Artigo Original

Mortalidade por raios no Brasil: perfil das vítimas por regiões e unidades federativas em 15 anos

Como citar: Dias MF, Gonçalves WGE, Oliveira MCD, Junior HBC. Mortalidade por raios no Brasil: perfil das vítimas por regiões e unidades federativas em 15 anos. Persp Med Legal Pericia Med. Vol. 11, 2026; 260530.

https://dx.doi.org/10.47005/260530

Recebido em 01/05/2026
Aceito em 06/05/2026

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O autor informa não haver conflito de interesse.

LIGHTNING MORTALITY IN BRAZIL: VICTIM PROFILE BY REGIONS AND FEDERATIVE UNITS OVER 15 YEARS

Matheus Furtado Dias

Conceitualização, Curadoria de dados, Análise de dados, Pesquisa, Metodologia, Administração do projeto, Redação do manuscrito original

https://orcid.org/0009-0008-6415-2165 - http://lattes.cnpq.br/9928521056160703

Instituto Médico Legal do Pará, Belém, PA

Wanderson Gonçalves e Gonçalves

Supervisão/ Orientação, Validação 

https://orcid.org/0000-0003-0918-1728 - https://lattes.cnpq.br/8514919525314476

Afya Faculdade de Ciências Médicas Abaetetuba, Abaetetuba, PA

Marden Cravo de Oliveira

Pesquisa, Supervisão/ Orientação, Visualização da apresentação de dados, Redação - revisão e edição

https://orcid.org/0000-0001-5885-500X - http://lattes.cnpq.br/6131301250447623

Instituto Médico Legal do Pará, Belém, PA

Hinton Barros Cardoso Junior

Supervisão/ Orientação, Validação  , Visualização da apresentação de dados

https://orcid.org/0009-0004-3371-3039 - http://lattes.cnpq.br/0573851772307320

Instituto Médico Legal do Pará, Belém, PA

Resumo

INTRODUÇÃO: A mortalidade por descargas elétricas atmosféricas (raios) constitui causa externa relevante, associada a fatores ambientais, ocupacionais e territoriais, com impacto na saúde pública e na medicina legal. MATERIAL E MÉTODO: Estudo epidemiológico, descritivo e retrospectivo, com dados secundários do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM/DATASUS). Incluíram-se óbitos classificados pelo código X33 da CID-10. Analisaram-se variáveis sociodemográficas e circunstanciais, com cálculo de frequências absolutas e relativas. RESULTADOS: Foram registrados 969 óbitos entre 2010 e 2024, com predominância na região Norte (35,3%), especialmente no Pará (13,5%). Observou-se maior ocorrência em indivíduos do sexo masculino (82,6%), jovens e adultos, sobretudo entre 15 e 34 anos. Predominaram indivíduos de cor/raça parda (57,3%) e com baixa escolaridade. Os óbitos ocorreram principalmente em outros locais (44,7%), domicílio (28,7%) e via pública (10,5%). Casos relacionados ao trabalho corresponderam a 13,9%, com elevada proporção de registros ignorados (39,0%). DISCUSSÃO: Os achados evidenciam a influência de fatores climáticos e territoriais, com maior concentração na região Norte. A predominância de homens jovens sugere associação com exposição ocupacional, especialmente em atividades ao ar livre. A alta proporção de dados ignorados indica limitações na qualidade da informação. CONCLUSÃO: A mortalidade por raios no Brasil concentra-se em áreas de maior exposição ambiental e em grupos vulneráveis, reforçando a necessidade de estratégias preventivas e aprimoramento dos sistemas de informação.

Palavras Chave: Medicina Legal; Raio; Mortalidade; Acidentes; Causas Externas

Abstract

INTRODUCTION: Mortality from lightning strikes is a relevant external cause associated with environmental, occupational, and territorial factors, with implications for public health and forensic medicine. MATERIAL AND METHODS: A retrospective, descriptive epidemiological study was conducted using secondary data from the Mortality Information System (SIM/DATASUS). Deaths classified under ICD-10 code X33 were included. Sociodemographic and contextual variables were analyzed using absolute and relative frequencies. RESULTS: A total of 969 deaths were recorded between 2010 and 2024, with predominance in the North region (35.3%), especially in Pará (13.5%). Most cases occurred among males (82.6%), particularly young and middle-aged adults, mainly between 15 and 34 years. Individuals of mixed race/skin color predominated (57.3%), as well as those with low educational levels. Deaths occurred mainly in other locations (44.7%), followed by home (28.7%) and public roads (10.5%). Work-related cases accounted for 13.9%, with a high proportion of missing data (39.0%). DISCUSSION: Findings highlight the influence of climatic and territorial factors, especially in the North region. The predominance of young males suggests occupational exposure, particularly in outdoor activities. The high proportion of missing data indicates limitations in data quality. CONCLUSION: Lightning-related mortality in Brazil is concentrated in environmentally exposed regions and vulnerable populations, reinforcing the need for preventive strategies and improvements in health information systems.

Keywords (MeSH): Forensic Medicine; Lightning; Mortality; Accidents; External Causes

1. INTRODUÇÃO

Os eventos climáticos extremos têm ganhado crescente relevância no cenário global, especialmente diante das mudanças climáticas e do aumento da variabilidade atmosférica. Entre esses fenômenos, as descargas elétricas atmosféricas (raios) destacam-se como causa significativa de morbimortalidade, particularmente em países tropicais como o Brasil, que apresenta uma das maiores incidências de raios do mundo (1). Esse contexto torna os acidentes por descargas elétricas naturais um importante problema de saúde pública, sobretudo em regiões com maior exposição ambiental e vulnerabilidade socioeconômica.

Do ponto de vista fisiopatológico, a ação do raio sobre o organismo humano pode desencadear efeitos imediatos e potencialmente letais, incluindo parada cardiorrespiratória, arritmias fatais, lesões neurológicas graves, queimaduras extensas e danos multissistêmicos decorrentes da passagem de corrente elétrica de alta intensidade (2). A letalidade desses eventos está relacionada tanto à intensidade da descarga quanto às condições em que ocorre a exposição, como ambientes abertos, atividades laborais ao ar livre e ausência de medidas de proteção adequadas.

Sob a perspectiva médico-legal, os óbitos por descarga elétrica atmosférica são classificados como causas externas acidentais, sendo registrados na Classificação Internacional de Doenças – 10ª Revisão (CID-10) sob o código X33 (vítima de raio) (3). A análise desses eventos exige investigação pericial detalhada, incluindo avaliação das circunstâncias do óbito, achados necroscópicos característicos — como as figuras de Lichtenberg — e correlação com dados ambientais e meteorológicos (4). Essa abordagem é fundamental não apenas para a correta determinação da causa da morte, mas também para a exclusão de outras etiologias, como acidentes elétricos de origem artificial ou eventos violentos.

Além disso, a distribuição desses óbitos apresenta forte relação com determinantes sociais, ocupacionais e geográficos. Populações que exercem atividades em áreas rurais ou em ambientes abertos, como agricultores, pescadores e trabalhadores da construção civil, tendem a apresentar maior risco de exposição (5). Da mesma forma, regiões com maior incidência de tempestades elétricas e menor acesso a estruturas de proteção estão mais suscetíveis à ocorrência desses eventos fatais.

Do ponto de vista epidemiológico, a análise da mortalidade por raios permite identificar padrões temporais, espaciais e sociodemográficos, contribuindo para a compreensão da dinâmica desses acidentes e subsidiando a formulação de estratégias preventivas. A investigação da distribuição por regiões, unidades federativas, sexo, faixa etária, escolaridade e local de ocorrência possibilita delinear o perfil das vítimas e identificar grupos de maior vulnerabilidade.

Diante desse contexto, o presente estudo tem como objetivo analisar o perfil epidemiológico da mortalidade por acidentes com raios no Brasil, no período de 2010 a 2024, considerando a distribuição por regiões e unidades federativas, bem como características sociodemográficas e circunstanciais dos óbitos, a fim de contribuir para o aprimoramento das políticas públicas de prevenção e para o fortalecimento da vigilância em saúde e da medicina legal.

2. MATERIAL E MÉTODO

Trata-se de um estudo epidemiológico, descritivo, exploratório, de abordagem quantitativa, com delineamento ecológico e caráter retrospectivo, realizado a partir da análise de dados secundários.

A população do estudo foi composta por todos os óbitos registrados no Brasil cuja causa básica foi classificada como “vítima de raio”, correspondente ao código X33 da Classificação Internacional de Doenças – 10ª Revisão (CID-10), no período de 2010 a 2024. Os dados foram obtidos por meio do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM), disponibilizado pelo Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS), vinculado ao Ministério da Saúde (6).

Optou-se pela tabulação segundo o local de ocorrência do óbito, considerando regiões geográficas e unidades federativas, por refletirem de forma mais fidedigna a distribuição espacial dos eventos e permitirem a identificação de áreas de maior risco. O recorte temporal de 15 anos foi definido com o objetivo de analisar a evolução histórica da mortalidade e identificar possíveis tendências ao longo do tempo.

Foram selecionadas e analisadas as seguintes variáveis: ano de ocorrência do óbito, região geográfica, unidade da federação, sexo, faixa etária (segundo classificação da Organização Pan-Americana da Saúde), cor/raça, escolaridade, local de ocorrência do óbito e indicação de acidente de trabalho (7). As variáveis sociodemográficas seguiram a padronização adotada pelo Ministério da Saúde no SIM.

Inicialmente, os dados foram extraídos da plataforma DATASUS em formato agregado e organizados em planilhas eletrônicas. Em seguida, realizou-se a etapa de tratamento e consistência dos dados, com verificação de possíveis inconsistências, padronização das categorias e consolidação das variáveis selecionadas.

A análise estatística foi realizada por meio de estatística descritiva, com cálculo de frequências absolutas e relativas (%) para todas as variáveis estudadas, permitindo a caracterização do perfil epidemiológico das vítimas e a identificação de padrões de distribuição temporal, espacial e sociodemográfica. A distribuição dos óbitos ao longo dos anos foi utilizada para avaliação da tendência temporal da mortalidade no período analisado.

Os resultados foram apresentados em tabelas e descritos de forma analítica, buscando evidenciar os principais achados e suas possíveis relações com fatores ambientais, sociais e ocupacionais. A interpretação dos dados foi realizada à luz da literatura científica e dos fundamentos da epidemiologia e da medicina legal, considerando as particularidades dos óbitos por causas externas.

Por se tratar de um estudo que utiliza exclusivamente dados secundários, de acesso público, agregados e sem identificação individual dos sujeitos, não foi necessária a submissão a Comitê de Ética em Pesquisa, conforme estabelecido pela Resolução nº 510/2016 do Conselho Nacional de Saúde. Os autores declaram não haver conflitos de interesse.

3. RESULTADOS

Entre 2010 e 2024, foram registrados 969 óbitos no Brasil atribuídos a descargas elétricas atmosféricas (CID-10: X33), configurando um conjunto de eventos letais de natureza acidental, porém fortemente condicionado por fatores ambientais e circunstanciais. A análise da série temporal demonstra comportamento não linear, com oscilações anuais relevantes, mas com tendência global de redução ao longo do período. O pico de mortalidade foi observado em 2012 (96 óbitos), seguido por 2015 (87) e 2013 (83), enquanto o menor número foi registrado em 2024 (33 casos). A partir de 2018, nota-se um padrão de declínio mais consistente, ainda que intercalado por discretas variações, sugerindo possível influência de fatores climáticos, comportamentais ou de prevenção.

Figura 1: Distribuição temporal dos óbitos por raios no Brasil (CID-10 X33), no período de 2010 a 2024, com linha de tendência linear.

Ilustrar a distribuição temporal dos óbitos por descargas elétricas atmosféricas (raios) no Brasil entre 2010 e 2024, evidenciando a variação anual dos casos e a tendência global ao longo do período
Fonte: Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM). Brasília: DATASUS, 2026.

Sob a perspectiva territorial, a distribuição dos óbitos evidencia concentração expressiva na Região Norte, responsável por 342 casos (35,3% do total), configurando-se como principal área de ocorrência desses eventos no país. As Regiões Nordeste (186; 19,2%) e Sudeste (185; 19,1%) apresentaram magnitudes semelhantes, enquanto o Centro-Oeste (163; 16,8%) e o Sul (93; 9,6%) contribuíram com proporções menores. Esse padrão sugere relação direta com áreas de maior incidência de tempestades convectivas, além de contextos ocupacionais com maior exposição ao ambiente aberto.

A análise por unidades federativas reforça esse cenário, com destaque para estados que combinam grande extensão territorial, presença de atividades rurais e elevada incidência de descargas atmosféricas. Pará (131 casos) e Amazonas (103) lideram o número absoluto de registros, seguidos por São Paulo (87), Maranhão (85) e Minas Gerais (75). Em contraposição, unidades como Amapá (3), Sergipe (3) e Alagoas (1) apresentaram ocorrência residual. A dispersão dos casos em todo o território nacional, ainda que desigual, evidencia o caráter ubíquo do risco, embora claramente mais intenso em determinadas regiões.

Tabela 1: Distribuição espacial dos óbitos por descargas atmosféricas (CID-10: X33), Brasil, 2010–2024

Variável

Categoria

n

%

Região

Norte

342

35,3

Nordeste

186

19,2

Sudeste

185

19,1

Centro-Oeste

163

16,8

Sul

93

9,6

Unidades federativas (maior ocorrência)

Pará

131

13,5

Amazonas

103

10,6

São Paulo

87

9,0

Maranhão

85

8,8

Minas Gerais

75

7,7

Demais estados

488

50,4

Total

969

100,0

Fonte: Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM). Brasília: DATASUS, 2026.

No que se refere ao perfil das vítimas, observa-se predominância marcante do sexo masculino, com 800 óbitos (82,6%), indicando forte associação com padrões de exposição diferencial, especialmente em atividades desenvolvidas em ambientes externos. O sexo feminino correspondeu a 169 casos (17,4%), mantendo participação significativamente inferior.

A distribuição etária evidenciou maior concentração de óbitos em indivíduos jovens e adultos em idade produtiva, com destaque para a faixa de 15 a 34 anos, que concentrou 42,2% dos casos. As faixas de 35 a 54 anos corresponderam a 33,5%, enquanto indivíduos com 55 anos ou mais representaram 14,3%. Crianças e adolescentes de até 14 anos somaram 9,6% dos registros

Quanto à variável cor/raça, houve predominância de indivíduos pardos (555 casos; 57,3%), seguidos por brancos (259; 26,7%), pretos (81; 8,4%) e indígenas (58; 6,0%). Registros classificados como amarelos foram raros (1 caso; 0,1%), enquanto 15 (1,5%) foram ignorados. Esse padrão, embora parcialmente alinhado à composição populacional brasileira, pode refletir também a sobreposição entre fatores sociais, ocupacionais e territoriais de risco.

Em relação à escolaridade, observou-se maior frequência de óbitos entre indivíduos com até 7 anos de estudo (57,2%), seguidos por aqueles com 8 a 11 anos (21,6%) e com 12 anos ou mais (3,1%). Destaca-se ainda proporção relevante de registros ignorados (176; 18,2%), evidenciando limitações na qualidade da informação.

No que tange às circunstâncias do evento, observa-se predominância de ocorrências em locais classificados como “outros” (433 casos; 44,7%), categoria que, no contexto das mortes por raio, frequentemente corresponde a ambientes abertos, áreas rurais ou espaços não institucionalizados. O domicílio aparece como segundo principal local (278; 28,7%), seguido pela via pública (102; 10,5%). Os estabelecimentos de saúde, considerados de forma agregada, corresponderam a 15,8% das ocorrências, sugerindo parcela de vítimas que chegaram a receber atendimento médico, ainda que sem reversão do quadro. Registros ignorados foram residuais (0,3%).

A análise da variável acidente de trabalho revelou que 135 óbitos (13,9%) foram formalmente reconhecidos como relacionados à atividade laboral, enquanto 456 (47,1%) não apresentaram essa associação. Entretanto, chama atenção o elevado percentual de registros ignorados (378; 39,0%), o que limita inferências mais robustas e sugere possível subnotificação da dimensão ocupacional desses eventos, aspecto particularmente relevante em contextos periciais e previdenciários.

Tabela 2: Perfil sociodemográfico e características dos óbitos por descargas atmosféricas (CID-10: X33), Brasil, 2010–2024

Variável

Categoria

n

%

Sexo

Masculino

800

82,6

Feminino

169

17,4

Faixa etária

1–14 anos

93

9,6

15–34 anos

409

42,2

35–54 anos

325

33,5

≥55 anos

139

14,3

Ignorado

3

0,3

Cor/Raça

Parda

555

57,3

Branca

259

26,7

Preta

81

8,4

Indígena

58

6,0

Outras/Ignorado

16

1,6

Escolaridade

Até 7 anos

554

57,2

8–11 anos

209

21,6

≥12 anos

30

3,1

Ignorado

176

18,2

Local de ocorrência

Outros

433

44,7

Domicílio

278

28,7

Via pública

102

10,5

Estabelecimento de saúde*

153

15,8

Ignorado

3

0,3

Acidente de trabalho

Sim

135

13,9

Não

456

47,1

Ignorado

378

39,0

Total

969

100,0

*Inclui hospital e outros estabelecimentos de saúde.

Fonte: Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente. Sistema de Informação sobre Mortalidade (SIM). Brasília: DATASUS, 2026.

4. DISCUSSÃO

Os achados deste estudo evidenciam que a mortalidade por acidentes envolvendo descargas elétricas atmosféricas no Brasil apresenta distribuição desigual, com forte concentração regional e perfil sociodemográfico bem definido, revelando aspectos relevantes tanto para a saúde pública quanto para a medicina legal.

A Região Norte destacou-se de forma expressiva, concentrando mais de um terço de todos os óbitos registrados no período analisado. Esse protagonismo regional não parece ser aleatório, mas sim resultado da interação entre fatores climáticos, ambientais e socioeconômicos. A elevada incidência de tempestades elétricas na região amazônica, associada à grande extensão territorial, baixa urbanização em determinadas áreas e predominância de atividades realizadas ao ar livre, cria um cenário de exposição contínua ao risco (8). Nesse contexto, o estado do Pará assume posição de destaque, apresentando o maior número absoluto de óbitos no país, o que reforça sua relevância epidemiológica dentro do fenômeno estudado.

Esse padrão sugere que a mortalidade por raios não se distribui apenas conforme a densidade populacional, mas acompanha também a dinâmica climática e ocupacional das regiões. A presença de estados como Amazonas e Maranhão entre os mais afetados reforça essa hipótese, indicando que áreas com maior frequência de descargas atmosféricas e menor infraestrutura de proteção tendem a apresentar maior vulnerabilidade (9). Por outro lado, unidades federativas com baixa ocorrência podem refletir tanto menor incidência de tempestades quanto melhores condições de proteção ou subnotificação.

A predominância marcante do sexo masculino corrobora evidências já descritas na literatura e sugere associação direta com maior exposição a ambientes abertos e atividades laborais de risco (10). Homens tendem a estar mais envolvidos em ocupações como agricultura, pesca, construção civil e outras atividades externas, o que aumenta a probabilidade de exposição durante eventos climáticos adversos (11). Esse padrão reforça o caráter ocupacional indireto dessas mortes, ainda que nem sempre formalmente registradas como acidentes de trabalho.

A concentração de óbitos em indivíduos jovens e em idade produtiva, especialmente entre 15 e 34 anos, representa um achado de grande relevância. Esse perfil indica não apenas maior exposição, mas também elevado impacto social e econômico, uma vez que envolve perda precoce de indivíduos em plena fase produtiva. Sob a ótica médico-legal, esse dado também levanta a possibilidade de associação com atividades laborais informais ou de subsistência, frequentemente realizadas sem medidas adequadas de proteção (12).

A predominância de indivíduos pardos entre as vítimas, embora parcialmente compatível com a composição demográfica brasileira, pode refletir desigualdades estruturais que influenciam a exposição ao risco. Populações mais vulneráveis tendem a residir ou trabalhar em ambientes com menor infraestrutura de proteção contra descargas elétricas, o que contribui para maior risco de ocorrência de eventos fatais (13).

A análise da escolaridade reforça esse cenário, evidenciando maior concentração de óbitos entre indivíduos com menor nível de instrução formal. Esse achado pode estar relacionado tanto ao tipo de ocupação exercida quanto ao menor acesso à informação sobre medidas preventivas durante tempestades. Além disso, o elevado percentual de dados ignorados indica fragilidade na qualidade das informações registradas, o que limita análises mais aprofundadas e destaca a necessidade de aprimoramento dos sistemas de informação.

No que se refere ao local de ocorrência, a predominância de óbitos em ambientes classificados como “outros” e em domicílio sugere forte associação com exposição ambiental direta, especialmente em áreas abertas e rurais. Diferentemente de outras causas externas, em que o ambiente domiciliar pode refletir contexto específico de violência ou autolesão, no caso das descargas atmosféricas esse dado deve ser interpretado à luz da proximidade entre habitação e ambiente natural, especialmente em regiões com menor urbanização (14). A ocorrência em via pública e a proporção de casos que evoluem para atendimento hospitalar também indicam que parte das vítimas chega a receber assistência, embora muitas vezes sem sucesso terapêutico, dada a gravidade das lesões.

A análise da variável acidente de trabalho revelou baixa proporção de casos formalmente reconhecidos como ocupacionais, contrastando com o perfil das vítimas e o contexto de exposição identificado. O elevado percentual de registros ignorados sugere subnotificação significativa dessa condição, o que possui implicações diretas na esfera previdenciária e médico-legal, especialmente no que se refere à caracterização do nexo causal e aos direitos decorrentes.

Por fim, a tendência de redução dos óbitos ao longo do período analisado pode indicar avanços em medidas de prevenção, maior disseminação de informações ou mudanças comportamentais da população. No entanto, a persistência de números relevantes, especialmente em regiões específicas, demonstra que o problema permanece significativo e demanda estratégias direcionadas, considerando as particularidades climáticas, sociais e ocupacionais de cada região.

Em conjunto, os achados reforçam que a mortalidade por raios no Brasil não é um evento aleatório, mas sim um fenômeno multifatorial, profundamente influenciado por determinantes ambientais, sociais e comportamentais. A compreensão desses padrões é essencial para subsidiar ações preventivas mais eficazes, bem como para qualificar a análise médico-legal desses eventos.

5. CONCLUSÃO

A mortalidade por acidentes envolvendo descargas elétricas atmosféricas no Brasil, no período de 2010 a 2024, evidenciou padrão epidemiológico bem definido, marcado por distribuição desigual no território nacional e forte associação com fatores ambientais, sociais e ocupacionais. Observou-se tendência geral de redução dos óbitos ao longo da série histórica, embora com manutenção de números relevantes, especialmente em regiões específicas.

A Região Norte destacou-se como principal área de ocorrência, com ênfase para o estado do Pará, que apresentou o maior número absoluto de casos, consolidando-se como epicentro desse tipo de evento no país. Esse padrão reforça a influência de condições climáticas favoráveis à ocorrência de descargas atmosféricas, associadas à maior exposição populacional em ambientes abertos e à presença de atividades laborais ao ar livre.

O perfil das vítimas foi caracterizado pela predominância do sexo masculino e pela concentração em indivíduos jovens e em idade produtiva, sugerindo relação direta com exposição ocupacional e comportamental. A maior frequência entre indivíduos de cor/raça parda e com baixa escolaridade evidencia a influência de determinantes sociais na distribuição do risco, refletindo desigualdades estruturais que ampliam a vulnerabilidade a esse tipo de evento.

As características circunstanciais dos óbitos indicaram predomínio de ocorrências em ambientes abertos ou pouco estruturados, além de significativa proporção de registros com informação ignorada quanto à relação com acidente de trabalho, o que sugere possível subnotificação dessa variável e limita a adequada caracterização do nexo ocupacional.

Dessa forma, os achados evidenciam que a mortalidade por raios no Brasil constitui um problema relevante de saúde pública e de interesse médico-legal, demandando estratégias direcionadas de prevenção, especialmente em regiões de maior risco. Ressalta-se a necessidade de fortalecimento das ações educativas, ampliação do acesso à informação sobre medidas de proteção durante tempestades e aprimoramento dos sistemas de vigilância e registro de óbitos, com vistas à produção de dados mais precisos e ao desenvolvimento de políticas públicas mais efetivas na proteção da vida.

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