Artigo Original

Perfil Epidemiológico Populacional nos Homicídios por Armas de Fogo no Brasil e no Estado de São Paulo

Como citar: Martins F, Gianvecchio VAP. Perfil Epidemiológico Populacional nos Homicídios por Armas de Fogo no Brasil e no Estado de São Paulo. Persp Med Legal Pericia Med. Vol. 11, 2026; 260427.

https://dx.doi.org/10.47005/260427

Recebido em 13/02/2026
Aceito em 11/03/2026

O autor informa não haver conflito de interesse.

POPULATION EPIDEMIOLOGICAL PROFILE IN FIREARM HOMICIDES IN BRAZIL AND SÃO PAULO STATE

Felipe Martins

Curadoria de dados, Análise de dados, Pesquisa, Metodologia, Redação do manuscrito original

https://orcid.org/0009-0002-5965-5258 - https://lattes.cnpq.br/2043622446714489

FACULDADE DE CIÊNCIAS MÉDICAS DA SANTA CASA SÃO PAULO - FCMSCSP, São Paulo, SP

Victor Alexandre Percinio Gianvecchio

Supervisão/ Orientação, Redação - revisão e edição

https://orcid.org/0000-0002-7549-1815 - http://lattes.cnpq.br/3884908558329312

FACULDADE DE CIÊNCIAS MÉDICAS DA SANTA CASA SÃO PAULO - FCMSCSP, São Paulo, SP

Resumo

INTRODUÇÃO: A mortalidade por causas externas é um dos principais fatores que contribuem para a mortalidade mundial, especialmente em países subdesenvolvidos. No Brasil, fica atrás apenas de neoplasias e doenças dos aparelhos circulatório e respiratório, sendo as agressões predominantes e as armas de fogo o principal instrumento. A partir de 2019, o afrouxamento das legislações desarmamentistas e disputas entre facções impulsionaram novamente essa mortalidade. OBJETIVOS: Analisar o perfil epidemiológico populacional dos homicídios por armas de fogo no Brasil e no Estado de São Paulo. MATERIAIS E MÉTODO: Revisão de literatura com levantamento de dados de fontes públicas, incluindo Atlas da Violência 2024/2025, Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, 18º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, DATASUS e Instituto Sou da Paz, analisando-se homicídios totais por faixa etária, sexo e raça. RESULTADOS: Em 2022, o Brasil registrou 46.409 homicídios dolosos, 72,4% cometidos com armas de fogo, responsáveis pela perda de 15.220.914 anos potenciais de vida entre 2012 e 2022. São Paulo possui a menor taxa de homicídios do país, porém mantém o padrão nacional: as principais vítimas são homens jovens, negros e policiais negros. DISCUSSÃO: O afrouxamento das políticas de desarmamento correlacionou-se com aumento de homicídios; estima-se que a cada 1% de aumento de armas na população, a taxa de homicídios sobe 1,1%. Mulheres também são vitimadas, com 64,3% dos assassinatos ocorrendo em residências. CONCLUSÃO: Armas de fogo permanecem grave problema de saúde pública, atingindo desproporcionalmente homens jovens, mulheres e negros, sendo necessárias políticas de controle e fiscalização mais eficientes.

Palavras Chave: Armas de Fogo, Mortalidade, Homicídio, Epidemiologia.

Abstract

INTRODUCTION: External cause mortality is one of the main factors contributing to global mortality, especially in developing countries. In Brazil, it ranks behind only neoplasms and circulatory and respiratory diseases, with assaults being predominant and firearms the main instrument. From 2019 onward, the loosening of gun control legislation and disputes among criminal factions drove this mortality upward again. OBJECTIVES: To analyze the population-based epidemiological profile of firearm homicides in Brazil and the State of São Paulo. MATERIALS AND METHOD: Literature review with data collection from public sources, including the Atlas of Violence 2024/2025, São Paulo State Public Security Secretariat, 18th Brazilian Yearbook of Public Security, DATASUS, and Instituto Sou da Paz, analyzing total homicides by age group, sex, and race. RESULTS: In 2022, Brazil recorded 46,409 intentional homicides, 72.4% committed with firearms, accounting for the loss of 15,220,914 potential years of life between 2012 and 2022. São Paulo has the lowest homicide rate in the country, yet maintains the national pattern: the main victims are young men, Black individuals, and Black police officers. DISCUSSION: The loosening of disarmament policies correlated with an increase in homicides; it is estimated that for every 1% increase in firearms among the population, the homicide rate rises by 1.1%. Women are also victimized, with 64.3% of murders occurring in their residences. CONCLUSION: Firearms remain a serious public health problem, disproportionately affecting young men, women, and Black individuals, requiring more efficient control and enforcement policies.

Keywords (MeSH): Firearms, Mortality, Homicide, Epidemiology.

1. INTRODUÇÃO

De acordo com o relatório mundial sobre violência da OMS de 2002, cerca de 1,6 milhão de pessoas morreram no mundo decorrentes de causas externas, seja por violência autoinfligida, interpessoal ou coletiva. Nos países subdesenvolvidos, registrou-se uma média de 32,1 mortes violentas para cada 100 mil habitantes, o dobro do que em países desenvolvidos (1).

No Brasil, a mortalidade por causas externas fica atrás apenas das neoplasias, doenças do aparelho circulatório e respiratório. Em 2000, a violência interpessoal era a quarta causa mais frequente de morte e, em função da política de desarmamento da população, foi para a sexta causa em 2016 (2). Dentre todos os óbitos decorrentes de causas externas, o intervalo de CID X85-Y09 (agressões) prevalece e o principal instrumento utilizado são armas de fogo (3,4,5,6).

De acordo com o Ministério da Justiça, armas de fogo são, principalmente, pistolas e revolveres, que são armas de pequeno porte facilmente manuseadas com apenas uma mão. Realizam disparos a cerca de 600 metros por segundos e seus projéteis tendem a causar lesões mais localizadas, porém não menos letais que as provocadas por armas de alta energia (7).

A mortalidade por armas de fogo voltou a subir, provavelmente impulsionada pelo aumento de disputas entre facções e pelo afrouxamento das legislações desarmamentistas a partir de 2019, tanto no Brasil, quanto no Estado de São Paulo (3,4). Durante os últimos anos (2019-2022) estima-se que houve aumento de 6.379 vidas perdidas no Brasil devido ao aumento de circulação de armas de fogo (3,4).

2. OBJETIVOS

Analisar e conhecer a realidade do perfil epidemiológico populacional dos homicídios por armas de fogo no Brasil e no Estado de São Paulo.

3. MATERIAIS E MÉTODO

Levantamento de dados a partir de fontes de dados públicas de grande relevância como o Atlas da Violência 2024/2025, analisando-se o perfil epidemiológico dos homicídios por armas de fogo no Brasil e em São Paulo, utilizando-se os valores de homicídios totais, homicídios na população jovem 15-29 anos, homicídios na população do sexo masculino jovens 15-29 anos, homicídios na população do sexo feminino e homicídios na população negra; secretaria de segurança pública do Estado de São Paulo (acessada através do site: https://www.ssp.sp.gov.br/estatistica/dados-mensais), visto o relatório mensal sobre homicídios dolosos, apreensões e portes ilegais de arma de fogo no ano de 2024 ; 18º Anuário Brasileiro de Segurança Pública e Ministérios da Justiça e da Saúde e Informe sobre armas de fogo e homicídios no Brasil, ambos pertencentes ao fórum brasileiro de segurança pública, obtendo-se o perfil dos policiais mortos no ano de 2023, perfil populacional e das armas regulamentadas em circulação no país e os impactos das políticas armamentistas ; Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde – DATASUS  (acessado em: : http://tabnet.datasus.gov.br/cgi/deftohtm.exe?sim/cnv/ext10uf.def), buscando-se os óbitos ocasionados por causas externas e seu CID-10; Apostila “Identificação de armas de fogo e munições – IDAM” (acessado em: https://www.mpba.mp.br/sites/default/files/biblioteca/criminal/manuais/senasp_-_ead_-_curso_de_identificacao_de_armas_e_municoes_-_apostila_completa.pdf) para a definição das armas de fogo mais comuns em circulação no território brasileiro; Instituto Sou da Paz (acessado em: https://lp.soudapaz.org/custos-violencia-armada), relatório sobre o custo da violência armada aos cofres públicos.

 4. RESULTADOS

De acordo com o atlas da violência de 2024, em 2022 o Brasil registrou 46.409 homicídios dolosos (52.391 estimados), dos quais 72,4% foram cometidos com armas de fogo.  Ao analisar os Anos Potenciais de Vida Perdidos (APVP) entre 2012 e 2022, as armas de fogo foram responsáveis pela perda de 15.220.914 anos potenciais de vida, praticamente o dobro dos acidentes (7.590.042 anos), o que se deve ao fato de as principais vítimas desse tipo de violência serem homens, negros e jovens (3,8).

Analisando os óbitos por causas externas no país, as armas de fogo são, de longe, as principais causadoras, seguidas, a distância, por armas brancas (3,4,5,6).

O atlas da violência de 2025 mostra que São Paulo possui a menor taxa de homicídios do país e a menor proporção de crimes cometidos com esse tipo de arma. Ainda assim, de acordo com a Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo, em 2024 foram registrados 2517 homicídios dolosos, 14.220 apreensões de armas de fogo e 5407 ocorrências de porte ilegal de arma (3,9).

Outro ponto a se destacar é que, entre os anos de 2019 e 2020, houve aumento dos homicídios, possivelmente impulsionado pelo fortalecimento de políticas armamentistas em vigor no período, o que também pode ter desacelerado a queda desses índices entre 2020 e 2023. Mesmo São Paulo sendo o Estado com menor número de homicídios e proporção de crimes cometidos envolvendo armas de fogo, manteve o padrão brasileiro, registrando aumento dos óbitos nesse intervalo (3,4).

As vítimas no Estado também refletem o panorama geral do país: homens jovens e negros são os principais atingidos (3,10).

Outro fator relevante a esse tipo de arma de fogo é a sua maior utilização pela população civil e o uso frequente em crimes urbanos, seja por sua portabilidade ou maior disponibilidade, o que facilita o acesso a esse instrumento em comparação a fuzis e rifles (4,6).

 

Analisando o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2024 também podemos identificar que as mulheres, embora sejam menos vitimadas que os homens em números absolutos, também são assassinadas em grande parte através de armas de fogo (6).

Vale ressaltar que o feminicídio, “um crime de ódio ao gênero (…), está configurado quando uma mulher é morta em contexto de violência doméstica e/ou por menosprezo ou discriminação à condição de mulher”, é registrado diferente no boletim policial e entra como uma tipificação do homicídio, sendo realizado, majoritariamente, com armas brancas (6).

Analisando os óbitos, percebe-se que os civis não são os únicos afetados por esta estatística: os próprios policiais também sofrem com esse cenário. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2024 evidenciou que 69,7% dos policiais mortos eram negros, 51,5% possuíam entre 35 e 49 anos e 96% eram do sexo masculino (6).

5. DISCUSSÃO

Os problemas relacionados às mortes por causas externas não são exclusivos do Brasil; porém, sua prevalência em países em desenvolvimento sugere relação entre as diferenças socioeconômicas, maiores nestes países, e a mortalidade por armas de fogo (1). Ainda que o Brasil tenha obtido êxito em reduzir o número de mortes decorrentes de disparos por armas de fogo entre 2000 e 2016 (2) devido à política de desarmamento, o afrouxamento dessa política a partir de 2019 e o aumento dos conflitos entre ou com facções criminosas fizeram com que esse número voltasse a aumentar no país, conforme evidenciado no gráfico 2 (3,4). De acordo com dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública em 2022, a cada 1% de aumento de armas entre a população, aumenta-se 1,1% a taxa de homicídios e 1,2% a taxa de latrocínios (4).

Os gráficos 4 e 5 demonstram que as principais vítimas desse tipo de instrumento, tanto na federação quanto no Estado de São Paulo, são negros e homens jovens (3,8), o que impacta diretamente na população ativa e produtiva do país. Conforme evidenciado no gráfico 9, a categoria policial também é vitimada, seguindo as porcentagens observadas na população civil (6). Outro ponto alarmante é de que o suicídio nessa categoria aumentou cerca de 26,2%, ao se observar o mesmo ano em comparação a 2023, ultrapassando o número de policiais mortos em combate; esse dado sugere o nível de estresse e de responsabilidade que recai sobre esses profissionais, que precisam lidar diariamente com a ansiedade de possivelmente se envolverem em combate armado, levando-os ao adoecimento físico e mental (6).

Outro ponto importante a ser analisado no Brasil são os homicídios de mulheres envolvendo armas de fogo. Conforme evidenciado no gráfico 7, essa parcela da população também é majoritariamente atingida por esse instrumento e, de acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2024, cerca de 64,3% das mulheres foram mortas em suas residências e 63% assassinadas por parceiro íntimo. Esses dados permitem extrapolar o impacto das armas de fogo, que são pequenas, de fácil manejo, fáceis de serem armazenadas em casa e estão amplamente em posse da população masculina, como mostrado no gráfico 6 (6).

Já em relação aos feminicídios registrados, o gráfico 8 evidencia que esses homicídios ocorrem majoritariamente por meio de armas brancas, o que pode indicar motivações passionais, de possessividade e diferença de poder de gênero na sociedade (6). Essa diferença nos instrumentos utilizados contra a população feminina ressalta a complexidade e as diferentes camadas de vulnerabilidade enfrentadas por essa parcela da sociedade.

Visto que as armas de fogo não causam apenas mortes, mas também podem provocar lesões e sequelas, outro ponto importante a ser ressaltado, visando pesquisas futuras e mais debates sobre o tema, é o valor de tais morbidades aos cofres públicos. O Instituto Sou da Paz conduziu uma pesquisa em 2023, que mostrou que o SUS gastou aproximadamente 41 milhões de reais decorrentes de internações causadas pela violência armada no ano anterior à pesquisa (11).

6. CONCLUSÃO

Toda a literatura pesquisada evidencia a importância e a gravidade ainda persistentes decorrentes de armas de fogo para a saúde pública e a epidemiologia brasileiras, visto que são instrumentos que contribuem de maneira importante para a mortalidade da população geral, mas de maneira ainda mais significativa em grupos específicos, principalmente homens jovens entre 15-29 anos, mulheres e pessoas negras. Ainda que o Estado de São Paulo apresente as menores taxas de mortalidade por armas de fogo do país, segue o padrão brasileiro e é fortemente impactado por esses instrumentos. Assim, fica evidente a importância de medidas públicas para melhor controle e fiscalização desse tipo de armamento, para se reduzir ainda mais a mortalidade da população, tanto no Brasil, quanto no Estado de São Paulo.

Referências bibliográficas

1. Organização Mundial da Saúde; Krug EG. Relatório mundial sobre violência e saúde. Genebra: Organização Mundial da Saúde; 2002.

2. Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Vigilância em Saúde. Departamento de Análise Epidemiológica e Vigilância de Doenças Não Transmissíveis. Painéis Saúde Brasil: Mortalidade geral – causas de óbito – Saúde Brasil – painéis de monitoramento – centrais de conteúdos – DAENT – SVS/MS [Internet]. Brasília: Ministério da Saúde; [citado 2026 jan 24]. Disponível em: https://svs.aids.gov.br/daent/centrais-de-conteudos/paineis-de-monitoramento/saude-brasil/mortalidade-geral/.

3. Cerqueira D, et al., organizadores. Atlas da violência 2025 [Internet]. Brasília: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada; Fórum Brasileiro de Segurança Pública; 2025 [citado 2025 jun 7]. Disponível em: https://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/arquivos/artigos/5999-atlasdaviolencia2025.pdf.

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5. Brasil. Ministério da Saúde. Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS). Informações de saúde: óbitos por causas externas [Internet]. Disponível em: http://tabnet.datasus.gov.br/cgi/deftohtm.exe?sim/cnv/ext10uf.def. Acesso em: 2025 ago 15.

6. Fórum Brasileiro de Segurança Pública. 18º Anuário Brasileiro de Segurança Pública [Internet]. São Paulo: Fórum Brasileiro de Segurança Pública; 2024 [citado 2025 jun 22]. Disponível em: https://www.sas.sc.gov.br/images/Anu%C3%A1rio%20Brasileiro%20de%20Seguran%C3%A7a%20P%C3%BAblica%202024-compactado.pdf.

7. Ministério da Justiça e Segurança Pública. Secretaria Nacional de Segurança Pública. Identificação de armas de fogo e munições (IDAM) – apostila completa [Internet]. Brasília; 2018 [citado 2025 jun 22]. Disponível em: https://www.mpba.mp.br/sites/default/files/biblioteca/criminal/manuais/senasp_-_ead_-_curso_de_identificacao_de_armas_e_municoes_-_apostila_completa.pdf.

8. Cerqueira D, et al., organizadores. Atlas da violência 2024 [Internet]. Brasília: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada; Fórum Brasileiro de Segurança Pública; 2024 [citado 2025 jun 7]. Disponível em: https://www.ipea.gov.br/atlasviolencia/arquivos/artigos/4600-atlasviolencia2024.pdf.

9. São Paulo (Estado). Secretaria da Segurança Pública. Dados mensais de estatísticas criminais [Internet]. Disponível em: https://www.ssp.sp.gov.br/estatistica/dados-mensais. Acesso em: 2025 jun 7.

10. Peres MFT, et al. Queda dos homicídios em São Paulo, Brasil: uma análise descritiva. Rev Panam Salud Publica. 2011;29(1):17-26. Disponível em: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3325790/. Acesso em: 2025 jun 7. doi:10.1590/S1020-49892011000100003.

11. Instituto Sou da Paz. Custos da violência armada: gastos da saúde pública com atendimento de vítimas de arma de fogo. 2ª ed. São Paulo; 2023 [citado 2025 jun 22]. Disponível em: https://lp.soudapaz.org/custos-violencia-armada.