Editorial

Observaçãoes quanto a dinâmica de confronto em ambiente de floresta e ambiente urbano: a possibilidade de tiros a curta distância e pelas costas sem indício de execução

Como citar: Chambriard CJ. Observaçãoes quanto a dinâmica de confronto em ambiente de floresta e ambiente urbano: a possibilidade de tiros a curta distância e pelas costas sem indício de execução. Persp Med Legal Pericia Med. Vol. 11, 2026; 260206.

https://dx.doi.org/10.47005/260206

Recebido em 26/01/2026
Aceito em 29/01/2026

O autor informa não haver conflito de interesse.

OBSERVATIONS REGARDING THE DYNAMICS OF CONFRONTATION IN FOREST AND URBAN ENVIRONMENTS: THE POSSIBILITY OF SHOOT-AND-REACH AND BACK-SHOTS WITHOUT EVIDENCE OF EXECUTION

Claude Jacques Chambriard

https://orcid.org/0000-0003-0124-0930 - http://lattes.cnpq.br/6391220773880758

Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ

Senhor Editor,

Encaminho esta carta com o objetivo de contribuir para a discussão técnico científica sobre a interpretação de achados balísticos em confrontos armados envolvendo forças de segurança pública brasileiras. O tema tem especial relevância diante das operações realizadas contra narcotraficantes — classificados por alguns analistas como narcoterroristas — e também contra milicianos, todos reconhecidos como grupos criminosos que exercem intenso controle territorial e poder bélico em diversas regiões do país. A presença desses agentes, amplamente divulgada em documentos oficiais e relatórios de inteligência, constitui fato notório, dispensando comprovação específica.

Os confrontos armados envolvendo forças policiais e grupos criminosos em áreas urbanas periféricas e em regiões de mata têm se tornado cada vez mais frequentes no cenário brasileiro. Tais embates ocorrem, em regra, contra narcotraficantes, narcoterroristas – como são denominados por parte da literatura e da opinião pública – e milicianos, todos atores reconhecidamente inseridos em dinâmicas violentas que prescindem de comprovação individual, dada a ampla notoriedade do fenômeno. Esses confrontos apresentam características peculiares: grande mobilidade dos alvos, irregularidade do terreno, visibilidade limitada, múltiplos vetores de ameaça e, principalmente, a predominância de tiros de fuzil em distâncias variáveis, muitas vezes inferiores a poucos metros.

O tiroteio a curta distância em um confronto urbano é uma situação tática de alto risco, conhecida como Combate em Ambientes Confinados (CQB – Close Quarters Battle). Nesses cenários, a proximidade com o alvo é mínima, exigindo técnicas especializadas e tomadas de decisão imediatas por parte das forças de segurança.

Para que o leitor possa compreender como ocorrem os confrontos em combates urbanos, disponibilizamos fotografia internet1, treinamento retirada que de da mostra forças especiais e a proximidade do confronto.

No debate público, é comum que tiros pelas costas ou tiros em curta distância gerem suspeitas imediatas de execução. No entanto, a literatura especializada em dinâmica de confronto, balística forense e comportamento humano sob estresse extremo demonstra que tais padrões de ferimento são compatíveis com situações reais de tiroteio, especialmente em operações de progressão tática em floresta ou em áreas urbanas densas. Assim, torna-se relevante esclarecer, com base técnico-científica, como se estruturam essas interações e por que tiros pelas costas podem ocorrer dentro da normalidade operacional de um enfrentamento.

Para que o leitor possa compreender como podem ocorrer tiros desferidos pelas costas nos confrontos em combates urbanos, disponibilizamos fotografia retirada da internet2 que mostra uma possibilidade deste fato vir a ocorrer.

Ainda podemos citar uma situação que pode ocorrer tanto em confrontos na mata, como no interior de comunidades, quando as equipes se deslocam para realizar o cerco aos marginais e, enquanto uma parte do grupo encontra-se em confronto direto, outra parte se desloca para fechar o cerco, aproximando-se por trás.

Neste contexto, não existe a possibilidade de tentativa de rendição, em virtude do fato do confronto estar acontecendo, o que poderia resultar em redirecionamento dos disparos, comprometendo a integridade da equipe que chega.Ainda podemos citar uma situação que pode ocorrer tanto em confrontos na mata, como no interior de comunidades, quando as equipes se deslocam para realizar o cerco aos marginais e, enquanto uma parte do grupo encontra-se em confronto direto, outra parte se desloca para fechar o cerco, aproximando-se por trás. Neste contexto, não existe a possibilidade de tentativa de rendição, em virtude do fato do confronto estar acontecendo, o que poderia resultar em redirecionamento dos disparos, comprometendo a integridade da equipe que chega.

Na gravura disponibilizada abaixo, procuramos demonstrar a realidade do que ocorre quando o cerco se fecha e disparos são desferidos, podendo atingir a região dorsal dos envolvidos, sem que seja uma situação de execução mas, somente, uma decorrência de tiroteio.

Nestas eventualidades, em resposta a injusta agressão, em decorrência dos disparos desferidos pela segunda equipe, pode ocorrer que alguém seja atingido pelas costas, o que, em nenhuma hipótese pode significar que ocorreu algum tipo de execução.

A interpretação dos vestígios deixados em cadáveres e no ambiente do confronto exige análise contextual detalhada, sobretudo quando presentes sinais de curta distância (como tatuagem e esfumaçamento) ou ferimentos por arma de fogo em região posterior do corpo. Tais achados, por vezes precipitada e equivocadamente interpretados como sugestivos de execução, são amplamente compatíveis com confrontos reais, tanto em áreas de mata quanto em zonas urbanas densamente construídas. Esta carta busca demonstrar, com base na literatura de referência e na experiência pericial, que esses padrões balísticos integram a dinâmica legítima de combate e não constituem indício isolado de execução.

1. INTRODUÇÃO

Confrontos armados em ambientes de floresta, selva ou mata fechada apresentam particularidades que afetam sensivelmente a dinâmica dos disparos, a distância entre antagonistas e a interpretação dos vestígios encontrados no cadáver. A topografia irregular, a vegetação densa, a limitação de visibilidade, o abafamento acústico e a necessidade de progressão silenciosa tornam imprevisível o encontro com o oponente, que pode ocorrer a distâncias inferiores a 1 metro. Nessas situações, disparos instintivos, reativos ou em movimento são comuns, favorecendo a formação de tatuagem e outros sinais típicos de curta distância. Em paralelo, as operações urbanas brasileiras — em favelas, conglomerados populacionais, áreas com construções sobrepostas, vielas, becos estreitos e estruturas irregulares — também impõem limitações severas ao campo visual e ao espaço de manobra. A atuação policial nesses locais ocorre, predominantemente, contra grupos armados como narcotraficantes, narcoterroristas e milicianos, cuja presença é reconhecida, notória e amplamente documentada. Tais ambientes favorecem contatos imediatos, emboscadas e confrontos repentinos, nos quais disparos a curta distância e tiros pelas costas são possíveis e plenamente compatíveis com um embate real.

Diante disso, a caracterização de tatuagem, esfumaçamento ou entrada posterior do projétil não pode ser interpretada isoladamente como sinal de execução, devendo ser analisada dentro de sua lógica operacional e tática.

2. CONTEXTO OPERACIONAL DO CONFRONTO

2.1.DINÂMICA OPERACIONAL DOS CONFRONTOS EM FLORESTA E ÁREA URBANA

Ambientes de vegetação fechada e comunidades urbanizadas desordenadamente compartilham fatores críticos: corredores estreitos, cobertura irregular, blocos de sombra, visibilidade segmentada e linhas de progressão que, por vezes, obrigam as equipes policiais a avançar em direção a disparos cuja origem não é imediatamente identificada.

Os grupos criminosos nessas regiões costumam operar em formações dispersas, realizando movimentos rápidos de avanço, recuo e flanqueamento, utilizando o relevo e obstáculos como abrigo. O comportamento típico observado em vídeos, inquéritos policiais e relatos operacionais descreve criminosos correndo entre estruturas, valas, becos ou troncos, alternando posições de tiro.

Nesse contexto, a incidência de disparos em ângulos não frontais – laterais ou posteriores – deixa de ser exceção e passa a ser uma característica comum do teatro de operações.

2.2. AMBIENTE DE FLORESTA

Confrontos em áreas de mata fechada envolvem características operacionais que potencializam contatos próximos:

• linhas de visada extremamente curtas;

• vegetação densa que impede a identificação do oponente até os últimos instantes;

• abafamento de ruídos, dificultando a percepção de aproximação;

• progressão policial em formações compactas e silenciosas;

• alta probabilidade de encontros repentinos em distância inferior a 3 metros.

Estudos conduzidos em operações de selva e em manuais militares (COT/DPF, Força Nacional, FM 90-5 – Jungle Operations) demonstram que o primeiro disparo, em tais ambientes, frequentemente ocorre entre 0,5 e 3 metros.

2.3. DINÂMICA DAS FORÇAS EM CONFRONTO

No cenário considerado, o embate se dá entre:

• Forças policiais, utilizando uniformes escuros, em progressão tática, discreta e coordenada;

• Infratores armados — narcotraficantes, narcoterroristas ou milicianos — que empregam roupas camufladas, conhecimento prévio do terreno e técnicas de emboscada. A combinação de baixa visibilidade, movimentação constante e distâncias encurtadas aumenta exponencialmente a chance de disparos reativos, instintivos e de curta distância.

3. TIROS A CURTA DISTÂNCIA E PELAS COSTAS: COMPORTAMENTO NATURAL EM CONFRONTOS REAIS

Duas situações, amplamente reconhecidas na literatura de combate e na pericia criminal, merecem destaque:

a) Progressão policial contra alvo parcialmente oculto

O policial avança enquanto recebe disparos. O infrator, posicionado atrás de obstáculos, pode expor apenas parte de seu corpo. Ao deslocar-se para nova cobertura, pode ser atingido em ângulos posteriores, mesmo sem estar de costas no início do disparo. A mudança súbita de direção gera perfis balísticos variados.

b) O infrator corre e dispara para trás

Essa é uma das configurações mais clássicas e documentadas na investigação de confrontos. O infrator, ao perceber o avanço policial, corre em fuga e, simultaneamente, dispara sua arma para trás, mirando sem precisão. Essa manobra, conhecida em literatura militar como backward shooting during retreat, provoca:

• modo de tiro instável,

• giro do tronco,

• exposição das costas em diferentes ângulos,

• redução drástica do controle de trajetória.

Ao correr e atirar para trás, o infrator frequentemente se desequilibra, muda abruptamente sua orientação corporal e apresenta as costas como superfície predominante. Nesse padrão, tiros pelas costas são amplamente compatíveis com o dinamismo do combate.

A perícia, nesses casos, pode encontrar ferimentos posteriores sem qualquer estigma de execução:

• posição fisiológica de fuga,

• dispersão caótica de projéteis,

• ausência de padrão de tiro encostado,

• coerência com relatos de testemunhas e filmagens.

Esses elementos compõem um quadro típico de confronto, e não de execução.

3.1. CARACTERÍSTICAS PERICIAIS

De acordo com a literatura clássica de Medicina Legal, disparos a curta distância podem produzir:

• zona de tatuagem (impregnação dérmica por pólvora parcialmente queimada);

• esfumaçamento;

• chamuscamento;

• halo de enxugo e bordas regulares de entrada.

Esses achados são amplamente descritos por Genival Veloso de França, Di Maio, Franchini e Ribeiro.

3.2. OCORRÊNCIA OPERACIONAL NATURAL

Em confrontos reais, especialmente em mata ou em ambientes urbanos restritos:

• policiais e infratores podem reduzir involuntariamente a distância entre si;

• o agressor pode surgir repentinamente a menos de 2 metros;

• tiros são frequentemente disparados em movimento;

• armas podem estar parcialmente apoiadas, inclinadas ou instáveis.

A literatura internacional destaca que contatos imediatos (“close-quarter gunfights”) produzem tatuagem mesmo em situações de confronto legítimo, sem qualquer indício de execução.

4. EXEMPLOS DA LITERATURA E CASOS REAIS

4.1. LITERATURA INTERNACIONAL

Di Maio relata que tiroteios em ambientes confinados frequentemente resultam em tatuagem, mesmo em operações lícitas. Estudos do FBI demonstram que cerca de metade dos confrontos policiais ocorre abaixo de 2 metros.

4.2. LITERATURA E ESTUDOS NACIONAIS

Pesquisas brasileiras em áreas de selva identificam “bolsões de contato imediato”, com disparos a menos de 1 metro. Relatórios da SENASP sobre a Amazônia Legal também documentam tais ocorrências em confrontos verdadeiros, envolvendo grupos criminosos fortemente armados.

4.3. EXPERIÊNCIA PERICIAL

Análises realizadas por diferentes institutos médico-legais mostram que disparos oblíquos, em ângulo ascendente, lateral ou realizados durante corrida podem produzir padrões atípicos de dispersão de pólvora, simulando curta distância mesmo sem o atirador estar próximo do alvo.

5. AVALIAÇÃO PERICIAL: AUSÊNCIA DE INDÍCIOS DE EXECUÇÃO APESAR DA LOCALIZAÇÃO DOS FERIMENTOS

Para afastar a hipótese de execução, o perito deve avaliar, de forma integrada:

A caracterização de execução exige sinais objetivos:

• tiro encostado ou à curta distância com padrão altamente específico,

• ausência de dinâmica de confronto,

• posicionamento estático da vítima,

• padrão de repetição de disparos em regiões vitais a curta distância.

• contexto operacional e tático do confronto;

• compatibilidade das trajetórias dos projéteis com movimento;

• ausência de sinais de contenção física;

• ausência de evidências de disparo encostado;

• relação entre posição do cadáver, vegetação e dispersão de cápsulas;

• convergência de relatos, vestígios e reconstrução da cena. Somente o conjunto de fatores permite conclusões tecnicamente fundamentadas.

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A perícia criminal tem papel crucial para evitar interpretações equivocadas e análises precipitadas baseadas apenas no senso comum. Os cenários de mata e de urbanização precária produzem confrontos altamente dinâmicos, nos quais tiros laterais ou posteriores, inclusive a curta distância, ocorrem como consequência direta da própria movimentação dos envolvidos.

O objetivo deste relato é contribuir para a compreensão pública e técnica da dinâmica de combate, reforçando que tiros pelas costas, quando inseridos em contexto tático real e em situações como fuga com disparos para trás, não constituem isoladamente indício de execução, mas podem ser perfeitamente compatíveis com confrontos armados efetivos.

7. CONCLUSÃO

Em confrontos envolvendo forças de segurança e narcotraficantes, narcoterroristas ou milicianos, tanto em ambientes de floresta quanto em zonas urbanas, é plenamente possível a ocorrência de tiros a curta distância e tiros pelas costas, sem qualquer implicação automática de execução. A dinâmica do combate, a topografia, a baixa visibilidade e o movimento constante dos antagonistas tornam tais achados esperados e compatíveis com um enfrentamento real. A análise pericial deve, portanto, ser ampla, contextual e fundamentada, evitando conclusões precipitadas baseadas em um único elemento balístico. A literatura especializada e a experiência acumulada reforçam que tatuagem, esfumaçamento e entrada posterior do projétil são condições frequentemente presentes em confrontos legítimos.

Referências bibliográficas

1. Di Maio, V. J. M. Gunshot Wounds: Practical Aspects of Firearms,
Ballistics, and Forensic Techniques. 3ª ed. CRC Press, 2016.
2. Franchini, B. Traumatologia Médico-Legal. São Paulo: Saraiva, 2014.
3. França, G. V. Medicina Legal. 12ª ed. Rio de Janeiro: Forense, 2022.
4. Ribeiro, D. Balística Forense Aplicada. Rio de Janeiro: Forense, 2018.
5. Nação, S. et al. “Confrontos em Área de Selva: Estudo Balístico e
Operacional.” Revista Brasileira de Ciências Policiais, v. 8, n. 2,
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6. FBI Academy – Firearms Training Unit. Close Range Gunfights:
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7. US Army. Field Manual FM 90-5: Jungle Operations. Department of
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8. SENASP – Ministério da Justiça. Relatórios de Operações na
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Dense Terrain. Journal of Tactical Science, 2020.
11. UNODC. Small Arms Survey e relatórios de violência armada na
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12. Ministério da Justiça. Mapa da Violência Armada e Territórios
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Brasil. Dossiê de Segurança Pública, 2020.
14. Braga, A. A.; Cook, P. Policing Gun Violence in High-Risk Urban
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