Artigo Original
EPIDEMIOLOGIA DOS AFASTAMENTOS POR DISTÚRBIOS OSTEOMUSCULARES EM HOSPITAL PÚBLICO DO RIO GRANDE DO SUL
Como citar: Dias AG, Tasqueto LD, Dutra LDG, Chiarini H, Brum LM, Harada KDO, Grellmann BS. Epidemiologia dos afastamentos por distúrbios osteomusculares em hospital público do Rio Grande do Sul. Persp Med Legal Pericia Med. Vol. 10, 2025; 250950.
https://dx.doi.org/10.47005/250952
Recebido em 30/07/2025
Aceito em 25/09/2025
O autor informa não haver conflito de interesse.
EPIDEMIOLOGY OF SICK LEAVE DUE TO MUSCULOSKELETAL DISORDERS IN A PUBLIC HOSPITAL IN RIO GRANDE DO SUL
Resumo
INTRODUÇÃO: Os Distúrbios Osteomusculares (DO) são lesões que acometem as articulações e estruturas periarticulares, acarretando lesões em músculos, ligamentos, bursas e tendões. O objetivo deste estudo foi analisar o perfil epidemiológico das licenças para tratamento de saúde por distúrbios osteomusculares que ocasionam incapacidade laboral nos servidores de um hospital público do interior do Rio Grande do Sul. MATERIAL E MÉTODO: Estudo transversal, quantitativo e descritivo realizado com base na coleta sistemática e na quantificação de dados sobre as Licenças para Tratamento de Saúde, com diagnóstico de DO, do Sistema de Informação para Estudo de uma Instituição Pública Federal de Ensino Superior. RESULTADOS: A incidência anual dos distúrbios osteomusculares durante o período analisado foi constante: em 2020, 148 (36%), 2021 139 (34%) e em 2022 126 (30%) casos. Os distúrbios osteomusculares foram mais incidentes nos profissionais da área da saúde (80,5%), sobretudo nos técnicos de enfermagem (40%) do sexo feminino (85,7%), faixa etária 51-60 anos (38,8%) e o órgão mais acometido foi a coluna vertebral (45%). DISCUSSÃO: A elevada incidência de distúrbios osteomusculares na coluna vertebral, especialmente entre mulheres e indivíduos de 50 a 61 anos, corrobora com achados da literatura que associam esses quadros à sobrecarga física, envelhecimento e diferenças anatômicas e fisiológicas entre os sexos. CONCLUSÃO: Demostrou-se que estas patologias apresentam uma incidência de incapacidade laboral alta nos profissionais de saúde avaliados, sugerindo que medidas de promoção de saúde e preventivas no ambiente laboral podem beneficiar esta população diminuindo os afastamentos do trabalho por distúrbios osteomusculares.
Palavras Chave: Epidemiologia, Transtornos Traumáticos Cumulativos, Hospitais Públicos.
Abstract
INTRODUCTION: Musculoskeletal disorders (MSDs) are injuries that affect the joints and periarticular structures, causing damage to muscles, ligaments, bursae and tendons. The aim of this study was to analyze the epidemiological profile of sick leave due to musculoskeletal disorders that cause work incapacity among employees of a public hospital in the interior of Rio Grande do Sul. MATERIAL AND METHOD: This is a cross-sectional, quantitative and descriptive study based on the systematic collection and quantification of data on sick leave with a diagnosis of MSD from the Study Information System of a Federal Public Higher Education Institution. RESULTS: The annual incidence of musculoskeletal disorders during the period analyzed was constant: in 2020, 148 (36%), 2021 139 (34%) and in 2022 126 (30%) cases. Musculoskeletal disorders were more common among health professionals (80.5%), especially nursing technicians (40%), females (85.7%), aged 51-60 (38.8%) and the most affected organ was the spine (45%). DISCUSSION: The high incidence of musculoskeletal disorders in the spine, especially among women and individuals aged 50 to 61, corroborates findings in the literature that associate these conditions with physical overload, ageing and anatomical and physiological differences between the sexes. CONCLUSION: These pathologies were shown to have a high incidence of incapacity for work among the health professionals assessed, suggesting that health promotion and preventive measures in the workplace could benefit this population by reducing absences from work due to musculoskeletal disorders.
Keywords (MeSH): Epidemiology, Cumulative Trauma Disorders, Hospitals,Public
1. INTRODUÇÃO
Distúrbios Osteomusculares (DO) são lesões que acometem as articulações e estruturas periarticulares. As articulações possuem a função primordial de possibilitar movimento e estabilidade do esqueleto e os tecidos conjuntivos que as integram são formados, na sua maioria, por matriz composta de substâncias, que têm a capacidade de resistir às forças de tração e compressão às quais estão submetidas (1).
Dentre os DO, destaca-se o comprometimento da coluna lombar que constitui uma importante causa de incapacidade e morbidade. A dor lombar representa a principal causa de absenteísmo ao trabalho em pessoas na faixa etária produtiva, além de estar entre as condições que mais geram custos relacionados a doenças do sistema musculoesquelético. A origem é, frequentemente, uma lesão mecânica, devido à sobrecarga intensa, associada ou não a movimentos repetidos ou imobilização por grande período da articulação. Esta lesão provoca pouco movimento do líquido sinovial e consequentemente, há destruição rápida da cartilagem articular. Aproximadamente 60% a 80% da população apresenta lombalgia ao longo da vida. Além disso, a estimativa é de que essa porcentagem aumente com o passar dos anos, em razão de novos hábitos de vida e maior expectativa de vida (2,3).
É importante destacar que todas as profissões da área da saúde estão sujeitas aos DO, devido a manutenção e repetição de posturas inadequadas exigidas no exercício das atividades, sendo que há quatro áreas anatômicas, que estão altamente expostas a estas lesões, que são: as costas, o pescoço, os ombros e as mãos/punhos (4,5).
Diante da relevância do tema e da exposição ocupacional a que estão submetidos os trabalhadores da saúde, especialmente em ambientes hospitalares que exigem esforço físico constante, atividades de modo contínuo e execução repetitiva de tarefas, justifica-se a análise do perfil epidemiológico dos afastamentos por DO entre servidores públicos de um hospital no interior do Rio Grande do Sul.
Por meio da análise epidemiológica dos afastamentos por distúrbios osteomusculares, é possível compreender as lesões mais prevalentes e as características dos profissionais mais afetados por DO, o que permite não apenas avaliar o impacto desse agravo nos servidores hospitalares, mas também fundamentar futuras estratégias de prevenção, promoção da saúde e redução dos afastamentos por incapacidade laboral. Assim, este estudo busca preencher uma lacuna na literatura, ao oferecer dados locais atualizados sobre uma problemática ocupacional recorrente e de alto impacto funcional.
2. MATERIAL E MÉTODO
Consiste em um estudo epidemiológico do tipo transversal de caráter quantitativo descritivo, realizado com base na coleta sistemática e quantificação de dados de servidores públicos de um hospital público do interior do Rio Grande do Sul, durante o período de 2020 a 2022.
O universo amostral deste estudo foi composto por 752 servidores públicos ativos, vinculados a um hospital localizado no interior do sul do Brasil, e regidos pela Lei 8.112/90, pertencentes ao Regime Próprio da Previdência Social (RPPS). A seleção da amostra seguiu um critério de conveniência, visto que todos os servidores que atendiam aos critérios de inclusão estabelecidos foram considerados para o estudo, sem a realização de cálculo amostral. Os critérios de inclusão abrangeram servidores estatutários que apresentaram Licenças para Tratamento de Saúde (LTS) decorrentes de DO ocorridas no período analisado. Foram excluídos da amostra os servidores que não apresentaram LTS ou que não pertenciam ao quadro estatutário do hospital.
As informações deste estudo foram coletadas em uma Instituição Federal de Ensino Superior (IFES), na Subunidade de Perícia Oficial em Saúde, no âmbito do Sistema de Informação para Estudo. Os dados obtidos referem-se aos atendimentos médicos periciais, os quais foram tabulados e analisados em um banco de dados, utilizando o software Microsoft Excel 2010. Este trabalho foi aprovado no Comitê de Ética da Universidade Franciscana, sob o CAAE nº 75816323.7.0000.5306.
Para a caracterização da amostra, foi realizada uma análise descritiva dos dados dos participantes. As variáveis categóricas foram apresentadas em forma percentual, enquanto as variáveis quantitativas foram demonstradas em média e desvio padrão. Verificou-se a normalidade das variáveis a serem estudadas através do teste de Shapiro-Wilk. Os testes t para dados independentes e Mann-Whitney foram utilizados na análise das variáveis quantitativas, dependendo do resultado da normalidade. As diferenças foram consideradas significativas quando os resultados apresentaram o valor p < 0,05. O software IBM SPSS Versão 25 foi utilizado como ferramenta computacional para a análise estatística dos dados.
Para garantir a padronização e reprodutibilidade dos diagnósticos de dores osteomusculares neste estudo, foram utilizados os códigos da Classificação Internacional de Doenças, 10ª Revisão (CID-10), conforme estabelecido pela Organização Mundial da Saúde. Os diagnósticos foram obtidos a partir dos registros dos laudos médicos periciais, respeitando os critérios clínicos específicos para cada condição. As condições incluídas, dentre as principais foram: cervicalgia (M54.2); lombalgia (M54.5); síndrome do manguito rotador (M75.1); tenossinovite de Quervain (M65.4); dedo em gatilho (M65.3); epicondilite lateral (M77.1); epicondilite medial (M77.0); síndrome do túnel do carpo (G56.0); outros cistos de bolsa sinovial (M71.3) e fibromialgia (M79.7). A utilização desses códigos assegurou uniformidade na classificação diagnóstica e facilitação na análise dos dados.
A amostragem por conveniência adotada neste estudo pode ter introduzido vieses de seleção. Ao incluir exclusivamente servidores que apresentaram Licença para Tratamento de Saúde decorrente de dores osteomusculares, há possibilidade de uma sub-representação de indivíduos assintomáticos ou daqueles com quadros clínicos leves, não diagnosticados ou não formalizados em licença, configurando um viés de exclusão de casos menos evidentes.
Além disso, a amostra restrita a um único hospital público regional limita a heterogeneidade da população estudada, restringindo a representatividade para servidores de outras instituições, localidades ou regimes jurídicos distintos. Deve-se considerar também o viés potencial decorrente da adesão ao sistema oficial de perícia médica, uma vez que servidores que recorreram a atendimentos externos ou que não formalizaram a licença médica não foram contemplados na amostra. Esses fatores comprometem a representatividade da amostra e restringem a generalização dos resultados para outras populações.
Este estudo apresenta algumas limitações metodológicas relevantes. A utilização de dados secundários provenientes de registros administrativos da perícia médica está sujeita a possíveis vieses de informação, decorrentes de eventuais inconsistências, incompletudes ou imprecisões nos registros. Assim como, o delineamento transversal da pesquisa, que impede a análise temporal dos desfechos, restringindo a possibilidade de estabelecer relações causais entre as variáveis estudadas. Por fim, a ausência de controle sobre potenciais fatores de confusão, tais como comorbidades, tempo de serviço, setor de atuação, exposição ocupacional específica e hábitos de vida, pode ter influenciado os resultados observados.
3. RESULTADOS
Foram analisados 413 casos de Licenças para Tratamento de Saúde entre servidores públicos de um hospital situado no interior do Rio Grande do Sul, durante o período de janeiro de 2020 a dezembro de 2022.
Em 2020, foram registrados 148 (36%) casos de DO, de um total de 1.093 LTS; em 2021, 139 (34%) casos de 971 LTS; e em 2022, 126 (30%) casos de 1.297. Desses, 333 (80,5%) correspondem a profissionais da saúde, incluindo médicos, enfermeiros e técnicos de enfermagem, enquanto 80 (19,5%) foram atribuídos a servidores administrativos.
Dentre a categoria que concentrava os servidores da área de saúde, os técnicos de enfermagem representaram 43,3% dos afastamentos por DO. A distribuição dos afastamentos por categoria profissional pode ser visualizada no Gráfico 1, que ilustra a incidência dos afastamentos por DO conforme a função exercida.
Em relação à incidência dos DO por região anatômica, os dados analisados evidenciaram que a coluna vertebral foi a região mais frequentemente afetada. Essa distribuição anatômica das lesões está representada no Gráfico 2.
Quanto ao acometimento da coluna vertebral, conforme a classificação internacional das doenças (CID-10), observou-se uma diversidade de lesões que estão expostas no Gráfico 3.
Quanto à distribuição de gênero, observou-se uma predominância no gênero feminino (85,7%) em relação ao masculino (14,3%). Ao explorar a distribuição das faixas etárias, os dados expuseram maior incidência de afastamento por DO na faixa etária acima de 51 anos conforme apresentado no Gráfico 4.
Para a comparação da idade média entre os sexos, foi inicialmente verificada a normalidade da distribuição das variáveis por meio do teste de Shapiro-Wilk. Ambas as distribuições (masculino e feminino) apresentaram comportamento próximo da normalidade sem desvios significativos que inviabilizassem a aplicação de testes paramétricos. Diante disso, aplicou-se o teste t para amostras independentes com variâncias não assumidas como homogêneas a fim de comparar a média de idade entre os grupos. Observou-se diferença estatisticamente significativa entre os sexos, com média de idade de 54,9 anos (IC 95%: 54,10–55,79) para o sexo feminino e 48,5 anos (IC 95%: 46,22–50,80) para o sexo masculino, com p < 0,001.
4. DISCUSSÃO
4.1. CONTEXTUALIZAÇÃO E INCIDÊNCIA
Os distúrbios osteomusculares (DO) representam uma das principais causas de afastamento laboral entre profissionais da saúde, especialmente em ambientes hospitalares, nos quais a natureza repetitiva, extenuante e fisicamente exigente das atividades favorece o desenvolvimento dessas condições. Este estudo analisou Licenças para Tratamento de Saúde registradas entre 2020 e 2022 em um hospital público do interior do Rio Grande do Sul, com ênfase nos afastamentos relacionados a DO.
Os dados revelaram que a incidência anual de DO manteve-se relativamente estável ao longo do período analisado, exceto por um aumento de 36% em 2020. Tal elevação pode estar associada ao impacto do início da pandemia de COVID-19, que resultou em maior sobrecarga física e intensificação da jornada de trabalho dos profissionais de saúde.
Os dados sobre a epidemiologia dos afastamentos por DO observados neste estudo estão de acordo com os resultados de uma pesquisa realizada em um hospital universitário em Porto Alegre (6). Ambos os estudos destacam a predominância do sexo feminino entre os trabalhadores acometidos e uma alta incidência de afastamentos entre profissionais de nível médio, grupo tradicionalmente mais exposto à sobrecarga física imposta pelas atividades assistenciais. Em relação às regiões anatômicas mais afetadas, o estudo realizado no hospital de Porto Alegre identificou acometimento da coluna vertebral em 41,5% dos casos, percentual semelhante ao encontrado na presente análise, que foi de 45%. Além disso, ambos os estudos evidenciaram uma associação clara entre maior faixa etária e afastamentos prolongados, o que é compatível com a média de idade observada no presente estudo (54,9 anos entre as mulheres), o que reforça o impacto do envelhecimento da força de trabalho na vulnerabilidade aos DO.
A convergência desses achados, mesmo em contextos institucionais distintos, revela um perfil epidemiológico recorrente marcado por gênero feminino, função técnica e envelhecimento ocupacional, reforçando a necessidade urgente de intervenções estruturadas em saúde do trabalhador, com foco em ergonomia, gestão da carga laboral e estratégias de promoção da saúde voltadas à longevidade produtiva no setor hospitalar.
4.2. PERFIL DOS PROFISSIONAIS ACOMETIDOS
4.2.1. Categoria profissional
Conforme ilustrado no Gráfico 1, os técnicos de enfermagem responderam por 43,3% dos afastamentos por DO entre os profissionais da saúde analisados neste estudo. Esse achado corrobora a literatura nacional, que evidência maior prevalência de DO entre técnicos e auxiliares de enfermagem quando comparados a outras categorias da área da saúde.
A maior vulnerabilidade ocupacional desse grupo pode ser atribuída à natureza das atividades que desempenham, caracterizadas por elevado contato físico com os pacientes, incluindo tarefas como reposicionamento em leito, transporte em macas, mobilização corporal e outras demandas que impõem significativa sobrecarga biomecânica. Além disso, esses profissionais estão frequentemente expostos a posturas inadequadas mantidas por períodos prolongados e à execução repetitiva de movimentos, fatores reconhecidamente associados ao desenvolvimento de distúrbios musculoesqueléticos relacionados ao trabalho (7).
Adicionalmente, evidências sugerem que fatores organizacionais — como déficit de recursos humanos, intensificação da carga de trabalho e ausência de pausas regulares — agravam ainda mais esse risco, configurando um cenário propício ao adoecimento ocupacional crônico, sobretudo em contextos hospitalares de alta demanda e infraestrutura limitada (8).
4.2.2. Sexo
Os dados deste estudo demonstraram que o sexo feminino foi predominantemente acometido por distúrbios osteomusculares, representando 85,7% dos casos. Embora essa prevalência possa ser parcialmente explicada pela predominância de mulheres entre os profissionais da enfermagem, a literatura aponta para diferenças fisiológicas e anatômicas entre os sexos que aumentam a vulnerabilidade feminina a essas condições.
Entre esses fatores, destacam-se os efeitos hormonais sobre os tecidos conjuntivos e redução da área transversal muscular total nas mulheres, os quais podem estar relacionados a maior incidência dos DO em mulheres. Há também diferenças anatômicas entre os sexos, com risco aumentado de lesão das extremidades inferiores no sexo feminino em decorrência da pelve ser mais larga, do aumento da angulação em valgo dos joelhos e da pronação dos pés (9).
4.2.3. Faixa etária
Conforme ilustrado no Gráfico 4, a faixa etária entre 50 e 61 anos apresentou a maior incidência de afastamentos por DO. Esse dado reforça a associação amplamente reconhecida na literatura científica entre o avanço da idade e o aumento da prevalência desses distúrbios. De acordo com Bláfoss et al. (10), as queixas musculoesqueléticas entre trabalhadores em atividades fisicamente exigentes, em ambos os sexos, tendem a intensificar-se progressivamente com a idade.
Essa maior vulnerabilidade está diretamente relacionada a mudanças celulares e estruturais no sistema musculoesquelético. Nesse sentido, Zupan et al. (11) afirma que, com o envelhecimento ocorre um notável prejuízo da capacidade regenerativa das células estromais mesenquimais que, nos adultos, são responsáveis pelo desenvolvimento do tecido musculoesquelético, sendo capazes de regenerar tecidos após fraturas ósseas, lesões da cartilagem articular e demais lesões traumáticas do tecido conjuntivo, agravando assim a fragilidade estrutural observada nessa faixa etária.
Outrossim, conforme apontado por Roberts et al. (12), o processo de extensão do envelhecimento musculoesquelético no decorrer dos anos compromete tanto a qualidade quanto a duração da vida. As alterações características desse processo incluem a perda óssea progressiva, a degradação da cartilagem articular e a degeneração dos discos intervertebrais, que resultam em dor crônica e redução da mobilidade funcional.
Tais mudanças ocorrem em decorrência da diminuição da atividade dos osteoblastos e do aumento da formação e função dos osteoclastos, aumentando o risco de fraturas. Ademais, no sexo feminino ocorre um declínio nos níveis de estrogênio após a menopausa, ocasionando uma perda óssea ainda maior, ampliando ainda mais o risco de lesões (12).
4.3. REGIÕES ANATÔMICAS ACOMETIDAS E IMPACTO NA SAÚDE PÚBLICA
O estudo de Jacquier-Bret e Gorce evidenciou que taxas elevadas de DO foram identificadas em diversas profissões da área da saúde, apresentando valores superiores a 75% para a grande maioria das ocupações avaliadas. Esse estudo abrangeu seis categorias profissionais de diferentes países, incluindo enfermeiros, parteiras, fisioterapeutas, osteopatas, dentistas e cirurgiões. Os autores também destacaram que as quatro regiões anatômicas mais acometidas pelos DO foram o pescoço, as costas, os ombros e as extremidades superiores, sendo que essas taxas elevadas ocorreram independentemente da profissão exercida. Tais resultados indicam que os DO são, em grande parte, decorrentes de posturas inadequadas mantidas no ambiente de trabalho (4).
Esse contexto é corroborado pelo Gráfico 2, que ilustra a incidência de DO conforme as regiões anatômicas acometidas na população estudada. A análise revela que a coluna vertebral foi a área mais afetada, representando 45% dos casos, seguida pelo joelho e pelo ombro, ambos com 7,1%. A expressiva prevalência de DO na coluna vertebral está em consonância com estudos prévios que identificaram essa estrutura como a mais frequentemente acometida e apontaram a dor lombar como a principal causa de incapacidade laboral (3,13).
Em relação ao acometimento da coluna vertebral, os resultados apresentados no Gráfico 3 demonstram o impacto expressivo dessas lesões na saúde pública. Segundo informações do Ministério da Previdência Social, divulgadas em janeiro de 2024, aproximadamente 51,4 mil pessoas receberam benefícios por incapacidade temporária em decorrência de lesões na coluna, representando uma parcela significativa dos mais de 2,5 milhões de brasileiros contemplados com o auxílio. Dentre essas lesões, destaca-se a dor lombar isolada, responsável por 46,9 mil concessões de benefícios relacionados a lesões da coluna vertebral (13).
A dor lombar, nesse cenário, configura-se como uma das principais causas de incapacidade funcional e morbidade em adultos, especialmente na população em idade produtiva. Assume também o papel de uma das afecções musculoesqueléticas que mais gera custos ao sistema de saúde e à previdência social. Sua etiologia está frequentemente relacionada a lesões mecânicas decorrentes de sobrecarga intensa, associadas ou não à repetição de movimentos ou à imobilização prolongada de articulações. Tais condições prejudicam a movimentação do líquido sinovial, o que contribui para a degradação acelerada da cartilagem articular. Estima-se que entre 60% e 80% da população vivencie episódios de lombalgia ao longo da vida. Além disso, projeções indicam que essa prevalência tende a aumentar nos próximos anos, impulsionada pelo envelhecimento populacional, pelas mudanças nos novos hábitos e maior expectativa de vida (3).
4.4. RECOMENDAÇÕES DE PRÁTICAS DE PREVENÇÃO E INTERVENÇÃO
4.4.1. Prevenção primária em saúde
A prevenção em saúde refere-se à adoção de medidas proativas voltadas à redução do risco de aparecimento ou agravamento de condições de saúde, sejam elas de natureza física ou mental. Trata-se de um componente fundamental das políticas públicas de saúde, especialmente no âmbito da prevenção primária, cujo objetivo é evitar o adoecimento antes que ele ocorra. Ao atuar precocemente, previne-se a instalação de quadros crônicos, melhora-se a qualidade de vida e reduz-se a sobrecarga nos serviços de saúde. (14)
Logo, a fisioterapia preventiva desempenha um papel estratégico ao aliar a promoção da saúde à educação em saúde e ao controle de fatores de risco, especialmente os de ordem biomecânica e postural. Por meio de ações educativas, treinamentos ergonômicos e orientações sobre higiene postural, essa abordagem contribui para a manutenção da funcionalidade musculoesquelética e para a prevenção de incapacidades físicas, sendo parte essencial das estratégias de intervenção no nível primário da atenção à saúde. (14)
4.4.2. Treinamento interdisciplinar no manuseio de pacientes
Programas de educação e treinamento personalizados, voltados ao manuseio seguro de pacientes, constituem uma das principais estratégias de prevenção primária em ambientes de atenção à saúde. Tais intervenções têm como objetivo fortalecer a conscientização dos profissionais sobre os riscos ergonômicos associados às atividades assistenciais, promovendo o desenvolvimento de técnicas adequadas de movimentação e transferência de pacientes. (15)
Ao serem conduzidos de forma interdisciplinar — envolvendo fisioterapeutas, enfermeiros, técnicos de segurança do trabalho e outros membros da equipe multiprofissional —, esses treinamentos potencializam a aprendizagem prática e colaborativa, reduzindo o risco de distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho (DORT). Além disso, favorecem a construção de uma cultura institucional voltada à prevenção de lesões, à valorização da segurança do trabalhador e à melhoria da qualidade da assistência prestada. (16)
4.4.3. Ginástica laboral
A Ginástica Laboral (GL) consiste em uma modalidade de atividade física praticada no próprio ambiente de trabalho, sendo também denominada como ginástica compensatória, ginástica do trabalho ou ginástica de pausa. Seu principal objetivo é promover a saúde e o bem-estar dos trabalhadores, atuando na prevenção de doenças ocupacionais por meio da interrupção do ciclo de tarefas repetitivas e da monotonia da jornada laboral. Na intenção de promover a saúde do trabalhador por meio da prática de exercícios físicos, a GL pode proporcionar o autoconhecimento, melhora da autoestima, e favorece as relações interpessoais no ambiente de trabalho. (17, 18).
No contexto hospitalar, a aplicação da GL por sua vez, apresenta-se como um meio eficaz de compensação aos trabalhadores, dada a elevada exposição dos profissionais da saúde a riscos ocupacionais, tais como sobrecarga física, estresse e posturas inadequadas mantidas por longos períodos. A GL, nesse cenário, funciona como uma estratégia compensatória eficaz, auxiliando na manutenção da capacidade funcional dos trabalhadores e contribuindo para a prevenção de distúrbios osteomusculares e doenças psicossociais. (19)
Além dos benefícios diretos à saúde do trabalhador, estudos demonstram que a implementação da GL no ambiente hospitalar está associada à melhora na produtividade, à redução do absenteísmo e à diminuição dos gastos com afastamentos e despesas médicas. Consequentemente, sua adoção reflete não apenas em ganhos individuais e coletivos em termos de saúde e bem-estar, mas também em benefícios econômicos para as instituições de saúde, configurando-se como uma medida custo-efetiva de promoção da saúde ocupacional. (19)
5. CONCLUSÃO
Conclui-se, com este estudo, que os servidores da área da saúde do sexo feminino, com idade entre 51 e 60 anos, que exercem a função de técnico de enfermagem, foram os mais acometidos por distúrbios osteomusculares, que resultaram em afastamentos por incapacidade laboral e em Licenças para Tratamento de Saúde. As lesões mais incidentes afetaram a coluna vertebral, com destaque para a região lombar. Esses dados são relevantes para o planejamento de estratégias de prevenção e promoção da saúde voltadas a essa condição, podendo também refletir o panorama atual dos distúrbios osteomusculares entre profissionais de saúde que atuam em ambientes hospitalares.

Graf 1. Incidência dos afastamentos por Distúrbios Osteomusculares por atividade profissional durante o período de 2020 a 2022 em um hospital do interior do Rio Grande do Sul. Elaborado pelos autores; 2025.

Graf. 2. Incidência dos distúrbios Osteomusculares em servidores públicos de acordo com a região anatômica acometida durante o período de 2020 a 2022 em um hospital do interior do Rio Grande do Sul. Elaborado pelos autores; 2025

Graf. 3. Distribuição das lesões da coluna vertebral conforme a Classificação Internacional de Doenças (CID-10). Elaborado pelos autores; 2025.

Graf. 4: Incidência dos distúrbios Osteomusculares conforme a faixa etária durante o período de 2020 a 2022 em um hospital do interior do Rio Grande do Sul. Elaborado pelos autores; 2025.
Referências bibliográficas
1. Carvalho MA, et al. Reumatologia: diagnóstico e tratamento. 5. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 2019.
2. Dong H, Zhang Q, Liu G, Shao T, Xu Y. Prevalence and associated factors of musculoskeletal disorders among Chinese healthcare professionals working in tertiary hospitals: a cross-sectional study. BMC Musculoskeletal Disorders. 2019 Apr 23;20(1). DOI: 10.1186/s12891-019-2557-5
3. Dor Lombar Crônica: Implicações do Perfil Criativo como estratégia de enfrentamento [Internet]. Jmphc.com.br. 2025. Available from: https://jmphc.com.br/jmphc/article/view/215/218
4. Jacquier-Bret J, Gorce P. Prevalence of Body Area Work-Related Musculoskeletal Disorders among Healthcare Professionals: A Systematic Review. International Journal of Environmental Research and Public Health. 2023 Jan 2;20(1):841. DOI: 10.3390/ijerph20010841
5. Hämmig O. Work- and stress-related musculoskeletal and sleep disorders among health professionals: a cross-sectional study in a hospital setting in Switzerland. BMC Musculoskeletal Disorders. 2020 May 21;21(1). DOI: 10.1186/s12891-020-03327-w
6. Mendes, Kamilla Vitória et al. Afastamento do trabalho por distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho em trabalhadores de enfermagem. Revista de Enfermagem da UFSM, Santa Maria, v. 9, e67, 2019.
7. Lelis, Cheila Maíra et al. Distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho em profissionais de enfermagem: revisão integrativa da literatura. Acta Paulista de Enfermagem, v. 25, n. 03, 2012.
8. Koehoorn M, Demers PA, Hertzman C, Village J, Kennedy SM. Work organization and musculoskeletal injuries among a cohort of health care workers. Scandinavian Journal of Work, Environment & Health. 2006 Aug;32(4):285–93.
9. McClure SK, Adams JE, Dahm DL. Common Musculoskeletal Disorders in Women. Mayo Clinic Proceedings. 2005 Jun;80(6):796–802. DOI: 10.1016/S0025-6196(11)61534-6
10. Bláfoss R, Skovlund SV, López‐Bueno R, Calatayud J, Sundstrup E, Andersen, L. Is hard physical work in the early working life associated with back pain later in life? IA cross-sectional study among 5700 older workers. British Medical Journal. 2020. Dec;10:e040158. DOI: 10.1136/bmjopen-2020-040158
11. Zupan J, Strazar K, Kocijan R, Nau T, Grillari J, Marolt Presen D. Age-related alterations and senescence of mesenchymal stromal cells: Implications for regenerative treatments of bones and joints. Mechanisms of Ageing and Development. 2021 Sep;198:111539. DOI: 10.1016/j.mad.2021.111539
12. Roberts S, Colombier P, Sowman A, Mennan C, Rölfing JHD, Guicheux J, et al. Ageing in the musculoskeletal system. Acta Orthopaedica [Internet]. 2016 Oct 17;87(363):15–25. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC5389428/
13. Correio Braziliense. Hérnia de disco é a principal causa de afastamento do trabalho; veja ranking [Internet]. Economia. Correio Braziliense; 2024 [cited 2025 Jan 14]. Available from: https://www.correiobraziliense.com.br/economia/2024/01/6786825-hernia-de-disco-e-a-principal-causa-de-afastamento-do-trabalho-veja-ranking.html#google_vignette
14. Walsh IAP de, Bertoncello D, Lima JC. FISIOTERAPIA E SAÚDE DO TRABALHADOR NO BRASIL. CADERNOS DE EDUCAÇÃO, SAÚDE E FISIOTERAPIA [Internet]. 2018;5(9):69–80. Available from: http://revista.redeunida.org.br/ojs/index.php/cadernos-educacao-saude-fisioter/article/view/2305
15. Garzillo EM, Monaco MGL, Corvino AR, D’Ancicco F, Feola D, Della Ventura D, et al. Healthcare Workers and Manual Patient Handling: A Pilot Study for Interdisciplinary Training. International Journal of Environmental Research and Public Health [Internet]. 2020 Jul 10;17(14):4971. Available from: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC7399987/)
16. Kugler HL, Taylor NF, Brusco NK. Patient handling training interventions and musculoskeletal injuries in healthcare workers: Systematic review and meta-analysis. Heliyon [Internet]. 2024 Feb 15;10(3):e24937. Available from: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S240584402400968X)
17. Serra MVGB, Pimenta LC, Quemelo PRV. EFEITOS DA GINÁSTICA LABORAL NA SAÚDE DO TRABALHADOR: UMA REVISÃO DA LITERATURA. Revista Pesquisa em Fisioterapia. 2015 Mar 9;4(3). Disponível em: https://www5.bahiana.edu.br/index.php/fisioterapia/article/view/436
18. Cunha Laux R, Pagliari P, Viannei Effting Junior J, Corazza ST. Programa de Ginástica Laboral e a Redução de Atestados Médicos. Ciencia & trabajo [Internet]. 2016 Aug 1 [cited 2021 Nov 3];18(56):130–3. Available from: https://www.scielo.cl/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0718-24492016000200009&lang=pt
19. Vista do Benefícios da ginástica laboral em ambiente hospitalar: uma revisão integrativa [Internet]. Recien.com.br. 2024. Available from:https://www.recien.com.br/index.php/Recien/article/view/236/240)







