Artigo Original

ESTUDO DA HEREDITARIEDADE ENTRE MÃES E FILHAS POR MEIO DA QUEILOSCOPIA

Como citar: Costa ALP, Silva AV, Silva MLCAD, Pereira KA, Musse JDO, Marques JAM. ESTUDO DA HEREDITARIEDADE ENTRE MÃES E FILHAS POR MEIO DA QUEILOSCOPIA. Persp Med Legal Pericia Med. Vol. 10, 2025;

Aceito em 31/12/2025

O autor informa não haver conflito de interesse.

HEREDITY STUDY BETWEEN MOTHERS AND DAUGHTERS THROUGH CHEMILOSCOPY

Ananda Lobo Pedreira Costa

Aline Vasconcelos Silva

Mona Lisa Cordeiro Asselta da Silva

Karoline Alves Pereira

Jamilly de Oliveira Musse

Jeidson Antônio Morais Marques

Resumo

OBJETIVO: Avaliar o padrão de herança queiloscópico, transmitido de mãe para filha, e sua aplicabilidade na identificação humana. METODOLOGIA: Tratou-se de um estudo transversal de natureza qualitativa e quantitativa, elaborado de acordo com o Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology (STROBE). A amostra foi composta por 30 acadêmicas de Odontologia da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), e suas respectivas mães. O método consistiu em três etapas: mensuração da espessura labial, classificação das comissuras dos lábios e avaliação do padrão sulcular, seguindo a classificação de Suzuki e Tsuchihashi. Os dados foram analisados estatisticamente utilizando testes Qui-quadrado de Pearson e Exato de Fisher. RESULTADOS: As características labiais mais prevalentes foram a presença de lábios mistos, grossos/muito grossos e da comissura labial disposta horizontalmente. Na avaliação do padrão sulcular prevaleceram os sulcos tipo I (linhas verticais completas) e I’ (linhas verticais incompletas). A espessura e o tipo de comissura labial apresentaram maior potencial de transmissão de mãe para filhas, quando comparado aos tipos de sulcos labiais. CONCLUSÃO: A análise dos lábios evidenciou algumas características que apresentam maior semelhança entre mães e filhas, sendo o padrão das impressões labiais a característica de menor semelhança entre os descendentes estudados.

Palavras Chave: Queiloscopia; Odontologia forense; Lábio; Hereditariedade.

Abstract

OBJECTIVE: To evaluate the pattern of cheiloscopic inheritance, transmitted from mother to daughter, and its applicability in human identification. METHODOLOGY: This was a cross-sectional study of a qualitative and quantitative nature, prepared in accordance with the Strengthening the Reporting of Observational Studies in Epidemiology (STROBE). The sample consisted of 30 dentistry students from the State University of Feira de Santana (UEFS), and their respective mothers. The method consisted of three steps: measurement of lip thickness, classification of the commissures of the lips and evaluation of the sulcular pattern, following the classification of Suzuki and Tsuchihashi. The data were analyzed statistically using Pearson's chi-square and Fisher's exact tests. RESULTS: The most prevalent lip characteristics were the presence of mixed, thick / very thick lips and the lip commissure arranged horizontally. In the evaluation of the sulcular pattern, type I (complete vertical lines) and I '(incomplete vertical lines) prevailed. The thickness and type of lip commissure showed greater potential for transmission from mother to daughters, when compared to the types of lip grooves.CONCLUSION: The analysis of the lips showed some characteristics that show greater similarity between mothers and daughters, with the pattern of the lip impressions being the characteristic of less similarity among the descendants studied.

Keywords (MeSH): Cheiloscopy; Forensic dentistry; Lip; Heredity.

1. INTRODUÇÃO

A identificação humana consiste em um conjunto de procedimentos para individualizar o ser humano(1), através do emprego de métodos técnico-científicos, podendo estes serem classificados como primários ou secundários(2). Os métodos primários compreendem a Datiloscopia, Odontologia Legal e DNA. Associado aos mesmos, métodos auxiliares também podem ser empregados, entre eles a Queiloscopia(3).

O termo Queiloscopia deriva do grego cheilos (lábios) e skopein (examinar) e estuda as características dos lábios: espessura, disposição de comissuras e sulcos(4,5,6). As impressões labiais deixadas em objetos ou pertences como copos, taças, pontas de cigarro, guardanapos de papel ou em roupas e almofadas usadas em caso de sufocação, são consideradas únicas e permanentes(7,8).  

Os sulcos labiais possuem características hereditárias, transmitidas de um indivíduo a outro, podendo ser observadas semelhanças nas impressões labiais, inclusive, em gêmeos monozigóticos e seus progenitores(9). O fundamento científico para esta investigação está baseado no fato de que o lábio mucoso se apresenta recoberto por pequenos sulcos que denotam diferenças individuais por responderem a uma base genética(10).

Os lábios possuem muitas variações quanto ao tamanho, grossura, e ainda em relação a raça, idade, sexo. A queiloscopia auxilia como método de identificação humana por atender ao princípio da unicidade, através da individualidade das impressões deixadas pelos lábios. A morfologia labial de cada pessoa é única, ou seja, um indivíduo não apresenta os mesmos sulcos labiais que os outros(11).

A queiloscopia possui um notável valor identificatório através da imutabilidade e perenidade das rugas e dos sulcos labiais(12,13). Isso ocorre, pois, os desenhos dos sulcos labiais aparecem por volta da sexta semana de vida intrauterina e permanecem até a morte, logo eles possuem a capacidade de manter-se ao longo do tempo, resistindo por toda a vida. Apesar disso, alguns autores afirmam que essas características variam com a idade(14,15), como o aumento da amplitude e espessura, achados importantes para fins de identificação humana(16,17). O estudo das impressões labiais pode ser realizado através da análise de fissuras, linhas, estrias, rugas, espessura, forma das comissuras, tamanho, posição e oclusão. Quanto à espessura os lábios podem ser delgados, médios, grossos e muito grossos. Já as comissuras labiais apresentam-se como: horizontais, elevadas e abaixadas (4,16,17,18,19,20).

Após uma infecção, inclusive nos casos de herpes, os sulcos labiais voltam a sua forma original, demonstrando novamente o requisito da imutabilidade na identificação por meio da queiloscopia. Questões ambientais também não alteram os sulcos. Todavia, em casos de cicatrizes os lábios podem ficar susceptíveis a alterações(4,9,18,20,21,22).

Diante do exposto, a finalidade deste trabalho foi avaliar o padrão de herança queiloscópico transmitido de mãe para filha, e sua aplicabilidade nos processos de identificação humana.

2. MATERIAIS E MÉTODO

Estudo transversal, de natureza quantitativa, utilizando técnica de pesquisa por observação direta extensiva(23). Trata-se de uma amostra de conveniência composta por 60 indivíduos, 30 acadêmicas do sexo feminino sendo do curso de Odontologia da UEFS, residentes na cidade de Feira de Santana/BA, e suas respectivas mães.

As variáveis utilizadas foram: idade, sexo, cor da pele, naturalidade, bairro em que reside, mensuração da espessura labial, classificação das comissuras dos lábios e avaliação do padrão sulcular transmitido de mãe para filha. Os idosos e pessoas que apresentaram alguma inflamação, trauma, malformação ou outras anormalidades nos lábios foram excluídos da amostra.

A coleta de dados consistiu em três etapas: mensuração da espessura labial, classificação das comissuras dos lábios e avaliação do padrão sulcular transmitido de mãe para filha. Para a coleta de dados procedeu-se, inicialmente, a limpeza dos lábios com um guardanapo. Para a mensuração da espessura labial superior e inferior em nível da linha média foi utilizado um compasso de ponta seca, sendo essa angulação convertida em mm com o uso de uma régua milimetrada. Posteriormente, os lábios foram classificados em delgados (espessura inferior a 08 mm); médios (espessura entre 08 a 10 mm); grossos ou muito grossos (espessura medindo mais que 10 mm), e mistos (duas das diferentes classificações citadas anteriormente)(24).

Em seguida, o participante foi posicionado de acordo com o plano de Frankfurt paralelo ao solo, e orientado para que os lábios fossem posicionados em repouso.

Com o auxílio de uma máquina fotográfica digital de alta resolução, e sem a utilização do flash fotográfico, foram realizadas duas fotografias, uma aproximada e outra distanciada quanto a distância, com o objetivo de analisar as comissuras labiais e classificá-las(17) em três tipos: horizontais (dispostas perpendicularmente em relação à linha traçada na linha média labial); elevadas (comissuras dispostas acima da linha) e abaixadas (comissuras dispostas abaixo da linha).

Uma amostra 0,8 g de batom, coloração vermelho real, de longa duração, específica para cada participante, foi utilizada para obter a impressão labial. Em seguida, os lábios dos participantes foram pressionados contra um recorte de cartolina branca apoiada sobre uma placa de vidro, em movimento de “rolagem”, da esquerda para direita, sendo as impressões protegidas, posteriormente com fita adesiva. As imagens foram divididas em quatro quadrantes e oito subquadrantes, para análise e registro da frequência dos tipos de sulcos, dando origem ao queilograma.

Segundo Suzuki e Tsuchihashi (1970), os sulcos são classificados em: Tipo I: linhas verticais completas, sulcos bem definidos cobrindo todo o lábio; Tipo I’: linhas verticais incompletas, sulcos retos e não cobrem todo o lábio; Tipo II: linhas ramificadas ou bifurcadas, sulcos retos que não cobrem todo o lábio; Tipo III: linhas entrecruzadas, sulcos em forma de X; Tipo IV: linhas reticuladas, com várias cruzes formando algo como se fosse um retículo; Tipo V: linhas com várias formas, sulcos que não são encontrados em nenhum dos casos anteriores. Foi comparado o queilograma da mãe e sua respectiva filha.

Os dados foram processados eletronicamente através do programa Statical Package for the Social Sciences– SPSS for Windows, versão 17.0, e realizada a análise estatística descritiva e inferencial não paramétrica (Teste Exato de Fisher e Teste Qui-Quadrado de Pearson). Para as tabelas que obtiveram o N menor que 5, foi utilizado o Teste Exato de Fisher.

Esta pesquisa atendeu a Resolução 466/12 que regulamenta a ética da pesquisa envolvendo seres humanos e foi submetida ao Comitê de Ética em Pesquisa da UEFS, sendo aprovada sob o protocolo de número 1.950.651(Anexo A).

3. RESULTADOS

Ao final do período da coleta de dados, 60 pessoas do sexo feminino foram avaliadas. Destas 46,7% do grupo de filhas e 36,6% do grupo de mães apresentaram lábios mistos. Enquanto 53,3% das filhas e 63,4% das mães apresentaram os demais tipos de classificação. Os lábios mistos superiores e inferiores obtiveram tendência classificação em grossos/muito grossos nos dois grupos avaliados (Tabela 1).

Na variável comissura labial, 50% do grupo filha e 53,4% do grupo mãe apresentaram as comissuras labiais dispostas horizontalmente. As comissuras elevadas apresentaram o menor percentual (20% grupo filha e 20% grupo mãe). Não foram observadas alterações no padrão da comissura labial quando comparados o lábio direito e esquerdo de um mesmo indivíduo (Tabela 1).

Tabela 1 –  Avaliação das variáveis Mensuração Labial e Comissura Labial, segundo mãe e filhas estudantes de Odontologia da UEFS, Feira de Santana- BA, 2017 (N=60)

Variáveis                 Filha         Mãe
             n % n % P *
Espessura Labial

Lábios delgados

Lábios médios

Lábios grossos/ Muito grossos

Lábios mistos

Total

03

09

04

14

30

10,0

30,0

13,3

46,7

         100,0

05

09

05

11

30

16,7

30,0

16,7

36,6

         100,0

p= 0,808
Mistos superiores

Lábios delgados

Lábios médios

Lábios grossos/Muito grossos

Total

03

03

08

14 

21,4

21,4

57,2

         100,0

02

03

06

 11 

18,2

27,2

54,6

         100,0

p= 0,938
Mistos inferiores

Lábios delgados

Lábios médios

Lábios grossos/ Muito grossos

Total

03

04

07

14

21,4

28,6

50,0

         100,0

03

03

05

11 

27,3

27,3

45,4

         100,0

p= 0,942
Comissura labial

Horizontal

Elevada

Abaixada

Total

  15

06

09

30

50,0

20,0

30,0

           100,0

16

06

08

30

53,4

20,0

26,6

         100,0

p= 0,955

Em relação à variável tipo de sulco labial (Tabelas 2 e 3), o sulco tipo I obteve maior percentual quando comparado aos demais (33,3%), principalmente no subquadrante 6 onde a representatividade foi maior (30% grupo filha e 33,3% grupo mãe). O tipo sulcular I’ obteve uma frequência notória dentre os demais, com maior prevalência no subquadrante 8 (30% em ambos os grupos). Os sulcos tipo IV e V foram os menos frequentes nos indivíduos estudados. Observou-se simetria labial no padrão sulcular, com sulcos tipo I nas porções medias e laterais do lábio superior e inferior; Tipo I’ nos subquadrantes laterais inferiores e tipo II nos subquadrantes mediais superiores (Figura 1).

Figura 1. Padrões sulculares Tipo I (A); Tipo I´ (B); Tipo II (C); Tipo III (D); Tipo IV (E); Tipo V (F).

Imagem da capa

Tabela 2- Avaliação da variável tipo de sulco labial superior por subquadrante segundo mães e filhas

 Tipo de sulco no lábio inferior                 Filha         Mãe
             n % N % P *
Subquadrante 5

Tipo I

Tipo I’

Tipo II

Tipo III

Tipo IV

Tipo V

Total

07

07

06

05

03

02

30

23,3

23,3

20,0

16,7

10,0

6,7

            100,0

09

07

05

03

03

03

30

30,0

23,3

16,7

10,0

10,0

10,0

            100,0

p= 0,959
Subquadrante 6

Tipo I

Tipo I’

Tipo II

Tipo IIITipo IV

Tipo V

Total

09

06

08

03

02

02

30

30,0

20,0

26,7

10,0

6,7

6,7

           100,0

10

09

04

02

04

01

30

33,3

30,0

13,3

6,7

13,3

3,4

           100,0

p= 0,671
Subquadrante 7

Tipo I

Tipo I’

Tipo II

Tipo III

Tipo IV

Tipo V

Total

07

08

05

05

03

02

30

23,3

26,7

16,7

16,7

10,0

 6,7

           100,0

 10

06

07

04

01

02

30

33,3

20,0

23,3

13,3

 3,4

 6,7

            100,0

p= 0,812
Subquadrante 8

Tipo I

Tipo I’

Tipo II

Tipo III

Tipo IV

Tipo V

Total

08

09

06

02

03

02

30

 

             26,7

              30,0

              20,0

               6,7

              10,0

               6,7

            100,0

10

09

06

03

02

30

33,3

30,0

20,0

10,0

 6,7

 –

           100,0

p= 0,758

Observou-se que na classificação lábios mistos, 56% dessa característica foram herdadas de mãe para filho, e 23% dos lábios delgados foram transmitidos. Em relação à variável comissura labial, a mais prevalente a ser transmitida foi a horizontal (78,5%), o percentual de comissuras elevadas herdado foi o menor encontrado (41,6%). Observou-se que o sulco labial tipo I foi o mais prevalente a ser herdado de mãe para filha (75%). Os sulcos tipo II foram herdados 16,7% e o sulco tipo III obteve 13,8% de frequência a ser herdado. Os sulcos IV e V foram mais raros a serem transmitidos de mãe para filha. De acordo com o padrão sulcular encontrado, os dados mostraram positivamente associados à transmissão hereditária.

4. DISCUSSÃO

O presente estudo demonstrou achados existentes na hereditariedade queiloscópica entre mães e filhas. Observou-se que os sulcos tipo I e I’ foram os mais prevalentes a serem herdados. Os sulcos IV e V foram mais raros a serem transmitidos de mãe para filha, corroborando com os achados na literatura acerca da hereditariedade na queiloscopia(9,18,23).

 Padrão sulcular transmitido de mãe para filho                 Filha   Mãe
             n % n % P *
 

Tipo I

Tipo I’

Tipo II

Tipo III

Tipo IV

Tipo V

Total

61

48

34

28

20

             12

203

30,1

23,6

16,7

13,8

9,9

5,9

           100,0

50

40

30

20

10

10

160

31,1

25,0

18,8

12,5

6,3

6,3

            100,0

p= 0,911

Em relação à frequência dos sulcos labiais analisados, os resultados do presente estudo, vão de encontro parcialmente a estudos identificados na literatura(4,17,20,25).  Barros et al (2006) investigaram o padrão sulcular predominante em uma amostra de 120 pessoas e obtiveram como resultado o Tipo I’ (25%), seguida pelo Tipo I (22%) e pelo tipo III (20%). Outro estudo precedente(25), verificou o Tipo II (25,5%), seguidas pelo Tipo III (23,2%) e I (22,8%). Um estudo(20) com uma amostra de 140 indianos, com idade entre 0 a 70 anos, observou-se o Tipo II como o padrão sulcular prevalente (28,59%), seguido pelo Tipo III (27,89%), Tipo I (19,29%), Tipo I’ (12,80%), Tipo IV (9,64%). Em suas investigações, Oliveira et al (2012) e Sharma et al (2009), encontraram o tipo III como o mais prevalente, no presente estudo os mesmos ocuparam o quarto lugar, que pode ser justificado pela diferença nas amostras populacionais utilizadas para a investigação.

A predominância da espessura labial neste estudo vai de encontro com os resultados encontrados na literatura(17,25). Um estudo precedente(25), com uma amostra composta por 104 acadêmicos do curso de Odontologia da UFPB, de ambos os sexos, consta a predominância da espessura labial mista (64,4%) e lábios grossos/muito grossos (70,1%). O alto percentual de lábios grossos na classificação lábios mistos, infere na miscigenação encontrada na população brasileira(25). Entre os estudos que não mostraram a predominância da espessura labial médios, destaca-se um estudo de Barros et al (2006), composta por amostra de 120 estudantes de Odontologia da UEFS de ambos os sexos e idades variáveis, onde encontrou a maior prevalência em lábios delgados (43%).

A variável disposição da comissura labial horizontal vai de encontro a alguns achados na literatura(4,17,25), dentre eles Barros et al (2006) que encontraram a maior prevalência (70%) em comissuras horizontais; Oliveira et al. (2012), tiveram o maior percentual em comissuras horizontais (61%) e Molano et al (2002) em um estudo com uma população de 168 estudantes da Faculdade de Odontologia da Universidade de Antioquia-Bogotá, onde predominou as comissuras horizontais.

O presente trabalho corrobora com relatos da literatura acerca do padrão sulcular transmitido de mãe para filho, no qual foi encontrada uma relação positiva entre a queiloscopia e a hereditariedade materna. Dentre eles, um estudo longitudinal realizado por Tsuchihashi (1974), que durante três anos obteve amostras das impressões labiais, onde encontrou semelhanças ao comparar as impressões labiais de gêmeos com as de seus pais. Afchar-Bayat (1978) realizou uma pesquisa com uma amostra labial de 160 pessoas de ambos os sexos, nas quais encontrou similaridades associadas a fatores hereditários. Recentemente, Barragán et al (2011) estudaram a variação genética como determinante para a variação fenotípica, confirmando aspectos determinantes na hereditariedade queiloscópica.

Apesar da largura dos lábios e da disposição das comissuras serem de simples obtenção, a análise das impressões labiais requer um estudo mais apurado para a realização do queilograma de maneira correta. Sendo assim, faz-se necessário que o examinador principiante possua não só conhecimentos teóricos, mas olhos minimamente treinados diante da variada quantidade de possibilidades de impressões labiais(17).

Os padrões de impressões labiais de todos os 60 indivíduos participantes dessa pesquisa foram distintos. Não houve nenhum caso em que os padrões fossem idênticos, provando que os estudos realizados por Tshuchihashi e Suzuki (1974) e outros autores são realmente válidos, pois cada pessoa possui um padrão labial único. Nos casos de membros da mesma família não há padrões iguais, embora possa haver algumas características semelhantes.

Ao analisar os dados obtidos pode-se observar que em cada lábio não há apenas um tipo de impressão, mas sim tipos variáveis, desse modo cada quadrante deve ser analisado criteriosamente.

É importante ressaltar que sobre esta temática são poucos os estudos prévios encontrados na literatura, inviabilizando assim realizar um tipo de comparação mais profunda. Os estudos que encontraram achados positivos para justificar a investigação da hereditariedade na queiloscopia estão suportados no valor identificatório da imutabilidade, perenidade e variabilidade das rugas e dos sulcos labiais(13).

Os sulcos labiais possuem características hereditárias, logo a topografia das impressões labiais tem relação com a herança genética.  O fundamento científico está no fato de que o lábio mucoso se apresenta recoberto por pequenos sulcos que denotam diferenças individuais por responderem a uma base genética(10) Os lábios possuem muitas variações quanto ao tamanho, grossura, e ainda em relação a raça, idade, sexo. A morfologia labial de cada pessoa é única, ou seja, um indivíduo não apresenta os mesmos sulcos labiais que os outros(15) Quanto à individualidade, as impressões deixadas pelos lábios são diferentes entre todos os indivíduos, atribuindo à queiloscopia características como variabilidade e especificidade(4).

A análise de lábios é um procedimento simples e com baixo custo. Portanto, a queiloscopia pode ser usada de forma confiável nos casos de identificação humana na área forense. Entretanto, estudos adicionais devem ser realizados em um maior número de indivíduos, principalmente membros da mesma família para análise da hereditariedade.

Os achados encontrados no presente estudo contribuem para fundamentar a investigação do padrão de herança queiloscópico herdado de mãe para filho. O método utilizado corresponde aos critérios biológicos e técnicos da identificação humana, o que torna a pesquisa relevante na Odontologia Legal. 

5. CONCLUSÃO

Observou-se uma associação entre o padrão de herança queiloscópico transmitido de mãe para filha. Os dados da literatura indicam a necessidade de estudos mais amplos, com isso, a presente investigação ressalta a necessidade de mais pesquisas, com critérios robustos para esclarecer a  questão da hereditariedade queiloscópica. Assim, pode-se constatar que a queiloscopia é um parâmetro relevante a ser considerado quando for um método capaz de auxiliar na identificação humana. 

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