Artigo Original
Métodos tradicionais e modernos para a estimativa do intervalo pós-morte – revisão sistemática
Como citar: Righi LK, Romero FR. Métodos tradicionais e modernos para a estimativa do intervalo pós-morte – revisão sistemática. Persp Med Legal Pericia Med. Vol. 11, 2026; 260422.
https://dx.doi.org/10.47005/260422
Recebido em 11/02/2026
Aceito em 14/02/2026
O autor informa não haver conflito de interesse.
TRADITIONAL AND MODERN METHODS FOR THE ESTIMATION OF THE POST-MORTEM INTERVAL – SYSTEMATIC REVIEW
Resumo
INTRODUÇÃO: A estimativa do intervalo pós-morte (IPM) é um dos maiores desafios da medicina legal, sendo fundamental para determinar o tempo do óbito e subsidiar investigações criminais e civis. OBJETIVO: Analisar criticamente os métodos utilizados para estimar o IPM em seres humanos, comparando abordagens tradicionais e modernas quanto à aplicabilidade, precisão e limitações. METODOLOGIA: Trata-se de uma revisão sistemática conduzida conforme as diretrizes PRISMA. A busca foi realizada na base de dados PubMed, em 11 de maio de 2025, utilizando descritores controlados e termos livres relacionados à estimativa do IPM. Foram incluídos artigos publicados entre 2015 e 2025, disponíveis em português, inglês ou espanhol, e excluídos estudos duplicados, relatos de caso e textos sem acesso completo. RESULTADOS: Dos 125 estudos inicialmente identificados, 39 atenderam aos critérios de elegibilidade, sendo 25 classificados como métodos modernos, 7 tradicionais e 7 híbridos. As abordagens modernas, especialmente as moleculares e espectroscópicas, demonstraram maior precisão e potencial de padronização, enquanto os métodos tradicionais permanecem úteis em intervalos curtos, mas com limitações quanto à subjetividade e influência ambiental. DISCUSSÃO: Observou-se uma transição progressiva dos métodos clássicos para técnicas avançadas, com destaque para as análises ômicas e modelos preditivos, que ampliam a sensibilidade e reprodutibilidade das estimativas. CONCLUSÃO: Nenhum método isolado mostrou-se universalmente aplicável, portanto, a combinação entre técnicas tradicionais e modernas, aliada à padronização e validação contínua, representa o caminho mais promissor para aprimorar a precisão e aplicabilidade prática da estimativa do intervalo pós-morte.
Palavras Chave: intervalo pós-morte, medicina legal, tanatologia
Abstract
INTRODUCTION: The estimation of the post-mortem interval (PMI) is one of the greatest challenges in forensic medicine, being essential for determining the time of death and supporting criminal and civil investigations. OBJECTIVE: To critically analyze the methods used to estimate the PMI in humans, comparing traditional and modern approaches regarding their applicability, accuracy, and limitations. METHODOLOGY: This is a systematic review conducted according to the PRISMA guidelines. The search was performed in the PubMed database on May 11, 2025, using controlled descriptors and free terms related to PMI estimation. Articles published between 2015 and 2025 in Portuguese, English, or Spanish were included, while duplicates, case reports, and studies without full-text access were excluded. RESULTS: Of the 125 studies initially identified, 39 met the eligibility criteria, with 25 classified as modern methods, 7 as traditional, and 7 as hybrid. Modern approaches, particularly molecular and spectroscopic techniques, demonstrated greater accuracy and potential for standardization, while traditional methods remain useful for short intervals but are limited by subjectivity and environmental influence. DISCUSSION: A progressive transition from classical to advanced techniques was observed, highlighting omics analyses and predictive models that enhance the sensitivity and reproducibility of PMI estimations. CONCLUSION: No single method proved universally applicable; therefore, the combination of traditional and modern techniques, along with standardization and continuous validation, represents the most promising path to improve the accuracy and practical applicability of post-mortem interval estimation.
Keywords (MeSH): post-mortem interval, forensic medicine, thanatology
1. INTRODUÇÃO
O termo intervalo pós-morte (IPM), ou cronotanatognose, refere-se ao estudo do tempo decorrido entre a morte do indivíduo e sua descoberta. A determinação da data da morte é uma tarefa de extrema importância, por possuir implicações jurídicas e criminais significativas, como o pagamento de seguros e a condução de investigações policiais (1).
A determinação do IPM é uma das tarefas mais complexas no âmbito da medicina legal, uma vez que não existe um método único que permita sua definição precisa. Por essa razão, diversos métodos devem ser utilizados de forma concomitante para se estabelecer uma estimativa aproximada. Essa determinação é influenciada tanto por fatores endógenos quanto por fatores exógenos, sendo que condições ambientais, como temperatura, umidade, topografia e o tempo até a descoberta do corpo, impactam significativamente a avaliação da data do óbito (1,2).
Atualmente, não existe um método universalmente válido para todas as situações, ou mesmo para um subconjunto delas. Para estimar o IPM, recomenda-se a aplicação da metodologia mais confiável e adequada às circunstâncias específicas de cada caso. Em alguns contextos, é necessária a exclusão de determinados métodos, enquanto outros se mostram mais apropriados. A associação de múltiplas abordagens é imprescindível para aumentar a precisão da estimativa. Contudo, para que um método seja aplicável, é fundamental que tenha sido apresentado à comunidade científica, possua informações claras sobre sua utilização e demonstre nível satisfatório de exatidão (1).
Diante da necessidade crescente de aumentar-se a precisão da estimativa do intervalo de tempo pós-morte, a ciência tem intensificado esforços no desenvolvimento de novos métodos capazes de superar as limitações das abordagens tradicionais, o que vem impulsionando significativamente as pesquisas na área forense. Nos últimos anos, observa-se um foco cada vez maior em métodos quantitativos baseados não apenas em observações empíricas, mas também em critérios físicos e matemáticos que buscam estimar o tempo de morte com maior precisão. Nesse contexto, espera-se que o avanço tecnológico e o aprimoramento de ferramentas analíticas cada vez mais sensíveis promovam inovações relevantes nesse campo de estudo (1–3).
Diante desse cenário, torna-se essencial reunir e analisar criticamente as evidências disponíveis sobre os métodos empregados na estimativa do IPM, comparando abordagens tradicionais e modernas quanto à sua aplicabilidade e acurácia. Assim, este trabalho propõe-se a realizar uma revisão sistemática da literatura, a fim de sintetizar os principais avanços científicos e contribuir para o aprimoramento das práticas médico-legais relacionadas à determinação do intervalo pós-morte.
2. MATERIAL E MÉTODO
A busca por estudos foi realizada na base de dados PubMed, no dia 11 de maio de 2025, com o objetivo de identificar publicações que abordassem métodos tradicionais e/ou modernos de estimativa do intervalo pós-morte (IPM) em seres humanos.
A revisão sistemática foi desenvolvida de acordo com as recomendações do sistema Preferred Reporting Items for Systematic Reviews and Meta-Analyses (PRISMA) (4).
A estratégia de busca foi construída utilizando descritores controlados e termos livres combinados por operadores booleanos, conforme apresentado a seguir: ((“Time of Death”[MeSH Terms] OR “Postmortem Interval”[Title/Abstract] OR “Post-mortem Interval”[Title/Abstract] OR “PMI”[Title/Abstract] OR “Postmortem Changes”[MeSH Terms]) AND (“Methods”[MeSH Terms] OR “Estimation”[Title/Abstract] OR “Techniques”[Title/Abstract] OR “Approaches”[Title/Abstract]) AND (“Forensic Medicine”[MeSH Terms] OR “Forensic Pathology”[Title/Abstract] OR “Thanatology”[Title/Abstract])).
Foram incluídos apenas artigos com texto completo disponível, publicados entre 2015 e 2025, que abordassem métodos de determinação do intervalo pós-morte (IPM) aplicados a amostras humanas, em qualquer fase do processo de decomposição. Foram excluídos os estudos duplicados, relatos de caso, artigos que não tratassem diretamente da estimativa do intervalo pós-morte, bem como aqueles fora dos idiomas selecionados ou sem acesso gratuito ao texto completo.
Os estudos incluídos foram organizados em uma planilha do Microsoft Excel, contendo informações sobre autoria, título, ano de publicação, amostra, tipo de método (tradicional ou moderno), técnica utilizada, principais resultados, vantagens e limitações.
A análise foi realizada de forma descritiva e qualitativa, permitindo a identificação de tendências, convergências metodológicas e lacunas de conhecimento nos métodos empregados para a estimativa do intervalo pós-morte (IPM) em humanos.
3. RESULTADOS
A busca bibliográfica foi realizada na base de dados PubMed, utilizando combinações de descritores controlados (MeSH Terms) e termos livres relacionados à estimativa do intervalo pós-morte (Postmortem Interval – PMI).
Inicialmente, foram identificados 125 artigos. Após a aplicação do filtro de período de publicação (2015–2025) e disponibilidade gratuita dos textos, 108 registros permaneceram para triagem. Em seguida, procedeu-se à leitura manual de títulos e resumos, resultando na seleção preliminar de 53 estudos potencialmente relevantes para o tema.
Na etapa de elegibilidade, foram excluídos 14 artigos que não estavam disponíveis em português, inglês ou espanhol, totalizando 39 estudos incluídos na amostra final desta revisão sistemática.
O processo de identificação, triagem, elegibilidade e inclusão dos estudos está representado no fluxograma PRISMA.
| Figura 1 – Fluxograma PRISMA (elaborado pela autora). |
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Identificação |
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Artigos remanescentes após aplicação dos filtros de busca (n=108). |
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Artigos remanescentes após seleção manual de potencial relevância (n=53). |
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Avaliação |
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17 artigos eliminados por filtros de busca. |
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55 artigos eliminados por título. |
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Artigos remanescentes após eliminação por idioma (n=39). |
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55 artigos eliminados por idioma. |
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Elegibilidade |
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Artigos selecionados (n=39). |
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Inclusos |
Os 39 estudos selecionados foram publicados entre 2016 e 2025, com aumento expressivo a partir de 2020. A distribuição temporal evidencia picos de publicações em 2021 (7 estudos) e 2024 (8 estudos), demonstrando o crescente interesse na modernização das técnicas de estimativa do intervalo pós-morte (IPM).
Entre os estudos incluídos, 25 foram classificados como modernos, 7 como tradicionais e 7 como híbridos, conforme o gráfico.

Gráfico 1 – Classificação do método dos estudos selecionados (elaborado pela autora).
A categorização considerou o tipo de abordagem utilizada na estimativa do IPM. A diferença central está na transição de observações macroscópicas e análises físico-químicas simples (tradicionais) para a investigação de alterações biomoleculares e uso de tecnologias avançadas (modernas), que oferecem maior objetividade e potencial para estimativas de IPM de médio a longo prazo.
Foram definidos como métodos tradicionais aqueles baseados em parâmetros físicos, fisiológicos ou bioquímicos simples, como temperatura corporal, rigidez, coloração cutânea, entomologia forense e dosagem de potássio no humor vítreo. Os métodos modernos, por sua vez, englobam técnicas moleculares, químicas e tecnológicas recentes, incluindo proteômica, metabolômica, análises de DNA e RNA, espectroscopia, tomografia pós-morte e modelagens digitais. Por fim, os métodos híbridos reúnem características de ambas as abordagens, combinando técnicas clássicas com ferramentas laboratoriais ou tecnológicas avançadas, com o objetivo de aumentar a precisão da estimativa do tempo de morte.
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Autor |
Título |
Tipo de estudo |
Categoria |
Principais achados |
Principais limitações |
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| Abdoun A., Amir N., Mokrane F. (2023) | Thanatomicrobiome in forensic medicine | Revisão |
Moderno |
Tanatomicrobioma e necrobioma passam por sucessão previsível após a morte, funcionando como um “relógio microbiano”. | Variação e taxa de sucessão são influenciadas por múltiplos fatores bióticos e abióticos. | ||||||
| Bianchi I. et al. (2022) | Dental DNA as an Indicator of Post-Mortem Interval (PMI): A Pilot Research | Pesquisa Piloto |
Moderno |
O DNA da polpa dentária é uma fonte promissora para estimar o IPM. 101 mutações em 38 genes foram consideradas de interesse e atribuídas a alterações pós-morte do DNA. Os resultados são encorajadores para a estimativa de IPM de vários dias (0 a 34 dias), período em que os métodos tradicionais falham. | Amostra piloto pequena (17 dentes). Não foi possível coletar mais de um dente por paciente. | ||||||
| Bugelli V. et al. (2023) | Review on forensic importance of myiasis: Focus on medicolegal issues on post-mortem interval estimation and neglect evaluation |
Sistemática (PRISMA) |
Tradicional |
Miíase é fundamental para a estimativa do mIPM (mínimo intervalo pós-morte) e para a avaliação de negligência (em humanos e animais). O mIPM é calculado pela idade da larva mais antiga. | A infestação ante-mortem pode complicar e sobre-estimar o mIPM. Fatores como temperatura e as condições do hospedeiro influenciam o ciclo de desenvolvimento. | ||||||
| Busch J.R., Hansen S.H. (2022) | The wristwatch – A supplemental tool for determining time of death |
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Tradicional |
O relógio de pulso é uma ferramenta adicional valiosa, especialmente útil quando o IPM excede as 24h, onde o método padrão de Henssge não é aplicável. A avaliação pode reduzir substancialmente a janela de IPM. | A reserva de energia encurta com o envelhecimento/danos do relógio, podendo levar a uma superestimação do intervalo desde a última ativação. Requer o conhecimento da reserva de energia total (especificações do fabricante). | ||||||
| Ceciliason A. et al. (2020) | Histological quantification of decomposed human livers: a potential aid for estimation of the post-mortem interval? | Artigo Original (Pesquisa Retrospectiva) e Desenvolvimento de Modelo Preditivo |
Híbrido |
O sistema HDS (5 marcadores) é estatisticamente robusto e a decomposição do fígado não é atingida antes de 35 dias pós-morte. O modelo combinado (HDS + Pontuações Corporais Parciais – PBS) teve precisão ligeiramente melhor do que os métodos separados, fornecendo melhor representação do processo de decomposição. | Foco em corpos encontrados em ambientes internos. A precisão do modelo pode ser afetada por casos extremos de baixo IMC ou dessecação externa. | ||||||
| Ceciliason A. et al. (2020) | Microbial neoformation of volatiles: implications for the estimation of post-mortem interval in decomposed human remains in an indoor setting | Artigo Original (Pesquisa Retrospectiva) |
Híbrido |
A decomposição progrediu mais rapidamente nos casos com neoformação microbiana. A presença de neoformação (principalmente N-propanol e 1-butanol) pode ser usada como indicador da taxa de decomposição e melhorar a precisão do modelo IPM (TBS/ADD). Acetaldeído foi o volátil mais comum (83% dos casos). | Estudo retrospectivo, dificultando a discriminação entre neoformação e ingestão ante-mortem de etanol. Fraca ou nenhuma correlação linear observada entre o IPM e os voláteis detectados. Amostra limitada a corpos encontrados em ambientes internos com faixa estreita de temperatura. | ||||||
| Choi K. et al. (2019) | Postmortem proteomics to discover biomarkers for forensic PMI estimation | Artigo Original (Pesquisa e Validação de Marcadores) |
Moderno |
Os proteínas eEF1A2 e GAPDH demonstraram degradação previsível e consistente em ratos e camundongos, sugerindo utilidade e transferibilidade para humanos. A perda da banda nativa de eEF1A2 em ratos mostrou a correlação mais forte com o IPM. | O estudo em humanos foi piloto, com apenas três casos, e com baixo número de amostras em animais para análise estatística na fase proteômica. É necessário mais pesquisa em amostras humanas maiores e em janelas de tempo mais amplas para determinar a perda significativa da banda nativa do GAPDH em estágios posteriores. A super-expressão de eEF1A2 em pacientes com câncer pode ser um fator de exclusão. | ||||||
| Cianci V. et al. (2024) | microRNAs as New Biomolecular Markers to Estimate Time since Death: A Systematic Review | Revisão Sistemática (PRISMA) |
Moderno |
miRNA são marcadores promissores para estimar o IPM, principalmente devido à sua estabilidade. miRNAs como miR-133a, miR-125b e miR-1 são referências confiáveis. A utilização de modelos matemáticos pode reduzir o percentual de erro na predição. | Os estudos são geralmente poucos e analisam número reduzido de miRNAs e métodos variáveis. Fatores como tipo de tecido, causa da morte e ritmo circadiano influenciam o comportamento dessas moléculas. | ||||||
| Cianci V. et al. (2024) | Potential Role of mRNA in Estimating Postmortem Interval: A Systematic Review | Revisão Sistemática (PRISMA) |
Moderno |
Confirma o potencial do mRNA para uma estimativa mais precisa do IPM. mRNAs como -actin e GAPDH são úteis, especialmente em curtos períodos (horas/dias). Tecidos mais protegidos (coração, cérebro, polpa dentária) são as matrizes preferidas. | A maioria dos estudos foca em intervalos de tempo curtos. Falta de modelos matemáticos e dados de taxa de erro na maioria dos artigos analisados. A degradação é influenciada pela temperatura e pelo tipo de tecido. | ||||||
| Dell’Aquila M. et al.
(2021) |
Estimation of the time of death: where we are now? | Comentário/Revisão |
Híbrido |
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Os métodos tradicionais têm um limite intrínseco de sensibilidade. Pesquisas com biomoléculas (proteínas, DNA, RNA) são limitadas pela influência da temperatura ambiental e da putrefação bacteriana. O Nomograma de Henssge sofre de limitações intrínsecas. Pesquisa em miRNA está em estágio inicial, baseada principalmente em modelos animais. | ||||||
| Ermida C., Cunha E., Ferreira M.T. (2024) | Luminol and the postmortem interval estimation — influence of taphonomic factors | Artigo Original (Pesquisa Experimental) |
Tradicional |
Os resultados do luminol são influenciados por fatores tafonômicos como temperatura, umidade, tipo de solo e pH. Ossos queimados não mostraram reação. Os solos arenosos e a decomposição indoor (estufa) resultaram na maior intensidade de quimioluminescência. | A amostra utilizada foi pequena. O método envolve análise subjetiva, embora tenha havido alta concordância entre observadores. Não se replicou fielmente a decomposição de um corpo inteiro. | ||||||
| Fais P. et al. (2018) | HIF1 protein and mRNA expression as a new marker for post mortem interval estimation in human gingival tissue | Artigo Original (Pesquisa e Validação de Marcadores) |
Moderno |
A expressão da proteína e do mRNA de HIF-1 no tecido gengival mostrou correlação dependente do tempo com o IPM. A proteína HIF-1 atingiu o pico em IPM curto (1–3 dias) e diminuiu gradualmente em IPM médio (4–5 dias). Não houve detecção significativa em IPM longo (8–9 dias). | O número de amostras em cada grupo era pequeno. A investigação está em estágio inicial, necessitando de estudos de confirmação adicionais. | ||||||
| Foster S.N. et al. (2016) | Estimation of postmortem interval using vitreous potassium levels in cases of fatal road traffic collision | Pesquisa Original (Estudo de Regressão Linear) |
Tradicional |
O IPM variava entre 6 e 162 horas. A relação entre o potássio no humor vítreo e o IPM é linear. |
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| Gelderman H.T. et al. (2018) | The development of a post-mortem interval estimation for human remains found on land in the Netherlands | Artigo Original (Desenvolvimento e Validação de Método de Pontuação e Fórmulas de Regressão) |
Tradicional |
O método de pontuação desenvolvido tem alta confiabilidade entre observadores. O TDS foi um preditor significativo do IPM: R² de 0.67 para casos indoor e R² de 0.80 para casos outdoor. | O uso de ADD reduziu o R², sugerindo que o ADD não contabiliza todo o calor presente. A precisão não é alta em casos de IPM longo. | ||||||
| Gruszczyńska E. et al. (2024) | Spectroscopic Analysis of Tryptophan as a Potential Optical Biomarker for Estimating the Time of Death |
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Moderno |
A concentração de triptofano na superfície da pele aumenta consideravelmente com o aumento do IPM. Houve um aumento significativo na intensidade de emissão dos espectros em amostras obtidas aproximadamente 48 horas pós-morte, comparado a 24 horas. | Estudo preliminar com apenas duas amostras pós-morte. Necessidade de pesquisas adicionais para examinar o impacto de outros componentes fluorescentes na substância da pele (tirosina, NADH, flavinas). A variabilidade inerente na composição da substância gordurosa de cada indivíduo influencia os espectros. | ||||||
| Huang W., Zhao S., Liu H., Pan M., Dong H. (2024) | The Role of Protein Degradation in Estimation Postmortem Interval and Confirmation of Cause of Death in Forensic Pathology: A Literature Review | Revisão Sistemática (PRISMA) |
Moderno |
O uso de proteínas em abordagens “ômicas” (proteômica, peptidômica, metabolômica) e espectroscópicas (FT-IR) pode resolver desafios forenses, como IPM tardio e “autópsias negativas” (causas de morte sem achados morfológicos claros). | A degradação proteica pós-morte é o principal desafio. Métodos de alto rendimento (proteômica) são caros. A maioria dos biomarcadores potenciais são validados em animais e precisam de validação repetida em cadáveres humanos. | ||||||
| Kim J.Y. et al. (2017) | Cell Death-Associated Ribosomal RNA Cleavage in Postmortem Tissues and Its Forensic Applications | Artigo Original (Pesquisa e Prova de Conceito) |
Moderno |
A comparação das taxas de degradação entre o domínio frágil (D8) e o domínio estável (5′ terminal) do rRNA 28S fornece informações quantitativas. Esta diferença é altamente proporcional e exibe correlação linear significativa com o IPM, tanto em camundongos quanto em tecidos humanos de autópsia. | O estudo em humanos foi apenas de prova de conceito (dois casos de autópsia). A correlação linear é limitada a períodos pós-morte de 1 a 3 dias (em camundongos). A temperatura e a umidade são fatores ambientais que podem influenciar as taxas de degradação. Necessidade de validação em maior número de casos de autópsia para ajuste prático dos modelos matemáticos. | ||||||
| Krap T., Meurs J., Boertjes J., Duijst W. (2015) | Technical note: unsafe rectal temperature measurements due to delayed warming of the thermocouple by using a condom. An issue concerning the estimation of the postmortem interval by using Henßge’s nomogram |
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Tradicional |
Há uma diferença significativa nas medições de temperatura durante os primeiros 5 minutos quando se usa a camada adicional. A camada extra causa um atraso no aquecimento (ou medição da temperatura correta) e diminui a precisão da medição nos minutos iniciais. | O modelo de agar não pode ser totalmente comparado ao resfriamento do corpo humano, devido à diferença de massa, complexidade do tecido, ausência de processos bioquímicos post-mortem e ausência de esfíncter. Fatores como bolsas de ar e dobras na camada adicional aumentam o atraso e reduzem a precisão. | ||||||
| Mazzatenta A. et al. (2024) |
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Moderno |
Foi possível registrar o “fingerprint volabolômico” (assinatura química volátil) da decomposição muscular de 0 a 72 horas. As emissões de compostos orgânicos voláteis aumentaram progressivamente com o IPM. O aumento da variabilidade nas distribuições de compostos orgânicos voláteis tornou-se evidente após 48 horas. O músculo esquelético é uma amostra confiável e acessível para estudos de IPM. |
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| Montanari E. et al. (2021) | Suitability of miRNA assessment in postmortem interval estimation | Revisão Sistemática |
Moderno |
miRNAs são excelentes marcadores de referência (endógenos) devido à sua estabilidade significativa em IPM precoce e longo. A estabilidade do miRNA é menos suscetível à temperatura e condições ambientais do que o mRNA. |
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| Morikawa K. et al. (2016) | Time-related change evaluation of the cerebrospinal fluid using postmortem CT |
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Híbrido |
A densidade do LCR aumenta gradualmente com o tempo pós-morte, mas de forma não linear. A densidade manteve-se próxima a 20 HU (Unidades Hounsfield) até o dia 2.5. O dia 3 pós-morte foi o momento mais precoce a mostrar um aumento de densidade em comparação com o dia 1 e dia 1.5. O dia 7 apresentou densidade estatisticamente mais alta do que os dias iniciais (até o dia 3). |
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| Ortiz-Herrero L. et al. (2021) | Estimation of the post-mortem interval of human skeletal remains using Raman spectroscopy and chemometrics | Artigo Original (Pesquisa e Desenvolvimento de Modelo Preditivo) |
Moderno |
A Espectroscopia Raman fornece informações valiosas sobre as modificações químicas e físicas dos ossos. O modelo OPLS correlacionou modificações espectrais com o IPM conhecido (15 a 87 anos). Foi possível determinar o IPM de 10 de 14 amostras de validação com erro de acurácia inferior a 30%. | O modelo teve que lidar com grande variabilidade interindividual. As amostras eram de corpos enterrados em nichos de cemitério (minimizando processos diagenéticos), o que limita a aplicação a esqueletos expostos a condições tafonômicas mais adversas. | ||||||
| Pasaribu R.S. et al. (2023) |
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Revisão Sistemática (PRISMA) |
Moderno |
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| Pittner S. et al. (2022)
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A standard protocol for the analysis of postmortem muscle protein degradation: process optimization and considerations for the application in forensic PMI estimation | Artigo de Método/Protocolo (Desenvolvimento e Otimização de Protocolo) |
Moderno |
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A degradação proteica não é amplamente aplicada na rotina forense devido à heterogeneidade de protocolos. O uso de volume insuficiente ou excessivo de tampão de extração levou a resultados piores. Recomenda-se usar gelo seco durante o transporte de amostras congeladas, pois o esforço logístico foi subestimado na simulação internacional. | ||||||
| Pittner S. et al. (2020) |
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Moderno |
Variações intramusculares (vasto lateral) foram mínimas e podem ser desconsideradas. Variações intermusculares são distintas e oferecem potencial para maior precisão. O miocárdio e o músculo temporal apresentaram degradação acelerada em comparação com o músculo esquelético da coxa. | Estudo piloto com pequeno tamanho amostral. IPM era impreciso para dois dos casos. Músculo liso (esfíncter pilórico) sofre desvios extremos devido à proximidade com o sistema gastrointestinal ácido/enzimático. | ||||||
| Pittner S. et al. (2016) |
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Artigo Original (Pesquisa e Desenvolvimento de Marcadores) |
Moderno |
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A precisão preditiva do método é melhorada pela exclusão de casos com idades extremas (abaixo de 18 e acima de 80 anos) e IMC extremo (abaixo de 19 e acima de 30). | ||||||
| Pittner S. et al. (2020) | The applicability of forensic time since death estimation methods for buried bodies in advanced decomposition stages | Artigo Original (Pesquisa Multidisciplinar Longitudinal) |
Híbrido |
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| Risoluti R. et al.
(2019) |
“2n Analytical Platform” To Update Procedures in Thanatochemistry: Estimation of Post Mortem Interval in Vitreous Humor |
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Moderno |
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Estudos de parâmetro único geralmente cobrem apenas um pequeno intervalo de IPM. A plataforma TGA/ICP-OES só permitiu a diferenciação de alguns intervalos de IPM (2, 4 e 6 dias) quando usadas separadamente, necessitando da combinação quimiométrica para otimizar a separação diária. | ||||||
| Rubio L. et al. (2023) | Partners in Postmortem Interval Estimation: X-ray Diffraction and Fourier Transform Spectroscopy | Artigo Original (Pesquisa e Desenvolvimento de Metodologia para IPM Tardio) |
Moderno |
O IPM tardio correlacionou-se fortemente com a cristalinidade, o tamanho do cristal e a razão mineral-matriz (M/M), que aumentaram significativamente com o tempo (10, 25, 50 anos). A razão carbonato/fosfato (C/P) diminuiu. A cristalinidade foi identificada como o parâmetro mais adequado. O método combinado XRD/ATR-FTIR alcançou alta precisão na previsão de IPM de 10 e 50 anos. | Pesquisa realizada em laboratório sob condições controladas (sem fatores tafonômicos reais). Pequeno tamanho da amostra. Variações como sexo e idade podem influenciar os resultados. | ||||||
| Ruiz López J.L., Partido Navadijo M. (2025) |
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Revisão |
Híbrido |
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| Sarkisova Y.V. et al.
(2021) |
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Moderno |
As magnitudes dos momentos estatísticos de 1ª a 4ª ordem (SM1 a SM4) variam linearmente em até 36 horas pós-morte. A assimetria (SM3) e a curtose (SM4) são as mais sensíveis às mudanças. A análise seletiva de escala (wavelet) aumenta a faixa de sensibilidade para 36 horas e a precisão da estimativa do IPM para até 45 minutos. |
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| Sauer P. et al. (2024) | Detrimental effects of scene manipulations on temperature |
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Tradicional |
A abertura de janelas causa uma queda significativa na temperatura ambiente. Esta alteração induz grandes erros na estimativa do IPM pelo Nomograma de Henssge, podendo chegar a 10,7 horas em temperaturas retais mais baixas. Se a abertura durar 30 minutos ou menos, a temperatura inicial pode ser reaproximada em até 45 minutos. Medições a 1,0 m de altura mostraram maior robustez (menor variação) do que a 0,1 m. | Estudo piloto em um apartamento simulado (sem cadáver real). Mediu-se apenas a temperatura ambiente, não o resfriamento do cadáver. A precisão do Nomograma de Henssge é limitada pelo valor Q crítico. | ||||||
| Secco L. et al. (2025) |
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Revisão Sistemática |
Moderno |
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A maioria dos estudos analisados usou amostras animais, levantando preocupações sobre a aplicabilidade em humanos. Há grande heterogeneidade nos protocolos e métodos estatísticos, dificultando a comparação direta. A degradação bioquímica é fortemente influenciada por fatores como temperatura, sexo, IMC e exposição a drogas/toxinas, que devem ser incorporados nos modelos preditivos. | ||||||
| Szeremeta M. et al. (2021) |
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Revisão |
Moderno |
Variações metabólicas pós-morte (polissacarídeos, esteroides, aminoácidos) permitem a estimativa do IPM. Estudos em ratos identificaram 26 metabólitos (incluindo 18 aminoácidos) no sangue e 25 (18 aminoácidos, 5 açúcares) com forte correlação estatística com o IPM. As vias mais afetadas são a biossíntese de aminoacil-tRNA e o metabolismo de alanina, aspartato e glutamato. A metabolômica pode indicar novos biomarcadores para abuso de drogas. | As mudanças endógenas relacionadas ao abuso de drogas detectadas são pequenas e inespecíficas. Mais estudos são fortemente necessários para explorar totalmente o potencial da metabolômica em análises de abuso de drogas e outras áreas médico-legais. | ||||||
| Tozzo P. et al. (2020) | The Role of DNA Degradation in the Estimation of Post-Mortem Interval: A Systematic Review of the Current Literature | Revisão Sistemática (PRISMA) |
Moderno |
A degradação do DNA é um processo previsível que pode ser correlacionado com o IPM, especialmente quando recente (primeiras horas/dias). Tecidos ricos em ribo-nuclease (fígado, baço) são adequados para IPM recente, enquanto tecidos pobres em ribo-nuclease (cérebro e polpa dentária) são mais estáveis e úteis para a estimativa de IPM tardio. RT-qPCR é o método mais preciso e sensível, pois distingue DNA eucariótico de procariótico. | A maioria dos estudos foca em modelos animais. Os resultados são mistos e muitos estudos concluem que a degradação de DNA ainda não é totalmente promissora. Os métodos mais antigos têm baixa especificidade, pois não diferenciam DNA humano de bacteriano/fúngico, limitando a aplicação em amostras forenses reais. Fatores ante e post-mortem (temperatura, causa da morte) e a falta de um modelo matemático multiparamétrico continuam pouco explorados. | ||||||
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Moderno |
A geoFOR resolve problemas de heterogeneidade metodológica, amostra insuficiente e circunscrição geográfica. O modelo preditivo baseado em XGBoost demonstrou um desempenho robusto, com um intervalo de confiança de 95% no escore R² de [0.810, 0.818] em dados de validação. A geoFOR fornece uma estimativa de IPM e um intervalo de previsão de 80%. | O tamanho da amostra ainda está em crescimento. Existe grande variabilidade entre casos médico-legais (predominantemente em estruturas, início de decomposição, maioria homens) e casos longitudinais de instalações (superfície do solo, estágios tardios de decomposição). | ||||||
| Wenzlow N. et al. (2023) |
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Revisão |
Híbrido |
O método mais preciso para o IPM precoce em humanos é a combinação de Nomograma de Henssge (até 80h) e a análise de potássio no LCR cisternal. O RNA (incluindo o miRNA estável) é promissor para a estimativa de IPM, sendo também útil para datar manchas de sangue (razão 18S rRNA:β-actin mRNA) e identificar fluidos corporais. | A estimativa do IPM é fortemente influenciada por fatores extrínsecos. | ||||||
| Wilk L.S. et al. (2021) | Individualised and non-contact post-mortem interval determination of human bodies using visible and thermal 3D imaging |
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Moderno |
O método não invasivo (câmera térmica) e individualizado (Fotogrametria 3D + TFD) permite reconstruir o IPM para corpos em posturas arbitrárias. Reduz o tempo de medição. O abdômen foi o local mais preciso. 80% dos IPMs reconstruídos ficaram dentro da incerteza mínima atingível pelo método padrão. O método funcionou em cenas de crime reais. | O modelo TFD atual usa apenas dois tipos de tecido (adiposo e não adiposo). A validação foi em um número limitado de cenários/climas. O alto custo da câmera térmica e o tempo de computação podem limitar a adoção generalizada. | ||||||
| Woess C. et al. (2017) | Assessing various Infrared (IR) microscopic imaging techniques for post-mortem interval evaluation of human skeletal remains |
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Moderno |
O IPM tardio correlaciona-se com o aumento do teor mineral e a diminuição de biomoléculas orgânicas. A razão mineral/orgânico aumenta e a orgânico/mineral diminui com o tempo. A Análise de Componentes Principais (PCA) permite a clara distinção entre amostras forenses e arqueológicas. A Imagem Raman foi a única capaz de reconstruir as características histo-anatômicas do osso. |
A estimativa precisa do IPM é muito complicada devido à influência de fatores ambientais. Houve dificuldade em obter um tamanho amostral adequado e comparável de diferentes décadas. Os resultados de Reflection e ATR não revelaram relações com estruturas histológicas. |
Tabela 1 – Artigos selecionados e suas principais características (elaborado pela autora).
4. DISCUSSÃO
A análise dos estudos incluídos nesta revisão evidencia uma transição gradual e consistente das abordagens tradicionais para métodos modernos na estimativa do intervalo pós-morte (IPM). Esse avanço reflete uma mudança fundamental na ciência forense, impulsionada pela necessidade de superar as limitações de precisão e objetividade dos métodos tradicionais, especialmente para IPMs mais longos (1,2,5).
4.1. ABORDAGENS TRADICIONAIS
As abordagens tradicionais para a estimativa do intervalo pós-morte (IPM) formam a base da tanatocronologia e concentram-se, sobretudo, na observação de fenômenos cadavéricos macroscópicos, bem como em análises físico-químicas simples que ocorrem nas fases iniciais do período pós-morte (5). Os estudos nas fontes descrevem essas metodologias, suas aplicações e suas limitações inerentes, que motivaram o desenvolvimento de abordagens modernas.
4.1.1. Métodos baseados em fenômenos cadavéricos precoces
De acordo com Secco et al. (2025), esses são os métodos mais utilizados na rotina forense diária para a estimativa do IPM precoce (5); eles são mais observáveis e previsíveis nas primeiras 72 horas após a morte (6). Eles envolvem a avaliação das alterações observáveis no corpo, como algor mortis, rigor mortis (rigidez cadavérica) e livor mortis (manchas hipostáticas) (5,7). O algor mortis refere-se ao declínio progressivo da temperatura corporal com velocidade variável após a interrupção definitiva das funções vitais por meio da perda de calor contínua do corpo até entrar em equilíbrio com o meio. O rigor mortis corresponde ao estado de rigidez muscular generalizada que surge após um período inicial de flacidez. Esse enrijecimento decorre da indisponibilidade de ATP (adenosina trifosfato) nas fibras musculares, o que leva à fixação permanente das pontes entre actina e miosina. O rigor mortis se inicia algumas horas após a morte (entre 1 e 2 horas), atingindo seu pico após 8 a 12 horas e desaparecendo à medida que a putrefação progride e rompe as estruturas musculares. Já o livor mortis consiste na acumulação passiva de sangue nas regiões declivosas do corpo, resultante da ação da gravidade sobre o sistema circulatório inerte, surgindo em geral a partir de 30 minutos até algumas horas após a morte e se fixando após 8 a 12 horas (8).
Esses métodos, contudo, apresentam limitações significativas, especialmente no que se refere à acurácia, já que são influenciados por múltiplos fatores (gênero, presença de microrganismos, idade, temperatura ambiente, atividade de insetos, causa da morte, composição corporal, umidade), além de dependerem fortemente de avaliações visuais e subjetivas (7, 9).
4.1.2. Método termométrico ou Nomograma de Henssge
Esse método é baseado na diminuição da temperatura central em curva sigmoide durante as primeiras 24 horas pós-morte. Sob condições ideais, pode-se alcançar uma precisão de cerca de 2,8 horas (10). O método depende da documentação correta das temperaturas ambiente e retal (11). Erros nas variáveis, mesmo que pareçam insignificantes, podem levar a estimativas erradas do IPM (12). A estabilidade do ambiente também é crucial. Alterações ambientais como a abertura de uma janela, por exemplo, podem afetar a temperatura ambiente e prejudicar a estimativa baseada no nomograma (11).
4.1.3. Potássio no humor vítreo
A análise da concentração de potássio no humor vítreo é um método químico que complementa ou auxilia os métodos físicos (5). A janela de tempo em que a estimativa é mais precisa, apresentando a menor margem de erro, é tipicamente nas primeiras 10 a 18 horas pós-morte (6, 13).
O estudo de Foster et al. (2016) teve como objetivo desenvolver uma fórmula de regressão linear para estimar o intervalo pós-morte a partir dos níveis de potássio no humor vítreo, utilizando amostras de vítimas de acidentes rodoviários com tempo de morte previamente conhecido. Os resultados indicaram que o aumento da concentração de potássio apresenta uma relação linear com o IPM, expressa por uma fórmula que mostrou elevado grau de concordância com modelos propostos em pesquisas anteriores. Embora a fórmula gerada seja comparável a resultados de estudos anteriores, os autores alertam que as estimativas de IPM podem exceder um dia em relação ao tempo real, sugerindo que, para maior precisão em investigações médico-legais, biomarcadores mais exatos devem ser considerados (14).
4.1.4. Entomologia forense
A estimativa do intervalo pós-morte também pode ser realizada por meio da entomologia forense, ramo da investigação que se fundamenta na identificação das espécies de insetos e na análise de seus ciclos de vida durante o processo de colonização cadavérica (5,15). É considerada uma das formas mais acuradas de determinar o IPM, sendo rotineiramente utilizada em investigações de morte (16, 17).
Os artigos de Ruiz López e Partido Navadijo (2025) e Gelderman et al. (2018) indicam que este método é útil tanto em casos de IPM curto, considerando o mIPM (mínimo intervalo pós-morte – tempo mínimo desde a colonização da fauna), quanto longo, quando o corpo já se encontra em estado avançado de decomposição (decomposição avançada de tecidos moles, saponificação, mumificação, restos esqueletizados) sendo a observação do tipo e estágio larval particularmente valiosa (1, 6, 17). Contudo, esse método apresenta limitações significativas, sobretudo pela forte influência exercida pela temperatura ambiente sobre o desenvolvimento dos insetos ao longo de seu ciclo de vida, o que dificulta a aquisição de dados realistas para replicação em laboratório (1).
4.1.5. Outros métodos tradicionais
Ainda que bem menos utilizadas, existem também as reações supravitais, que incluem o estudo das reações relacionadas à excitabilidade elétrica ou farmacológica residual dos tecidos corporais (5,11). A janela de tempo ideal para a aplicação destes métodos é limitada a um período de até 13 horas pós-morte (17).
Para estágios mais avançados de decomposição (dias a anos), pode-se utilizar a avaliação do estágio de putrefação (11) e a investigação histológica de diferentes substratos teciduais (5,18). O estudo de Ceciliason et al. (2021) visou quantificar histologicamente fígados humanos decompostos, propondo um sistema de pontuação chamado “score de decomposição hepática” (HDS) para melhorar a estimativa do IPM em conjunto com o score corporal total (TBS) (18).
A técnica do luminol, utilizada como teste indicativo para estimativa do intervalo pós-morte (IPM) em restos esqueléticos, é considerada um método simples, reprodutível e de baixo custo, que atua como complemento às abordagens já existentes. Não há uma janela de tempo ideal definida em horas ou dias específicos para o luminol. O princípio do método reside na degradação da hemoglobina presente nos traços intra-ósseos ao longo do tempo; à medida que o IPM aumenta, a quantidade de hemoglobina diminui, resultando em uma reação de quimioluminescência menos intensa. No entanto, os resultados obtidos com o luminol são influenciados por diversos fatores tafonômicos, como temperatura, umidade, tipo de solo e pH, que podem afetar a reação e confiabilidade da estimativa (19).
O intervalo pós-morte pode ainda ser avaliado com o uso de exames de imagem. Morikawa et al. (2016) avaliaram a densidade do LCR retrospectivamente através do uso de tomografia computadorizada para comparar diferentes intervalos pós-morte, e os resultados indicaram aumento significativo ao longo do tempo, com o terceiro dia representando o ponto mais precoce para detecção de alterações e o sétimo dia exibindo valores estatisticamente superiores. Contudo, estes relatórios cobriram apenas um curto período post-mortem, além de que, devido à ampla sobreposição dos valores de densidade observados entre as amostras, foi concluído que o LCR, isoladamente, não constitui um estimador linear nem confiável do intervalo pós-morte (IPM) (20).
4.2. ABORDAGENS MODERNAS
Para Pittner et al. (2022), as técnicas modernas mostram-se promissoras ao ampliar o espectro metodológico aplicável aos estágios pós-morte em que outros métodos não conseguem fornecer dados confiáveis (21). Cada vez mais, recomenda-se a adoção de uma abordagem multidisciplinar e a utilização de análises integradas com múltiplos painéis de marcadores, de modo a incorporar variáveis influentes, e assim, aprimorar a precisão e a confiabilidade na estimativa do intervalo pós-morte (2, 5, 16, 19).
4.2.1. Abordagens Moleculares
O interesse predominante se concentra nas tecnologias de alto rendimento, conhecidas como ciências “Omics” (proteômica, metabolômica, lipidômica e transcriptômica) (5).
As abordagens “Omics” proporcionam uma compreensão abrangente das alterações bioquímicas que ocorrem após a morte. Elas se destacam como ferramentas analíticas avançadas e promissoras na estimativa do intervalo pós-morte por oferecerem elevada acurácia, sensibilidade e reprodutibilidade nos resultados (5).
A análise da degradação proteica pós-morte tem despertado grande interesse na área forense. Entre as abordagens disponíveis, a proteômica destaca-se por sua maior confiabilidade em comparação à degradação de DNA e RNA, uma vez que os marcadores proteicos tendem a ser mais estáveis, menos influenciados por fatores extrínsecos e apresentam padrões de degradação mais lentos e reprodutíveis, características que os tornam especialmente adequados para estimativas de intervalo pós-morte de longo prazo, podendo se estender por anos ou até mesmo décadas em ossos ou tecidos mineralizados (5, 21, 22).
Há um foco crescente no uso do RNA, especificamente do microRNA (miRNA), como biomarcador (1,3). Os miRNAs são vistos como potenciais genes de referência devido à sua estabilidade pós-morte e resistência à degradação (2).
A análise de miRNA é tradicionalmente aplicada para estimar intervalos pós-morte iniciais (das primeiras horas até cerca de sete dias) devido ao seu padrão de degradação gradual e relativamente previsível nesse período (5, 7, 16). Contudo, Cianci et al. (2024) sugerem que essa técnica também pode ter utilidade em contextos mais tardios, especialmente quando aplicada a tecidos mais protegidos, alcançando potenciais estimativas que variam de várias semanas (28 a 90 dias, dependendo da matriz biológica) até um ano em matrizes específicas (saliva e sêmen) (16). Já Bianchi et al. (2022), ao analisar DNA da polpa dentária para detectar mutações somáticas decorrentes da necrose pós-morte, reportaram uma capacidade de estimativa de até 34 dias (23).
A estimativa do IPM também pode ser realizada por meio da análise do necrobioma ou tanatomicrobioma. Essa abordagem moderna concentra-se no estudo da sucessão das comunidades microbianas, principalmente bactérias e fungos, que colonizam o corpo após a morte, permitindo identificar padrões temporais associados às diferentes fases da decomposição, refletindo um processo dinâmico e ecológico, sendo especialmente valiosa para estender a avaliação de dias a semanas, período em que os métodos tradicionais se tornam altamente imprecisos ou obsoletos (5,24,25). Os resultados dessas análises indicam que, após a morte, microrganismos (especialmente aqueles provenientes do trato gastrointestinal) passam a proliferar nos órgãos internos. A evolução e sucessão dessas comunidades bacterianas no período pós-morte podem revelar biomarcadores valiosos para a estimativa do IPM, contribuindo para maior precisão na determinação do tempo de óbito (24). A análise do tanatomicrobioma, frequentemente realizada por meio do sequenciamento do gene 16S rRNA, demonstrou em modelos animais que um “relógio microbiano” pode estimar o intervalo pós-morte com boa precisão (24,26). No entanto, essa comunidade microbiana é altamente variável, influenciada por fatores como clima, temperatura, umidade, pH, dieta, uso prévio de antibióticos e presença de insetos necrófagos (24, 25). Mesmo assim, a caracterização das comunidades bacterianas em locais específicos como intestino, órgãos internos, cavidade oral ou solo adjacente, aliada a modelos preditivos (24) tem mostrado potencial para estimar o IPM com margens de erro reduzidas, chegando a cerca de 2 dias (16, 27).
4.2.2. Métodos Avançados em Física e Química
Além da biologia molecular, há um predomínio de estudos que utilizam técnicas instrumentais avançadas para obter dados objetivos. Técnicas baseadas em análise de imagem microscópica, como a espectroscopia e a quimiometria, têm sido aplicadas na estimativa do intervalo pós-morte em restos esqueléticos humanos.
O estudo de Ortiz-Herrero et al. (2021) é um exemplo desse tipo de método. Ele utiliza a espectroscopia Raman combinada com a quimiometria (OPLSR) em restos esqueléticos humanos. A coleção de 53 restos esqueléticos humanos reais analisados e utilizados para construir e validar o modelo OPLS tinha um IPM conhecido que variava de 15 a 87 anos e o método analítico proposto demonstrou ser aplicável e confiável para esse intervalo de tempo, sendo capaz de determinar o IPM em 10 das 14 amostras de validação com um erro de precisão inferior a 30%, o que torna essa metodologia promissora, ainda que experimental (28).
No humor vítreo, a tanatoquímica tradicional vem sendo aprimorada por meio de plataformas analíticas que integram espectroscopia e termogravimetria associadas à quimiometria, em uma abordagem multivariada, sendo apresentada como uma alternativa nova e promissora. Segundo Risoluti et al. (2019), essa combinação tem evidenciado a relevância de elementos como fósforo (P), enxofre (S) e magnésio (Mg), além da já consolidada dosagem de potássio (K), resultando em maior acurácia e possibilitando a estimativa do intervalo pós-morte por períodos de até 15 dias (29).
A impressão digital volabolômica, baseada na análise de compostos orgânicos voláteis (VOCs), tem sido proposta como um método objetivo e promissor para a estimativa do intervalo pós-morte pelo artigo de Mazzatenta et al. (2024), mas segue em fase preliminar e experimental. Essa abordagem permite medições em tempo real e a correlação com intervalos específicos de IPM (0, 24, 48 e 72 horas), fornecendo uma “impressão digital” química complexa que atua como biomarcador característico das fases iniciais da decomposição (15).
De acordo com Wilk et al. (2021), o desenvolvimento de uma abordagem termométrica individualizada para a estimativa do intervalo pós-morte, baseada na modelagem de Dinâmica de Fluidos Térmicos combinada à termometria e à reconstrução tridimensional por fotogrametria, representa o primeiro método não invasivo e sem contato proposto para a reconstrução do IPM, permitindo aumentar a precisão da estimativa de 2 a 35 horas (30).
Em suma, as abordagens modernas são predominantes porque buscam estabelecer um método quantitativo científico baseado em critérios físicos e matemáticos, em contraste com a natureza observacional e limitada dos métodos tradicionais (1,2,9).
5. CONCLUSÃO
A revisão sistemática evidenciou uma evolução dos métodos tradicionais de estimativa do intervalo pós-morte, aqueles que se baseiam em parâmetros físicos e observacionais, para técnicas mais modernas, que utilizam análises moleculares e tecnológicas. Os estudos demonstram que essas novas abordagens tendem a oferecer maior precisão e objetividade, embora ainda existam limitações relacionadas à padronização dos protocolos e à validação em amostras humanas, além de que a maioria está ainda em fase experimental. Nenhum método único mostrou-se suficiente para determinar o IPM de forma totalmente confiável, sendo mais eficaz a combinação de diferentes técnicas. Assim, conclui-se que o avanço na área depende da integração entre métodos tradicionais e modernos, do aprimoramento dos modelos existentes e da continuidade das pesquisas para aplicação prática na medicina legal.
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