Artigo de revisão
Elicitação na entrevista médico-pericial: revisão da literatura e implicações práticas
Como citar: Serra MF. Elicitação na entrevista médico-pericial: revisão da literatura e implicações práticas. Persp Med Legal Pericia Med. Vol. 11, 2026; 260411.
https://dx.doi.org/10.47005/260411
Recebido em 20/12/2025
Aceito em 14/04/2026
O autor informa não haver conflito de interesse.
ELICITATION IN THE MEDICAL-LEGAL INTERVIEW: LITERATURE REVIEW AND PRACTICAL IMPLICATIONS
Resumo
A entrevista médico-pericial é etapa central da prova técnica, sendo decisiva para a reconstrução fática e análise do nexo causal. MATERIAL E MÉTODO: Foi realizada revisão narrativa da literatura sobre elicitação e entrevistas forenses, com adaptação conceitual ao contexto pericial médico. RESULTADOS: A literatura demonstra que a forma de condução da entrevista influencia diretamente a confiabilidade do relato. DISCUSSÃO: Propõe-se a aplicação estruturada da elicitação como metodologia capaz de reduzir vieses cognitivos, linguísticos e motivacionais. CONCLUSÃO: A elicitação qualifica a entrevista pericial e fortalece a consistência técnica das conclusões.
Palavras Chave: Entrevista médico-pericial; Elicitação; Prova pericial; Viés cognitivo; Metodologia pericial.
Abstract
The medical-legal interview is a central stage of expert evidence, essential for factual reconstruction and causal analysis. METHODS: A narrative literature review on elicitation and forensic interviewing was conducted, with conceptual adaptation to medical expertise. RESULTS: Evidence shows that interview structure directly affects narrative reliability. DISCUSSION: A structured elicitation-based methodology is proposed to mitigate cognitive, linguistic, and motivational biases. CONCLUSION: Elicitation enhances the quality of medical-legal interviews and strengthens expert conclusions.
Keywords (MeSH): Medical-legal interview; Elicitation; Expert evidence; Cognitive bias; Forensic methodology.
1. INTRODUÇÃO
A entrevista médico-pericial constitui etapa central da avaliação pericial, representando o principal instrumento para a obtenção de informações clínicas, funcionais e contextuais que subsidiam a elaboração do laudo médico pericial. Diferentemente do atendimento médico assistencial, a entrevista pericial ocorre em ambiente não terapêutico, orientado por finalidade probatória e pelos princípios da imparcialidade e da objetividade, o que impõe desafios específicos à coleta, interpretação e validação das informações fornecidas pelo periciado.
Nesse contexto, a qualidade da informação obtida é diretamente proporcional à robustez das conclusões periciais. Relatos imprecisos, incompletos ou inconsistentes podem comprometer a reconstrução fática, interferir na análise do nexo causal e influenciar a avaliação das repercussões funcionais, com potenciais consequências jurídicas relevantes. Soma-se a isso a influência de vieses cognitivos, distorções de memória, interesses secundários e da própria condução da entrevista, fatores que tornam o processo pericial particularmente suscetível a falhas interpretativas.
Apesar de sua relevância, a condução da entrevista médico-pericial ainda se apoia, em grande medida, na experiência individual do perito e em modelos de anamnese derivados da prática clínica assistencial, nem sempre adequados às especificidades do contexto pericial. A formação médica tradicional dedica atenção limitada a técnicas estruturadas de entrevista voltadas à maximização da fidedignidade da informação em ambientes avaliativos não terapêuticos, nos quais a neutralidade técnica e a confiabilidade do relato assumem papel central.
A elicitação consiste em um conjunto de técnicas sistematizadas de condução da entrevista destinadas a extrair informações de maneira mais precisa, completa e confiável, reduzindo ambiguidades, inconsistências e vieses de sugestão. Amplamente empregada em áreas como psicologia cognitiva, ciência da decisão, engenharia do conhecimento e investigação forense, a elicitação enfatiza a estruturação do processo comunicativo, a formulação adequada de perguntas e a validação interna das informações obtidas.
Embora seus fundamentos teóricos estejam bem estabelecidos em diferentes campos do conhecimento, observa-se uma lacuna relevante na literatura médico-pericial quanto à aplicação sistematizada das técnicas de elicitação na entrevista pericial médica. Há escassez de trabalhos que integrem esses métodos à prática pericial, respeitando suas particularidades éticas, normativas e metodológicas, lacuna que contrasta com a crescente complexidade das demandas judiciais e com a exigência de maior rigor técnico na produção da prova pericial.
Diante desse cenário, o presente artigo tem como objetivo revisar a literatura sobre as técnicas de elicitação, descrever seus fundamentos teóricos e metodológicos e discutir sua aplicabilidade prática na entrevista médico-pericial, com ênfase na melhoria da qualidade da informação obtida e no fortalecimento das conclusões periciais. Ao final, propõe-se um fluxograma prático com a finalidade de auxiliar o médico perito na aplicação de técnicas elicitatórias com vistas a otimizar a qualidade das informações obtidas.
2. MATERIAL E MÉTODO
Foi realizada uma revisão bibliográfica de caráter narrativo, com o objetivo de identificar, descrever e analisar os principais fundamentos teóricos, conceitos e técnicas relacionados à elicitação aplicáveis ao contexto da entrevista médico-pericial. A opção por uma revisão narrativa se justifica pela natureza exploratória do tema e pela escassez de estudos que abordem diretamente a aplicação da elicitação na prática pericial médica, o que inviabiliza, neste momento, a condução de uma revisão sistemática.
A busca bibliográfica foi conduzida em bases de dados nacionais e internacionais, incluindo PubMed/MEDLINE, SciELO, PsycINFO e Google Scholar. Foram utilizados, isoladamente ou em combinação, os seguintes descritores e termos livres, em português e inglês: “elicitação”, “elicitation”, “knowledge elicitation”, “information elicitation”, “interview techniques”, “forensic interview”, “cognitive interview”, “medical-legal expertise”, “medical expert interview” e “perícia médica”. A seleção dos termos buscou contemplar diferentes áreas do conhecimento nas quais a elicitação é tradicionalmente empregada, permitindo a transposição conceitual para o contexto pericial.
Foram incluídas publicações que abordassem técnicas de elicitação, modelos estruturados de entrevista, processos de obtenção e validação de informações e estudos relacionados à qualidade do relato em contextos avaliativos ou periciais. Não foram estabelecidos limites temporais rígidos, tendo em vista o caráter conceitual do tema e a relevância de trabalhos clássicos para a compreensão dos fundamentos da elicitação. Artigos redundantes, de caráter meramente opinativo ou sem pertinência ao objetivo do estudo foram excluídos.
A análise do material selecionado foi conduzida de forma qualitativa, com ênfase na identificação de princípios teóricos, estratégias metodológicas e elementos passíveis de adaptação à entrevista médico-pericial. A partir dessa análise, procedeu-se à discussão crítica da aplicabilidade prática das técnicas de elicitação no contexto pericial.
3. RESULTADOS
3.1. A ENTREVISTA COMO FONTE DE INFORMAÇÃO E A NATUREZA RECONSTRUTIVA DA MEMÓRIA
Em contextos forenses e avaliativos, a entrevista representa uma das principais fontes de obtenção de informações quando os fatos analisados dependem do relato do entrevistado. Contudo, a literatura demonstra de forma consistente que a memória humana não funciona como um registro fiel e imutável dos acontecimentos, mas como um processo reconstrutivo, sujeito a interferências externas e internas.
Loftus e Palmer demonstraram experimentalmente que a forma como uma pergunta é formulada pode influenciar não apenas a resposta imediata, mas a própria representação mnésica do evento recordado. No estudo clássico envolvendo acidentes automobilísticos, pequenas variações semânticas na linguagem utilizada pelo entrevistador foram suficientes para alterar estimativas de velocidade e induzir a lembrança de detalhes inexistentes, como a presença de vidro quebrado em situações em que tal elemento não havia ocorrido (1). Esses achados evidenciam que o relato resulta da interação entre informações originalmente percebidas e elementos introduzidos posteriormente pela entrevista, muitas vezes de forma inconsciente.
Essas observações são particularmente relevantes em contextos periciais, nos quais a confiabilidade do relato exerce papel central na análise técnica e na formulação de conclusões.
3.2. ELICITAÇÃO COMO PROCESSO ESTRUTURADO DE OBTENÇÃO DE INFORMAÇÕES
A literatura descreve a elicitação como um processo metodológico estruturado de obtenção de informações a partir de fontes humanas, no qual a forma de condução da entrevista influencia diretamente a qualidade, a completude e a confiabilidade dos dados obtidos. Elicitar não se confunde com simplesmente perguntar, mas envolve planejamento, seleção de estratégias adequadas e controle consciente da interação entrevistador–entrevistado.
Hoffman e colaboradores demonstraram que entrevistas conduzidas de maneira intuitiva tendem a capturar apenas conhecimento superficial ou fragmentado, especialmente quando o conteúdo a ser extraído envolve processos complexos ou dependentes do contexto. Os autores ressaltam que a escolha inadequada da técnica de elicitação pode comprometer a validade da informação obtida, independentemente da experiência do entrevistado ou do entrevistador (2).
De forma complementar, Cooke apresentou uma classificação abrangente das técnicas de elicitação, demonstrando que entrevistas constituem apenas uma das ferramentas disponíveis e que diferentes graus de estruturação produzem diferentes tipos de informação. A autora enfatiza que a verbalização espontânea frequentemente resulta em dados incompletos, pouco organizados ou difíceis de interpretar, reforçando a necessidade de métodos sistemáticos orientados à qualidade da informação (3).
3.3. VIESES COGNITIVOS E A INFLUÊNCIA DO ENTREVISTADOR
Além das limitações inerentes à memória, a literatura cognitiva descreve a influência de vieses cognitivos no processo de entrevista, com destaque para o viés de confirmação. Nickerson definiu esse fenômeno como a tendência a buscar, formular e interpretar informações de modo a confirmar hipóteses ou crenças prévias, frequentemente de forma inconsciente (4).
O autor demonstra que o viés de confirmação não atua apenas na interpretação posterior dos dados, mas já na fase de coleta da informação, influenciando a seleção das perguntas, sua formulação e a valorização seletiva das respostas obtidas. Esse efeito ocorre mesmo em profissionais experientes e em contextos que valorizam a objetividade, indicando que a expertise não protege automaticamente contra distorções cognitivas (4).
Esses achados reforçam que entrevistas conduzidas sem estrutura metodológica adequada estão particularmente suscetíveis à influência das expectativas do entrevistador, comprometendo a neutralidade do processo avaliativo.
3.4. EVIDÊNCIAS EMPÍRICAS DE ENTREVISTAS ESTRUTURADAS E REDUÇÃO DE DISTORÇÕES
A literatura sobre entrevistas investigativas oferece evidências empíricas relevantes acerca da eficácia de abordagens estruturadas baseadas em princípios cognitivos. Memon, Meissner e Fraser realizaram uma meta-análise abrangendo aproximadamente 25 anos de estudos sobre a cognitive interview, demonstrando que essa técnica está associada a um aumento significativo da quantidade de informações corretas obtidas, sem incremento proporcional de erros ou informações falsas (5).
Os autores destacam que a eficácia da entrevista estruturada depende do grau de fidelidade ao método e do treinamento do entrevistador, reforçando que a qualidade do relato não é atributo exclusivo do entrevistado, mas resulta do procedimento empregado na entrevista (5). Esses achados fornecem base empírica sólida para a noção de que a estruturação metodológica da entrevista contribui para a redução de vieses e distorções do relato.
3.5. EVIDÊNCIAS RECENTES E LACUNAS NA LITERATURA CONTEMPORÂNEA
Publicações recentes reforçam a atualidade do debate sobre a forma de condução das entrevistas em contextos forenses. Cross, ao revisar a literatura publicada entre 2022 e 2025 sobre entrevistas forenses com crianças, demonstrou que a eficácia das estratégias de questionamento depende do tipo de pergunta, do momento da entrevista e das características cognitivas do entrevistado. O autor destaca que perguntas excessivamente abertas podem resultar em relatos pobres ou evasivos em determinadas situações, contrariando abordagens universalistas tradicionalmente defendidas (6).
De modo semelhante, Farrugia e colaboradores realizaram uma study space analysis da literatura sobre entrevistas forenses com indivíduos vulneráveis, evidenciando lacunas significativas na base empírica que sustenta diretrizes de “melhor prática”, especialmente no que se refere a adultos com transtornos mentais. Os autores concluem que a generalização indiscriminada de estratégias de entrevista pode ser metodologicamente inadequada, reforçando a necessidade de abordagens adaptativas e fundamentadas em evidências (7).
Embora esses estudos recentes não abordem diretamente a perícia médica, seus achados reforçam que a obtenção de informações confiáveis em contextos avaliativos depende de estratégias de entrevista estruturadas, sensíveis ao contexto e às características do entrevistado, evidenciando uma lacuna conceitual no âmbito específico da entrevista médico-pericial.
4. DISCUSSÃO
A entrevista médico-pericial constitui etapa central da produção da prova técnica, independentemente do ramo do Direito em que se insere. Em grande parte das perícias médicas, a reconstrução dos fatos, a análise do nexo causal e a avaliação das repercussões funcionais dependem, em maior ou menor grau, do relato fornecido pelo periciado. Assim, a entrevista não deve ser compreendida como procedimento secundário, mas como elemento central na estrutura do raciocínio técnico-pericial.
A elicitação consiste em uma metodologia de condução da entrevista voltada à obtenção de informações de forma sistemática, progressiva e não sugestiva, reconhecendo que o relato humano é influenciado por fatores cognitivos, linguísticos e motivacionais. Diferentemente da simples coleta de dados, a elicitação enfatiza a forma como a informação é produzida durante a interação entre entrevistador e entrevistado, buscando maximizar a confiabilidade e a coerência do relato obtido.
Em comparação, a anamnese clínica tradicional tem como finalidade principal subsidiar o diagnóstico e o tratamento, sendo conduzida em ambiente terapêutico, no qual se pressupõe cooperação e alinhamento de interesses entre médico e paciente. Nesse modelo, a condução da entrevista tende a ser mais diretiva e orientada por hipóteses clínicas, o que, embora adequado ao contexto assistencial, pode introduzir vieses e limitações quando transposto para a perícia médica. Já o interrogatório, típico do contexto jurídico, caracteriza-se por abordagem confrontativa ou direcionada, frequentemente orientada à confirmação de versões específicas, o que pode comprometer a espontaneidade do relato e aumentar o risco de indução.
Nesse contexto, a elicitação se apresenta como resposta metodológica às limitações da entrevista pericial clássica. Ao reconhecer que a forma de perguntar, a sequência da entrevista e a postura do entrevistador influenciam diretamente a qualidade da informação obtida, a elicitação busca estruturar o processo de coleta de dados de modo a reduzir vieses, aumentar a confiabilidade do relato e favorecer maior verossimilhança técnica.
Tendo em vista tais considerações, propomos uma metodologia baseada nos princípios da elicitação a ser aplicada pelo perito durante a entrevista médico pericial com o objetivo de qualificar o processo de obtenção de informações através da mitigação de vieses cognitivos, linguísticos e motivacionais. Ao final, propõe-se um fluxograma com o intuito de sistematizar a aplicação da metodologia e, ao mesmo tempo, funcionar como guia operacional e recurso mnemônico para o médico perito no exercício cotidiano da perícia médica (Figura 1).
A primeira etapa consiste na preparação cognitiva do perito, etapa frequentemente negligenciada na prática cotidiana. Antes mesmo do início da entrevista, o perito já foi exposto às alegações das partes, a documentos médicos e a versões preliminares dos fatos, o que favorece a formulação de hipóteses iniciais. Reconhecer conscientemente essas hipóteses e o risco de viés de confirmação permite ao perito adotar postura deliberadamente mais cautelosa durante a entrevista, suspendendo juízos conclusivos até que a informação seja adequadamente coletada e confrontada com os dados objetivos disponíveis.
Na sequência, a abertura neutra da entrevista cumpre papel fundamental para estabelecer um ambiente técnico e não sugestivo. Nessa etapa, o perito deve explicitar claramente sua função, a finalidade da perícia e os limites do procedimento. A formulação de uma pergunta inicial aberta e neutra, convidando o periciado a relatar livremente o que considera relevante, permite que a narrativa se inicie sem induções, oferecendo ao perito uma visão global da forma como os fatos são organizados espontaneamente.
A etapa de relato livre espontâneo destina-se justamente à obtenção dessa narrativa inicial não induzida. Ao permitir que o periciado exponha sua versão de forma contínua, sem interrupções, o perito reduz a interferência externa sobre o conteúdo do relato e pode observar aspectos relevantes como a sequência temporal dos eventos, as ênfases atribuídas a determinados pontos e as lacunas narrativas. Essa etapa fornece material valioso para a análise posterior da coerência interna e da verossimilhança do relato. É fundamental que, nesse momento, o perito evite a todo custo validações implícitas da narrativa, como manifestações verbais (“entendo”, “isso é comum”, “faz sentido”) ou não verbais (acenos afirmativos, expressões faciais de concordância), bem como intervenções que antecipem nexos causais ou gravidade (“foi a partir daí que surgiu o problema”, “então isso já o incapacitou”). A neutralidade nessa fase preserva a espontaneidade do relato e reduz o risco de contaminação da narrativa por indução externa.
Superada a fase do relato livre inicial, inicia-se a elicitação dirigida e progressiva, etapa nuclear do método proposto. Nesse momento, o perito passa a explorar tecnicamente os pontos obscuros, incompletos ou imprecisos da narrativa espontânea, mantendo controle rigoroso sobre a neutralidade da linguagem empregada. O objetivo não é conduzir o periciado a conclusões prévias, mas converter uma narrativa subjetiva em informações estruturadas, passíveis de análise técnica e confronto probatório. Para isso, as perguntas devem ser específicas, não sugestivas e organizadas de forma progressiva, priorizando quatro eixos fundamentais: o que ocorreu, quando ocorreu, como ocorreu e em que contexto ocorreu.
O eixo “o que” visa definir com precisão o fato, sintoma ou limitação funcional relatada, evitando descrições genéricas como “sentia dores” ou “ficou limitado”. Perguntas como “qual era a dor?”, “em que local se manifestava?” ou “houve perda de força ou limitação de movimento?” permitem distinguir entre dor localizada, dor irradiada ou restrição funcional específica, transformando o relato em informação clinicamente interpretável, sem pressupor gravidade ou nexo.
O eixo “quando” estabelece a cronologia dos fatos, permitindo diferenciar início, evolução e eventual intermitência dos sintomas. Questionamentos como “quando a queixa teve início?”, “isso ocorreu de forma súbita ou progressiva?” ou “houve períodos de melhora ou afastamento?” auxiliam na análise do nexo temporal e reduzem associações retrospectivas artificiais.
O eixo “como” explora a dinâmica do evento ou da manifestação clínica, incluindo mecanismo e forma de instalação. Indagações como “como a atividade era executada?”, “houve esforço súbito, torção ou impacto?” ou “como se deu a queda?” contribuem para avaliar a plausibilidade biomecânica do relato, sem induzir causalidade.
Por fim, o eixo “em que contexto” situa o relato no cenário em que ocorreu, abrangendo condições ambientais, atividades desempenhadas e fatores concomitantes. Perguntas como “em que condições o trabalho era realizado naquele dia?” ou “quem estava presente no momento do evento?” auxiliam na contextualização da narrativa.
Dessa forma, em vez de formular perguntas que antecipem conclusões — como “o trabalho causou sua lesão?” —, o perito reconstrói progressivamente a sequência dos acontecimentos por meio desses eixos, reduzindo a indução de respostas, dificultando narrativas artificialmente ajustadas e mitigando tanto a influência de interesses secundários do periciado quanto o risco de viés de confirmação por parte do entrevistador.
Por fim, o encerramento da entrevista confere transparência ao procedimento. O perito realiza uma síntese objetiva do que foi compreendido, oferece oportunidade para complementação final pelo periciado e registra explicitamente os limites da informação obtida. Esse fechamento contribui para reduzir mal-entendidos e promove clareza metodológica do procedimento.
A etapa final de confronto técnico com dados objetivos introduz o controle externo do relato e deve ser realizada após o encerramento da entrevista, integrando a fase analítica do raciocínio pericial. Nessa etapa, o perito confronta a narrativa obtida com exames complementares, prontuários, documentos médicos e registros administrativos disponíveis, identificando convergências e divergências. A realização desse confronto a posteriori preserva a autonomia da narrativa produzida durante a entrevista, evitando indução ou validação prematura da informação subjetiva. Importante destacar que o perito não deve ajustar o relato para coincidir com eventuais informações documentais discrepantes, reservando as considerações acerca de divergências para a discussão pericial. Trata-se de etapa fundamental para qualificar o valor probatório do relato, delimitando de forma clara os pontos em que a informação subjetiva encontra — ou não — respaldo nos dados objetivos disponíveis.
Ao integrar essas etapas em um algoritmo operacional, a elicitação se consolida como ferramenta metodológica aplicável à prática médico-pericial cotidiana, seja em perícias trabalhistas, cíveis ou criminais. Mais do que um conjunto de técnicas de entrevista, a elicitação atua como instrumento de qualificação da informação pericial, aumentando sua confiabilidade, reduzindo a influência de vieses e favorecendo a obtenção de relatos mais verossímeis e tecnicamente defensáveis.
Algoritmo de Elicitação na Entrevista Médico-Pericial (PAREC²)
Fluxograma com orientações auxiliares para aplicação prática
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P — PREPARAÇÃO COGNITIVA DO PERITO |
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A — ABERTURA NEUTRA |
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R — RELATO LIVRE ESPONTÂNEO |
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E — ELICITAÇÃO DIRIGIDA E PROGRESSIVA |
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C — CONCLUSÃO DA ENTREVISTA |
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↓ |
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C² — CONFRONTO TÉCNICO COM DADOS OBJETIVOS (APÓS A ENTREVISTA) |
RECURSO MNEMÕNICO PAREC² = Preparar • Abrir • Relatar • Elicitar • Concluir • Confrontar (depois).
Figura 1. Fluxograma de aplicação da técnica de elicitação na entrevista médico-pericial.
5. CONCLUSÃO
A entrevista médico-pericial constitui elemento central da produção da prova técnica, exercendo papel determinante na reconstrução dos fatos, na análise do nexo causal e na avaliação das repercussões funcionais. Diferentemente do contexto assistencial, a entrevista pericial ocorre em ambiente não terapêutico, orientado por finalidade probatória e frequentemente permeado por interesses jurídicos, o que impõe limites relevantes à aplicação do modelo tradicional de anamnese clínica.
A revisão da literatura demonstra de forma consistente que o relato humano é influenciado por fatores cognitivos, linguísticos e contextuais, sendo suscetível a vieses tanto do entrevistado quanto do entrevistador. Embora esses fenômenos sejam amplamente discutidos em áreas como psicologia cognitiva, entrevistas investigativas e perícia forense não médica, observa-se uma lacuna relevante na literatura médico-pericial, caracterizada pela escassez de abordagens metodológicas sistematizadas voltadas especificamente à condução da entrevista pericial médica.
Nesse cenário, a elicitação se apresenta como abordagem metodológica capaz de preencher parcialmente essa lacuna, ao oferecer fundamentos teóricos e operacionais para qualificar o processo de obtenção de informações no contexto pericial. Ao reconhecer que a forma de perguntar, a sequência da entrevista e a postura do perito influenciam diretamente a confiabilidade e a verossimilhança do relato, a elicitação permite superar a dependência exclusiva da experiência individual do perito e do modelo tradicional de anamnese.
Ao propor a adaptação dos princípios da elicitação à prática médico-pericial, este estudo contribui para o aprimoramento metodológico da entrevista pericial, apresentando um algoritmo operacional estruturado e aplicável às perícias trabalhistas, cíveis e criminais. A sistematização das etapas — desde a preparação cognitiva do perito até o encerramento estruturado da entrevista — favorece a redução de vieses, aumenta a transparência do procedimento e fortalece a consistência técnica das conclusões periciais.
A elicitação, conforme apresentada, não substitui o juízo técnico do perito nem se propõe a alcançar uma verdade absoluta, mas qualifica o valor do relato como elemento probatório, permitindo que ele seja analisado de forma mais objetiva. Assim, sua incorporação à prática médico-pericial representa avanço metodológico relevante, com potencial de impacto direto na qualidade da prova técnica e na segurança das decisões judiciais que dela dependem, além de abrir campo para futuras investigações empíricas específicas na área pericial médica.
Referências bibliográficas
1. Loftus EF, Palmer JC. Reconstruction of automobile destruction: an example of the interaction between language and memory. J Verbal Learning Verbal Behav. 1974;13(5):585–589.
2. Hoffman RR, Shadbolt NR, Burton AM, Klein G. Eliciting knowledge from experts: a methodological analysis. Organ Behav Hum Decis Process. 1995;62(2):129–158.
3. Cooke NJ. Varieties of knowledge elicitation techniques. Int J Hum Comput Stud. 1994;41(6):801–849.
4. Nickerson RS. Confirmation bias: a ubiquitous phenomenon in many guises. Rev Gen Psychol. 1998;2(2):175–220.
5. Memon A, Meissner CA, Fraser J. The cognitive interview: a meta-analytic review and study space analysis of the past 25 years. Psychol Public Policy Law. 2010;16(4):340–372.
6. Cross TP. Research from January 2022 to February 2025 on child forensic interviewing questions and related methods. APSAC Advisor. 2025;38(2):1–22.
7. Farrugia L, Gabbert F, Hope L, Fraser J. Forensic interviewing of vulnerable interviewees in England and Wales: a study space analysis. J Police Crim Psychol. 2025;40:933–947.







