Relato de Caso

Energia química da causalidade do dano: aspectos periciais de relevância na intoxicação com resultado morte por éster de glicol

Como citar: Mendes SDA, Moura MFR, Gazzola LDPL, Alves CF, Cardoso GMC. Energia química da causalidade do dano: aspectos periciais de relevância na intoxicação com resultado morte por éster de glicol . Persp Med Legal Pericia Med. Vol. 10, 2025; 250524.

https://dx.doi.org/10.47005/250524

Aceito em 04/09/2025

O autor informa não haver conflito de interesse.

Chemical energy causality of injury: forensic aspects relevant in fatal intoxication due to glycol ester

Suellen de Azevedo Mendes

Análise de dados, Pesquisa, Metodologia, Administração do projeto, Supervisão/ Orientação, Redação do manuscrito original

https://orcid.org/0000-0003-2581-1339 - http://lattes.cnpq.br/6075053471549857

Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG, Belo Horizonte, MG

Mateus Feliciano Resende Moura

Curadoria de dados, Supervisão/ Orientação

https://orcid.org/0000-0003-2054-258X - http://lattes.cnpq.br/0674952452452984

Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG, Belo Horizonte, MG

Luciana de Paula Lima Gazzola

Supervisão/ Orientação

https://orcid.org/0000-0003-2896-9609 - http://lattes.cnpq.br/9008009112014979

Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG, Belo Horizontes, MG

Cibele Fontes Alves

Curadoria de dados

https://orcid.org/0000-0003-2390-3686 - http://lattes.cnpq.br/2331139776496333

PCMG, Belo Horizonte, MG

Gabriela Maciel Campolina Cardoso

Curadoria de dados

https://orcid.org/0000-0002-1612-1304?lang=en - http://lattes.cnpq.br/5846143665680190

Polícia Civil de Minas Gerais, Belo Horizonte, MG

Resumo

O éster de glicol é um composto altamente tóxico, utilizado principalmente como anticongelante em sistemas de refrigeração industrial, ele não entra diretamente em contato com produtos alimentícios ou farmacêuticos, mas é crucial para diminuir o ponto de congelamento dos fluidos refrigerantes. Apesar de eficiente, seu uso requer extrema precaução devido à sua alta toxicidade ao organismo humano. A intoxicação por éster de glicol é rara no Brasil, geralmente ocorrendo por contaminação inadvertida de alimentos ou medicamentos, podendo levar a quadros graves e até fatais. Este trabalho ilustra um caso cujo desfecho foi morte por ingestão desse composto. A perícia, pelas particularidades e a infrequência de casos que perpassam a rotina do médico legista, foi realizada com grande dificuldade no que se refere à compreensão dos fatos e aos efeitos do veneno no organismo. A complexidade da intoxicação por éster de glicol dificulta tanto o diagnóstico quanto a investigação criminal, dado que padrões específicos de comparação são escassos na literatura. Este relato destaca a importância de protocolos precisos de investigação toxicológica para casos similares, e na ausência deles, sirvam como embasamentos para que médicos legistas elaborem suas hipóteses, visando melhorar a eficácia das respostas periciais em situações de emergência. Ressalta -se, também, a importância do diálogo do médico legista com os peritos criminais, com os familiares, e em caso de sobrevida em ambiente hospitalar, com o médico responsável pelo cuidado. Essa análise conjunta, é fundamental para o entendimento da dinâmica do caso e elaborar um laudo pericial de qualidade.

Palavras Chave: intoxicação, éster de glicol, laudo pericial.

Abstract

Ethylene glycol ester is a highly toxic compound primarily used as an antifreeze in industrial cooling systems. It does not come into direct contact with food or pharmaceuticals but is crucial for lowering the freezing point of cooling fluids. Despite its effectiveness, its use requires extreme caution due to its high toxicity to humans. Ethylene glycol ester poisoning is rare in Brazil, usually occurring due to inadvertent contamination of food or medications, and can lead to severe and potentially fatal outcomes. This case illustrates a death resulting from ingestion of this compound. The forensic investigation, given the rarity and complexity of such cases, faced significant challenges in understanding the facts and effects of the poison on the body. The complexity of ethylene glycol ester poisoning complicates both diagnosis and criminal investigation, as specific comparison standards are scarce in the literature. This report highlights the importance of precise toxicological investigation protocols for similar cases and the need for forensic pathologists to develop their hypotheses in their absence, aiming to improve the effectiveness of forensic responses in emergencies. It also emphasizes the importance of collaboration between forensic pathologists, criminal experts, families, and, in cases of survival in a hospital setting, the attending physician. This joint analysis is crucial for understanding the case dynamics and producing a high-quality forensic report.

Keywords (MeSH): intoxication, glycol ester, forensic report.

1. INTRODUÇÃO

Formado por duas moléculas de etilenoglicol associado a uma ligação éter, o éster de glicol é um glicol altamente tóxico ao organismo. É utilizado industrialmente como anticongelante em equipamentos de refrigeração como fluido de resfriamento em sistemas fechados, sem contato direto com os produtos. 

Segundo Nota Técnica dos professores do Curso de Engenharia de Alimento da Universidade Federal de Minas Gerais (1), o éster de glicol é utilizado para resfriar alimentos ou bebidas, removendo calor de forma rápida, funcionando como um sistema fechado sem contato com o produto por onde o fluido congelante, ao circular pelas serpentinas, resfria o produto. Existem outros líquidos de resfriamento, a exemplo da água, álcool etílico, glicerina, propilenoglicol, etilenoglicol, além do dietilenoglicol. A escolha depende da compatibilidade do líquido de resfriamento com os equipamentos, custo, eficiência de resfriamento e toxicidade.O éster de glicol é uma opção de menor custo para a substituição do polipropilenoglicol, um glicol relativamente inócuo ao ser humano (2). Na ocorrência de vazamento causados por furos na parede metálica das serpentinas, há uma contaminação catastrófica do produto com que o ester de glicol entrou em contato, haja vista a alta toxicidade deste glicol para o organismo.

No Brasil, a intoxicação por éster de glicol  não é comum,sendo associada ao uso inadvertido, sendo apontado como causador de intoxicação em massa de alta letalidade em casos de contaminação de produtos alimentícios ou farmacêuticos (2). O processo investigativo, portanto, de crimes desta natureza é desafiador, uma vez que não existem padrões de comparação bem estabelecidos na literatura. A notória precariedade de informações para embasamento de investigações, torna a análise pericial e o confronto de achados pouco robustos. O objetivo deste trabalho é, portanto, oferecer uma base comparativa para futuras investigações policiais, baseada em análise clínica associativa de um caso real à literatura disponível atualmente, contribuindo assim na elaboração de hipóteses de peritos legistas frente a casos semelhantes.

2. DESCRIÇÃO

Neste relato de caso, apresenta-se um indivíduo necropsiado no Instituto Médico Legal (IML) do estado de Minas Gerais. O necropsiado veio a óbito  por intoxicação exógena por éster de glicol. O paciente teve sobrevida de 10 dias, permanecendo em ambiente hospitalar internado. Segundo relatório médico enviado pelo médico assistente, o paciente chegou ao hospital com história de redução de diurese e edema generalizado, associado a dor abdominal e mal estar. Sem relato de febre, tosse ou sintomas gastrointestinais. Foi admitido com queixa de dor precordial de forte intensidade. Em exames na instituição hospitalar foram feitos exames de imagens, dentre os quais, foram identificadas áreas hipodensas de limites parcialmente definidos nas regiões dos núcleos capsulares bilateralmente à tomografia computadorizada de crânio. Em ressonância magnética de crânio realizada no mesmo mês de admissão, alterações indicativas de edema citotóxico acometendo bilateralmente os núcleos lentiformes e região subcortical posterior do lobo parietal esquerdo, com possibilidade de encefalopatia hipóxico-isquêmica e alterações tóxico-metabólicas.  Evoluiu com choque hemodinâmico não responsivo a soroterapia ou drogas vasoativas, seguido de disfunção orgânica grave e óbito. 

O cadáver foi admitido no IML de Minas Gerais para realização de exames necroscópicos. Macroscopicamente, as vísceras torácicas e abdominais estavam dentro da normalidade. Foi coletada amostra biológica de humor vítreo e líquor por punção lombar para exame toxicológico. Segmento de nervos cranianos e segmento de nervo tibial e fibular foram enviados para estudo anatomopatológico. No estudo da região abdominal foram retirados fragmentos de fígado, estômago e rins para exame anátomo-patológico e toxicologia forense. Sem alterações significativas ao estudo médico-legal nos demais sistemas relacionados à intoxicação. O exame de sangue para estudo toxicológico feito no hospital antes da chegada do corpo ao IML não detectou presença de ester de glicol na amostra analisada. A partir de uma parceria entre a Secretaria de Estado de Saúde do Estado de Minas Gerias e a Fundação Ezequiel Dias (FUNED), parte dos exames foram feitos pela FUNDED. Os materiais colhidos durante necropsia tiveram como resultados negativos para protocolo de febres hemorrágicas, meningite bacteriana e  leptospirose em rins e cérebro. Em exame realizado no IML, o resultado da análise de vísceras foram positivas para éster de glicol nas amostras de fígado, rins e líquor, positivo também na amostra de urina. O exame toxicológico foi negativo para presença do ácido mencionado na amostra do humor vítreo.

 

Figura 1: Rim esquerdo e encéfalo isolado enviado para estudo anatomopatológico

Os exames histopatológicos mostraram alterações compatíveis com o a ação do dietilenoglicol como fibrose intersticial em região medular e extensa degeneração hidrópica em revestimento tubular do rim, além de cilindros tubulares, focos de pielonefrite crônica e focos de necrose tubular, indicativos de quadro de lesão renal aguda de rápida evolução, com degeneração e necrose hepatocelular centrolobular, com hemorragia associada. O parênquima pancreático apresentou-se levemente fibrosado, com múltiplos focos de necrose em tecido peri-pancreático. Alterações neurológicas foram observadas nos cortes histológicos dos nervos dissecados (olfatório, óptico e trigêmeo), com áreas de edema associado a desmielinização, enquanto os fragmentos de encéfalo (regiões occipital, parietal, núcleos da base, hipocampo, frontal, cerebelo, bulbo e ponte) revelaram edema discreto e difuso, além de congestão vascular, áreas de edema moderado, perivasculares e vacuolização de parênquima. Diante a precariedade de informações para embasamento de investigações, é importante salientar que os achados são sugestivos da intoxicação por éster de glicol. Contudo, os achados patológicos não são patognomônicos para intoxicação com dietilenoglicol.

3. DISCUSSÃO

Segundo a Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais, a  toxicidade do éster de glicol encontra-se na sua biotransformação através da enzima álcool desidrogenase em metabólitos tóxicos, como o éster de glicol (3). O curso clínico da intoxicação por éster de glicol segue três fases, na qual a primeira fase se manifesta entre 24 a 48  horas após a ingestão da substância. Nesta fase os sintomas são inespecíficos, podendo apresentar-se com acometimento gastrointestinal, cursando com náuseas, vômitos, dores abdominais e diarreia. 

O etilenoglicol é metabolizado no fígado em 2-hidroxietoxiacetaldeído pela enzima álcool desidrogenase, o ácido 2-hidroxietoxiacético é derivado em seguida pela enzima aldeído desidrogenase, podendo ser oxidado em ácido diglicólico. O ácido diglicólico produzido atua como inibidor competitivo, devido a sua similaridade estrutural aos intermediários do ciclo do ácido  cítrico, como a succinato desidrogenase. O aumento da competição por sítios ativos das enzimas, há inibição do ciclo do ácido nítrico, gerando redução da síntese de adenosina trifosfato (ATP), molécula fundamental para sobrevivência celular. Além disso, estudos apontam que a adição in vitro de ácido diglicólico “in vivo” gera danos renais e hepáticos, decorrente da inibição da fosforilação oxidativa mitocondrial, sucedendo o bloqueio da succinato desidrogenase e quelação de cálcio reduzindo a respiração celular (5).

Conforme a substância é metabolizada, chega no metabólito tóxico álcool oxálico pela enzima álcool desidrogenase. A maior concentração de ácidos e menor excreção pelos rins caracteriza a segunda fase da intoxicação: o acometimento dos rins, com acidose metabólica com ânion gap aumentado e piora da função renal com aumento de creatinina e ureia, com repercussão clínica com oligúria e dores em flancos (4). 

Nesta fase, os pacientes já estão internados com sintomatologia mais exuberante, com piora do estado geral. A extensão do dano renal pode demandar hemodiálise na tentativa de minimizar a evolução do  quadro. No caso relatado, o necropsiado passou por hemodiálise de urgência  em razão de sua acidose metabólica. 

A última fase é a neurológica, com acometimento de pares cranianos e diminuição de força motora de membros inferiores e superiores, que podem evoluir com insuficiência respiratória por falência motora. Alguns casos da literatura apresentam alterações histopatológicas de padrão desmielinizante, com perda da bainha de mielina da cauda equina e raízes nervosas motoras e sensoriais (5).

Apesar dos achados post mortem, os exames complementares realizados no hospital foram insuficientes para evitar o falecimento do necropsiado. Os múltiplos achados tomográficos foram inespecíficos, e, associados a exames endoscópicos com achados sem causalidade de dano, somado a exames imunohistoquímicos não reagentes, tornaram o diagnóstico da intoxicação por éster de glicol difícil e desafiador. 

Figura 2: Estudo radiológico feito imediatamente antes da necropsia. São identificados na imagem hipotransparência difusa à esquerda (derrame pleural) e consolidações pulmonares heterogêneas e assimétricas bilateralmente. Não são identificadas outras anormalidades.

4. CONCLUSÃO

Em suma, o éster de glicol, apesar de ser um componente eficaz para sistemas de refrigeração industrial, apresenta um risco significativo de intoxicação grave quando há exposição inadvertida em alimentos ou medicamentos. O caso descrito ressalta a importância da vigilância rigorosa e da implementação de protocolos robustos de investigação toxicológica para identificar e mitigar rapidamente casos de intoxicação. Além disso, a baixa casuística relacionada a intoxicações por essa substância, faz com que haja poucos materiais na literatura que possam orientar tanto o manejo clínico, quanto a necrópsia, no caso de desfecho morte. Este relato de caso, juntamente com as análises complementares propedêuticas mostrou a capacidade do agente tóxico causar dano em diversos sistemas orgânicos podendo advir a morte imediata por falência múltipla de órgãos. A complexidade dos efeitos do éster de glicol no organismo humano sublinha a necessidade contínua de pesquisa e educação sobre o uso seguro de substâncias químicas industriais. A colaboração entre profissionais de saúde, peritos forenses e especialistas em segurança alimentar é crucial para enfrentar os desafios associados à prevenção e gestão de emergências relacionadas a esse tipo de intoxicação.

AGRADECIMENTOS

Cumprimentamos a Polícia Civil de Minas Gerais e externamos nossos agradecimentos mediante a possibilidade de produzir conhecimento técnico científico com a apresentação deste trabalho. Deixamos, também, nossas homenagens à Superintendência de Polícia Técnico Científica da PCMG pela cooperação prestada à este projeto.

Referências bibliográficas

1.Curso de Engenharia de Alimentos da UFMG (Brasil). Fausto Makishi, Janaína Teles de Faria, Maximiliano Soares Pinto, Érika Endo Alves. Professores do curso de Engenharia de Alimentos. Nota Técnica de Esclarecimento: Utilização do dietilenoglicol na indústria de bebidas. Montes Claros, 10 jan. 2020. Disponível em: https://www.ica.ufmg.br/wp-content/uploads/2020/01/NOTA-TEC_UTILIZA%C3%87%C3%83O-DO-DIETILENOGLICOL-NA-IND%C3%9ASTRIA-DE-BEBIDAS.pdf. Acesso em: 1 jul. 2024.
2.Sociedade Brasileira de Nefrologia. Intoxicação por Dietilenoglicol e Insuficiência renal aguda. [S. l.: s. n.], 2020. Disponível em: https://sbn.org.br/medicos/sbn-educacao/podcasts/sbn-20-intoxicacao-por-dietilenoglicol-e-insuficiencia-renal-aguda/. Acesso em: 1 jul. 2024.
3.Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (Brasil). Subsecretaria de Vigilância em Saúde. Nota informativa: Intoxicação por dietilenoglicol, [S. l.], 10 jun. 2020. Disponível em: https://www.saude.mg.gov.br/images/noticias_e_eventos/000_2020/jun-jul-ago/Nota_Informativa_DEG_10_06_2020.pdf. Acesso em: 1 jul. 2024.
4.Lima CM, et al. Intoxicação por dietilenoglicol: um estudo retrospectivo mundial de 1937 ao caso da cervejaria de Minas Gerais. Revista Criminalística e Medicina Legal. 24 nov. 2021. DOI https://doi.org/10.51147/rcml055.2021. Disponível em: https://revistacml.com.br/2021/11/24/intoxicacao-por-dietilenoglicol-um-estudo-retrospectivo-mundial-de-1937-ao-caso-da-cervejaria-de-minas-gerais-brasil-em-2020/ Acesso em: 1 jul. 2024.
5.Pereira I, et al. Intoxicação por dietilenoglicol: aspectos clínicos, diagnósticos e tratamento. E- Scientia, Belo Horizonte, 30 jun. 2022. Disponível em: https://repositorio.animaeducacao.com.br/items/4886344a-0d15-4730-82ac-58f026153df9Acesso em: 1 jul. 2024.
6.Fundação Ezequiel Dias (FUNED). FUNED realiza exames laboratoriais dos casos de intoxicação exógena por dietilenoglicol. Disponível em: http://www.funed.mg.gov.br/2020/01/geral/funed-realiza-exames-laboratoriais-dos-casos-de-intoxicacao-exogena-por-dietilenoglicol/. Acesso em: 1 jul. 2024.