômicas por ele comprometidas; com a utilização do aparelho de Raios x, esta localização tornase praticamente uma certeza, confirmando a hipótese aventada para a realização deste trabalho.

7. APRESENTAÇÃO DE CASOS

1- Procedimento nº:xxxxxxxxxxxxx
Data:xxxxxxxxxx
Sexo:xxxxxxxxxxxxx
Cor: xxxxxxxxxxxxx
Causa da morte: Ação Pérfuro contundente (PAF) -crânio (ferida transfixante) Localização das feridas no Crânio

 

A relevância deste caso em relação ao trabalho aqui apresentado, está alicerçada no fato de que, com o exame externo e o exame radiológico, não havia a necessidade da técnica tradicional de necrópsia, visto que, as fraturas e a poeira metálica encontradas, já nos permitiam antever a gravidade das lesões encefálicas que seriam encontradas assim como o trajeto do PAF.

Como não havia PAF a ser recuperado, a técnica tradicional apenas expos o conteúdo encefálico, transformado em uma massa amorfa, que nada significou para a investigação da autoria do crime; apenas aumentou o tempo de trabalho e expos a equipe a mais um momento de insalubridade.

2-Procedimento nº:xxxxxxxxxxxxx
Data:xxxxxxxxxxx
Sexo:xxxxxxxxxxxxxxxxxx
Cor:xxxxxxxxxxxxxxxx
Causa da morte: Ação Pérfuro contundente (PAF) -crânio (ferida transfixante)- face (ferida transfixante) várias feridas transfixantes, sendo que uma delas, o PAF permaneceu alojado no subcutâneo Localização das feridas no Crânio e face

Nas fotografias dispostas abaixo, são reveladas as feridas identificadas como de saída, circundadas em vermelho e de entrada em azul.

Nas fotografias dispostas abaixo, exibimos o exame radiológico, com os estiletes metálicos inseridos e os esquemas utilizados para descrever as feridas.

Nas fotografias dispostas a seguir, apresentamos os achados de necrópsia quando incisamos o couro cabeludo; lado direito da calota craniana, a esquerda do leitor e, após a retirada do encéfalo, a direita do leitor, constatando as lesões ósseas já observadas nas incidências radiológicas, o que demonstra a desnecessidade da realização da técnica clássica de necrópsia.

A relevância deste caso em relação ao trabalho aqui apresentado, repousa no fato de que, com o exame externo e o exame radiológico, não havia a necessidade da técnica tradicional de necrópsia, visto que, as fraturas e o trajeto dos PAFs constatados no exame radiológico, já nos permitiam antever a gravidade das lesões encefálicas que seriam encontradas. Como havia PAF a ser recuperado, a técnica tradicional foi necessária apenas para a retirada e acautelamento do mesmo.

8. DISCUSSÃO

Quando do estudo das lesões provocadas por PAF, além da identificação da distância, calibre da arma e a própria arma, a incidência e angulação são de suma relevância, uma vez que permitem a reprodução da dinâmica do evento. Com o estudo do trajeto identificado pelo estilete metálico (vareta balística), este conhecimento torna-se mais um dado na busca pela verdade dos fatos.

Concordamos com Aguiar quando expressa suas observações quanto ao uso do aparelho de Raios X (FlatScan) em substituição a necrópsia tradicional e, para nós, nos casos de ferida transfixante, produzidas por PAF, na região do crânio, não existindo Projétil de Arma de Fogo (PAF) a ser acautelado para posterior estudo pericial, a superposição das imagens radiológicas, com estiletes inseridos nos trajetos desenvolvidos pelos PAFs e, nos casos de necessidade, com imagens obtidas em atlas de anatomia em 3D, acreditamos ser suficiente para a identificação das estruturas lesionadas, não havendo necessidade da realização das necrópsias tradicionais. Ainda se verifica a importância do estudo radiológico da poeira metálica, para a identificação da ferida de entrada, de saída, o trajeto, e o local de repouso, nos casos de ferida penetrante do PAF, facilitando sobremaneira, seu encontro no interior do corpo do cadáver. Esta forma de realizar o exame de necrópsia, além de ser menos invasiva, traz, ainda, como consequência, a menor exposição da equipe aos patógenos que habitam o cadáver, poupa tempo, nos tão assoberbados serviços de medicina legal e, nas religiões onde a mutilação do cadáver é proibida, como judaica e Muçulmana, evita inúmeros inconvenientes. Importante também, em todos os casos de feridas por PAF, transfixantes ou não, a possibilidade de se identificar, com precisão, a angulação e o trajeto, extremamente importantes para o estudo da dinâmica do evento. Quando do estudo das lesões provocadas por PAF, além da identificação da distância e calibre da arma, a incidência e o trajeto são de suma relevância, uma vez que permitem a reprodução da dinâmica do evento. Com o estudo do trajeto identificado pelo estilete metálico (vareta balística), este conhecimento torna-se mais um dado na busca pela verdade dos fatos.

9. CONCLUSÕES

É nossa conclusão que a Vitópsia com o uso do aparelho de Raios X (FlatScan) é uma forma inovadora nos exames de necrópsia tradicional, nos casos de ferida transfixante de crânio, produzidas por PAF, não existindo Projétil de Arma de Fogo (PAF) a ser acautelado para posterior estudo pericial. Nos casos de feridas transfixantes do crânio, a técnica pode perfeitamente ser empregada, bastando apenas a perfeita utilização do aparelho de Raios X, dos estiletes balísticos e, nos casos necessários, da utilização do atlas de anatomia.

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