Editorial

O médico que não salva vidas

Como citar: Júnior JNL. O médico que não salva vidas. Persp Med Legal Pericia Med. Vol. 11, 2026;

Recebido em 08/04/2026
Aceito em 20/04/2026

O autor informa não haver conflito de interesse.

The Doctor Who Doesn’t Save Lives

João Norival Lima Júnior

Redação do manuscrito original, Redação - revisão e edição

https://orcid.org/0000-0003-4363-9229 - https://lattes.cnpq.br/4522191295657163

Polícia Civil do Piauí, Teresina, PI

Resumo

INTRODUÇÃO: A atuação do médico legista frequentemente é percebida como distante do cuidado tradicional associado à preservação da vida, suscitando questionamentos sobre seu papel na prática médica. OBJETIVO: Refletir sobre o significado do trabalho médico-legal a partir de uma experiência vivenciada no Instituto Médico Legal. MÉTODO: Relato reflexivo de experiência profissional, com abordagem narrativa. RESULTADOS: A partir de questionamento formulado por familiar de um falecido, emergiu reflexão sobre a função do médico legista, evidenciando sua contribuição para o esclarecimento das causas de morte e para a produção de provas técnicas. DISCUSSÃO: Embora não atue na preservação direta da vida, o médico legista desempenha papel essencial na garantia da verdade dos fatos, na proteção de direitos e na prevenção de injustiças. CONCLUSÃO: O trabalho médico-legal, ao dar voz aos mortos e respostas aos vivos, representa forma relevante de contribuição à sociedade.

Palavras Chave: Medicina Legal; Autópsia; Morte; Ética Médica; Justiça

Abstract

INTRODUCTION: The work of the forensic pathologist is often perceived as distant from the traditional medical role associated with preserving life, raising questions about its place in medical practice. OBJECTIVE: To reflect on the meaning of medico-legal work based on an experience in a medico-legal institute. METHODS: Reflective report based on professional experience, using a narrative approach. RESULTS: A question posed by a relative of the deceased prompted a reflection on the role of the forensic pathologist, highlighting their contribution to determining causes of death and producing technical evidence. DISCUSSION: Although not directly involved in preserving life, the forensic pathologist plays a fundamental role in establishing the truth, protecting individual rights, and preventing injustices. CONCLUSION: Medico-legal work, by giving voice to the dead and answers to the living, represents a relevant contribution to society.

Keywords (MeSH): Forensic Medicine; Autopsy; Death; Medical Ethics; Justice.

Era início de janeiro. Fazia calor, como é de costume em Teresina.

No Instituto Médico Legal, o tempo tem outro ritmo: mais lento, mais pesado. Ali estava eu liberando mais um corpo. Chamei a família.

Eles vieram com aquele silêncio típico de quem ainda não conseguiu organizar a própria dor. Enquanto preenchia a Declaração de Óbito, atento aos termos técnicos, aos campos obrigatórios, à responsabilidade daquele documento, ouvi a pergunta, simples, direta, desarmada:

— Doutor, como é ser um médico que não salva vidas?

A caneta parou.

Não havia agressividade. Não havia acusação. Mas havia algo mais difícil de enfrentar: a sensação de verdade.

Por alguns segundos, eu não soube responder. Naquele instante, tudo o que eu fazia pareceu pequeno. Quase inútil. Eu não reanimava. Não operava. Não prescrevia. Eu lidava com aquilo que já não podia mais ser salvo.

E então veio o incômodo mais perigoso: será que eu deveria ter orgulho do que faço?

A resposta não veio de imediato, mas veio.

Veio com a lembrança de corpos que revelaram aquilo que ninguém mais poderia dizer. Veio com os casos em que um “acidente” revelou-se homicídio. Com os exames que deram voz a vítimas que já não podiam falar. Com laudos que evitaram injustiças, tanto para vítimas quanto para acusados. Veio, sobretudo, com a percepção de que o meu trabalho não termina no corpo. Ele começa ali.

Cada necropsia organiza o que antes era silêncio. Cada achado limita a dúvida. Cada conclusão estabelece um ponto de partida para a verdade.

Eu não salvo corpos, mas ajudo a impedir que histórias sejam apagadas, distorcidas ou esquecidas. Ajudo a reduzir a dúvida de quem ficou. Ajudo a dar consequência ao que aconteceu. E, muitas vezes, ajudo a impedir que o erro continue depois da morte.

Talvez salvar vidas não seja apenas impedir a morte. Talvez seja impedir que ela se torne irrelevante.

Quando levantei os olhos, ainda diante daquela mulher, percebi que talvez ela estivesse certa, só não do jeito que imaginava.