Relato de Caso
Investigação de Síndrome Infantil de Defunção Súbita a partir de achados necroscópicos: Um relato de caso
Como citar: Alcântara WLD, Lima PHMN, Carvalho LED, Amaral LHO, Amaral FG, Moura MFR. Investigação de Síndrome Infantil de Defunção Súbita a partir de achados necroscópicos: Um relato de caso. Persp Med Legal Pericia Med. Vol. 10, 2025; 250519.
https://dx.doi.org/10.47005/250519Aceito em 04/09/2025
O autor informa não haver conflito de interesse.
Investigation of Sudden Infant Death Syndrome based on necroscopic findings: A case report
Resumo
INTRODUÇÃO: A Síndrome Infantil de Defunção Súbita (SIDS) é definida por morte inesperada em crianças menores de um ano e que permanece inexplicada após investigação extensa do caso, incluindo revisão da história clínica, necropsia completa e exame do local de óbito. Este trabalho busca discutir as dificuldades inerentes a esse diagnóstico a partir de relato de caso. MATERIAIS E MÉTODOS: Realizou-se uma revisão não sistematizada da literatura disponível em bases de dados em associação ao caso de um recém-nascido necropsiado em agosto de 2019 na Delegacia Regional de Polícia Civil de Divinópolis, município de Minas Gerais. RELATO DE CASO: Recém-nascido de 13 dias de vida, sexo feminino, encontrado sem vida pela mãe na cama onde dormiam juntas. Em discussão do laudo, foram levantadas hipóteses de asfixia e SIDS. DISCUSSÃO: Alguns fatores de risco são exposição intrauterina a drogas, tabagismo materno, roupa de cama cobrindo o rosto, e compartilhamento de cama. Neste caso, a criança apresentava sinais de asfixia, como congestão vascular no encéfalo, equimoses poliviscerais e sangue fluido e escuro. Não foi identificada causa obstrutiva em vias aéreas que pudesse indicar sufocação direta, assim como a hipótese de sufocação indireta não pôde ser descartada. Os sinais evidenciados podem estar presentes na SIDS, tornando o diagnóstico final incerto. CONCLUSÃO: Trata-se de caso desafiador para o profissional, que diante de achados inespecíficos ao exame do cadáver, muitas vezes não consegue estabelecer a causa mortis. Educação de gestantes e cuidadores é importante para evitar esses óbitos.
Palavras Chave: Síndrome da Morte Súbita do Lactente, Síndrome Infantil de Defunção Súbita, Sufocação, Asfixia, Pediatria.
Abstract
INTRODUCTION: Sudden Infant Death Syndrome (SIDS) is defined by the unexpected death of children under one year old which remains unexplained after extensive investigation, including a revision of clinical history and of the location of death and complete necropsy. This work aims to discuss the difficulties inherent to this diagnosis from a case report. MATERIAL AND METHODS: A non-systematic review of the literature available in databases was performed, as well as the analysis of a case report of the necropsy of a newborn in August 2019 in a Police Department in Divinópolis, Minas Gerais, Brazil. CASE REPORT: A 13-days-old female infant was found dead by her mother on their shared bed. The report brings up the hypotheses of asphyxiation and SIDS. DISCUSSION: Some risk factors include in-utero exposure to drugs, maternal smoking, bed sheets covering the child’s face, and bed-sharing. In this case, the baby showed signs of asphyxia, such as brain vascular congestion, visceral petechiae, and dark and fluid blood. No obstructive cause was found in the victim’s airways to indicate choking, but smothering, compressive, or positional asphyxia also cannot be ruled out. The signs presented can be attributed to SIDS, making the final diagnosis uncertain. CONCLUSION: It is a challenging case for the medical professional, who, facing the non-specific findings of the autopsy, often cannot firmly establish a cause of death. The education of pregnant women and child carers is important to avoid these deaths.
Keywords (MeSH): Sudden Infant Death Syndrome, Suffocation, Asphyxia, Pediatrics.
1. INTRODUÇÃO
A Síndrome da Morte Súbita no Lactente, ou Síndrome Infantil de Defunção Súbita (SIDS), como proposto por Peres, 2005, é definida por morte inesperada em crianças menores de um ano e que permanece inexplicada após investigação extensa do caso, incluindo revisão da história clínica, necropsia completa e exame do local de óbito. Trata-se de um evento traumático para as famílias diante da morte misteriosa de uma criança previamente hígida, e causa importante de morte infantil no mundo. Estima-se que globalmente houve 27.685 mortes por SIDS em 2019, com uma taxa de mortalidade de 20,98 mortes por 100.000 partos, sendo uma causa de morte mais expressiva em países desenvolvidos (10). Este artigo busca discutir os achados necroscópicos que podem ser encontrados na suspeita de SIDS a partir de relato de caso e as dificuldades inerentes a esse diagnóstico.
2. MATERIAIS E MÉTODOS
As informações descritas neste trabalho se baseiam no laudo pericial produzido pelo Posto de Perícia. Para elaboração da discussão, foram selecionados 12 artigos como referencial teórico a partir de consulta à literatura disponível.
3. RELATO DE CASO
Apresenta-se a necropsia de recém-nascido de 13 dias de vida, sexo feminino, encontrado sem vida pela mãe na cama onde dormiam juntas no dia 27 de agosto de 2019. Segundo histórico de ocorrência, a mãe tinha hábito de dormir próxima à criança pelo fato da filha engasgar com muita frequência e mamar constantemente. Após perceber a criança sem dados vitais, a mãe fez contato com vizinhos, que acionaram a equipe do SAMU. Apesar das tentativas de reanimação, foi constatado o óbito da criança e encaminhado corpo ao IML para avaliação precisa da causa mortis.
Ao exame necroscópico, o corpo apresentava sinais de morte compatíveis com mais de 6 horas de morte, a saber, rigidez, pupilas fixas e hipóstases. Ao exame externo, encontradas feridas de 1 cm suturas em face medial das mãos, compatíveis com relato da mãe de cirurgia para tratamento de polidactilia, e ferida punctória em face posterior da mão direita, compatível com punção venosa realizada pelo atendimento do SAMU. Em segmento cefálico, constatada congestão vascular, sem sinais de fratura. Em região cervical, não se constatou fator obstrutivo de traqueia. Em região toracoabdominal, evidenciadas equimoses subpleurais (Manchas de Tardieu) nos pulmões e subepicárdicas no coração, além de sangue fluido e escuro ao corte.
Em discussão do laudo, confirmam-se sinais de asfixia, como congestão vascular no encéfalo, equimoses poliviscerais e sangue fluido e escuro, sem contudo definição da causa direta de morte. Levantadas hipóteses de Asfixia e da Síndrome Infantil de Defunção Súbita.
4. DISCUSSÃO
Atualmente, na literatura, existe uma grande discussão sobre a definição da Síndrome da Morte Súbita do Lactente, sendo ela recentemente descrita como a “morte súbita e inesperada de criança menor de 1 ano de idade, com início do episódio fatal aparentemente ocorrendo durante o sono, que se mantém inexplicada após exaustiva investigação, incluindo a realização de autópsia completa e revisão das circunstâncias da morte e da história clínica” (6). A própria nomenclatura sofre questionamentos, com Peres defendendo o uso de “Síndrome Infantil da Defunção Súbita” para evitar confusão com outras causas de morte súbita que não essa síndrome, e para melhor adequação do acrônimo (11).
Krous et al. propuseram ainda a classificação em IA, IB, II, e não classificada. A categoria IA é caracterizada pela criança apresentar entre 21 dias e 9 meses, possuir história clínica normal, gestação a termo, ausência de casos parecidos na família, e cuja necropsia demonstrou ausência de substrato orgânico ou externo que pudesse justificar a morte. Na categoria IB estão incluídos casos em que a criança apresenta uma história clínica semelhante a IA, mas nos quais investigação do local do ocorrido não foram feitas e/ou alguma investigação necessária não foi realizada, a saber, exames toxicológicos, microbiológicos, radiológicos, do vítreo, e screening metabólico. A categoria II é caracterizada pela criança apresentar um dos seguintes achados que diferem das categorias I: idade menor que 21 dias ou maior que 270 dias; casos semelhantes na família; condições neonatais ou perinatais resolvidas; sufocação não poder ser descartada com certeza; crescimento ou desenvolvimento anormal que não é considerado como causa; ou achados anormais na necrópsia, como alterações inflamatórias, que não explicariam o óbito por si só. Por último, a categoria não classificada enquadra os casos que não se adequam às classificações anteriores, mas para as quais os diagnósticos diferenciais são equívocos.
A fisiopatologia desse quadro permanece incerta na literatura. Acompanhando o histórico de investigação dessa síndrome, inúmeras hipóteses foram levantadas, como choque endotóxico por bactérias entéricas, respiratórias e vírus (2); posição prona ao dormir (12); base genética transmitida de forma ligada ao sexo (7); fumo passivo (1); e alterações no padrão respiratório e na arquitetura do sono (8). Atualmente, a hipótese do risco triplo apresenta a etiologia como multifatorial, argumentando que a SIDS ocorre quando “um lactente em período crítico do desenvolvimento que tem vulnerabilidade intrínseca sofre um evento deflagrador exógeno” (5).
De acordo com a revisão de meta-análises compreendendo mais de dez milhões de participantes dentre os 5 continentes publicada por Kim et al. em 2024, os fatores de risco pré-natais estatisticamente relevantes são exposição a drogas quaisquer (eOR = 7.84), a opioides (eOR = 9.55), à metadona (eOR = 9.52), à cocaína (eOR = 4.38), e tabagismo materno pré-natal (eOR = 2.25). Dentre os fatores pós-natais significativos temos tabagismo materno pós-natal (eOR = 1.97), roupa de cama cobrindo o rosto (eOR = 11.01), e compartilhamento de cama (eOR = 2.89). Por outro lado, a pesquisa encontrou como fatores protetores a posição supina ao dormir (eOR = 0.48), a amamentação (eOR = 0.57), e o uso de chupeta (eOR = 0.44). Outras pesquisas colocam como fatores de risco dormir com objetos macios ou em superfícies macias, cuidado pré-natal tardio ou ausente, nascimento prematuro, baixo peso ao no nascer, sobreaquecimento, e idade materna menor que 20 anos (4). Dentre os fatores de risco maternos, destacam-se mãe jovem, multípara, intervalo curto entre gestações, ausência de acompanhamento pré-natal e baixo nível socioeconômico (3).
De acordo com Kim, Pearson-Shaver, 2024, são muito numerosos os diagnósticos diferenciais dessa síndrome, incluindo aspiração, asfixia, anafilaxia, envenenamento, trauma, hipertermia, fibrose cística, encefalite, sepse, infecções, e, dentre as mais importantes, doenças metabólicas e abuso infantil fatal. As doenças metabólicas, como erros no metabolismo de ácidos graxos, se manifestam como história familiar dessas afecções, óbitos inesperados em irmãos, ou sinais e sintomas como atrasos no desenvolvimento, hipoglicemia, hiperventilação, infecções de repetição, entre outros. No caso de abuso infantil fatal, cujos mecanismos costumam ser de trauma cranioencefálico, asfixia intencional, e envenenamento, a interpretação se torna mais difícil, visto que a autópsia não distingue asfixia acidental de asfixia intencional ou de SIDS. No entanto, outras características podem ser analisadas, como episódios repetidos de cianose ou apneia na presença de um único cuidador, ou óbito pregresso com o mesmo cuidador, morte simultânea de gêmeos, ou falecimento inexplicado de crianças acima de 6 meses.
No caso apresentado, a criança apresentava sinais de asfixia, como congestão vascular no encéfalo, equimoses poliviscerais e sangue fluido e escuro. Não foi identificada na necrópsia causa obstrutiva em vias aéreas que pudesse indicar sufocação direta, assim como a hipótese de sufocação indireta também não pode ser descartada. Entretanto, tais sinais podem estar presentes na SIDS como resultado da confluência de fatores intrínsecos e extrínsecos que a deflagram. Portanto, o caso apresentado se enquadra como SIDS classe II, uma vez que se trata de criança menor de 21 dias, nascida pré-termo, que dormia em cama compartilhada, e cuja sufocação não pode ser excluída com certeza.
5. CONCLUSÃO
A Síndrome Infantil de Defunção Súbita reflete a importância da avaliação necroscópica para excluir diagnósticos diferenciais, como sufocação direta, trauma e outras doenças. Trata-se de caso traumático para os familiares e desafiador para o profissional, que diante de achados inespecíficos ao exame do cadáver, muitas vezes não consegue estabelecer a causa mortis. Se faz necessário o trabalho de educação de gestantes e cuidadores para evitar os fatores de risco que podem deflagrar essa síndrome, como a presença de brinquedos e cobertores soltos durante o sono, dormir junto aos pais, a ausência do aleitamento materno, o tabagismo, entre outros. Espera-se, com isso, a redução de casos de óbito infantil possivelmente preveníveis.
Agradecimentos: Cumprimentamos a Polícia Civil de Minas Gerais e externamos nossos agradecimentos mediante a possibilidade de produzir conhecimento técnico-científico com a apresentação deste trabalho. Deixamos, também, nossas homenagens à Superintendência de Polícia Técnico Científica da PCMG pela cooperação prestada na elaboração deste projeto.
Referências bibliográficas
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