Artigo Original
Uma abordagem centrada no usuário para desenvolver uma plataforma de discussão de casos em patologia forense
Como citar: Camacho FGF, Rodriguez AAT, Ferreira AF. Uma abordagem centrada no usuário para desenvolver uma plataforma de discussão de casos em patologia forense. Persp Med Legal Pericia Med. Vol. 11, 2026; 260415.
https://dx.doi.org/10.47005/260415
Recebido em 17/01/2026
Aceito em 14/02/2026
O autor informa não haver conflito de interesse.
A USER-CENTERED APPROACH TO DEVELOPING A CASE DISCUSSION PLATFORM IN FORENSIC PATHOLOGY.
Resumo
O avanço da patologia forense oncológica tem aumentado a complexidade diagnóstica e a demanda por ferramentas seguras de colaboração entre especialistas. Este estudo teve como objetivo desenvolver a proposta conceitual de uma plataforma digital denominada PathoConnect Forense, voltada à discussão anônima de casos, educação continuada e integração entre patologistas e oncologistas. O projeto seguiu a abordagem de Design Centrado no Usuário, aliada a princípios de Desenvolvimento Ágil, e foi estruturado em três etapas: revisão de literatura para identificar lacunas em soluções existentes, painel de especialistas para levantamento de requisitos funcionais e não-funcionais, e elaboração de protótipos de baixa fidelidade representando a arquitetura e o fluxo de navegação do sistema. Como resultados, foram definidos os módulos principais da plataforma — autenticação validada, discussão de casos com anonimização obrigatória, grupos temáticos e biblioteca colaborativa — e identificados dois pilares essenciais: anonimização de dados e governança científica. A análise demonstrou que a metodologia adotada foi eficaz para alinhar as soluções tecnológicas às necessidades clínicas, garantindo segurança e usabilidade desde a concepção. Embora ainda não tenham sido realizados testes com usuários reais, o protótipo produzido constitui uma base sólida para o desenvolvimento de um produto mínimo viável, capaz de promover a colaboração estruturada, o aprendizado contínuo e o compartilhamento ético de informações. Conclui-se que o PathoConnect Forense representa uma iniciativa inovadora e promissora para modernizar a prática e a comunicação na patologia forense.
Palavras Chave: Patologia forense, Design centrado no usuário, Telemedicina, Colaboração científica, Prototipagem, Inovação tecnológica.
Abstract
The advancement of forensic oncology pathology has increased diagnostic complexity and the demand for secure collaboration tools among specialists. This study aimed to develop the conceptual proposal for a digital platform called PathoConnect Forense, focused on anonymous case discussion, continuing education, and integration between pathologists and oncologists. The project followed a User-Centered Design approach, combined with Agile Development principles, and was structured in three stages: a literature review to identify gaps in existing solutions, a panel of experts to gather functional and non-functional requirements, and the creation of low-fidelity prototypes representing the system's architecture and navigation flow. As a result, the platform's main modules were defined—validated authentication, case discussion with mandatory anonymization, thematic groups, and a collaborative library—and two essential pillars were identified: data anonymization and scientific governance. The analysis demonstrated that the adopted methodology was effective in aligning technological solutions with clinical needs, ensuring security and usability from the conception stage. Although no tests have yet been conducted with real users, the prototype produced constitutes a solid foundation for the development of a minimum viable product, capable of promoting structured collaboration, continuous learning, and the ethical sharing of information. It is concluded that PathoConnect Forense represents an innovative and promising initiative to modernize the practice and communication in forensic pathology.
Keywords (MeSH): Forensic pathology, User-centered design, Telemedicine, Scientific collaboration, Prototyping, Technological innovation.
1. INTRODUÇÃO
O avanço contínuo da patologia forense oncológica tem imposto novos desafios relacionados à precisão diagnóstica, à integração de dados e à necessidade de colaboração entre especialistas. Tradicionalmente, a prática diagnóstica baseava-se sobretudo na morfologia celular e tecidual observada em microscopia óptica convencional. Entretanto, a incorporação progressiva de técnicas complementares, como a imuno-histoquímica (IHC) e as análises genômicas, tornou o processo muito mais complexo e multidimensional (1,2). Essa nova realidade exige não apenas maior capacitação dos patologistas, mas também a criação de canais eficientes e seguros para o compartilhamento de informações clínicas e de imagens digitais (3,4).
Estudos recentes têm demonstrado o potencial das plataformas digitais e da telepatologia na ampliação do acesso à segunda opinião diagnóstica e na redução de erros (5,6). Contudo, os meios de comunicação atualmente utilizados por patologistas e oncologistas — como e-mails pessoais e aplicativos de mensagens instantâneas — são insuficientes, pois carecem de padronização, não seguem protocolos de segurança consistentes e frequentemente não garantem a anonimização dos dados dos pacientes (7). Essa limitação compromete a confidencialidade e restringe a criação de ambientes colaborativos estruturados e auditáveis (8). Nesse contexto, torna-se fundamental o desenvolvimento de soluções tecnológicas centradas no usuário que integrem boas práticas de usabilidade, ética digital e governança científica, promovendo colaboração e aprendizado contínuo entre profissionais da patologia forense.
O PathoConnect Forense foi idealizado como uma rede social profissional destinada a patologistas e oncologistas. O artigo descreve, principalmente, a proposta conceitual, o processo de design e a prototipagem em baixa fidelidade de um sistema que permita a discussão anônima de casos clínicos, a formação de grupos especializados e a criação de uma biblioteca colaborativa de recursos. Trata-se de um estudo centrado no design e no planejamento tecnológico, não envolvendo ainda a coleta de dados de usuários reais nem testes clínicos, o que caracteriza esta fase como preparatória.
2. METODOLOGIA E DESENVOLVIMENTO
O projeto seguiu a abordagem do Design Centrado no Usuário (UCD) combinada com princípios de Desenvolvimento Ágil. Essa metodologia buscou mapear, desde o início, as reais necessidades dos profissionais de saúde que utilizariam a plataforma.
Três etapas principais nortearam o trabalho:
- Revisão de Literatura – Foi conduzida uma revisão não sistemática para mapear lacunas em soluções de colaboração já existentes e reunir boas práticas no desenho de sistemas digitais aplicados à saúde.
- Painel de Especialistas Internos – Três patologistas e um especialista em segurança da informação participaram de sessões de brainstorming. A partir dessas reuniões, foram levantadas necessidades clínicas, fluxos de trabalho ideais e identificados requisitos funcionais (como as ferramentas de anotação em imagens) e não-funcionais (como a anonimização obrigatória e a moderação científica).
Design e Prototipagem – Com base nesses requisitos, foram elaborados os wireframes (protótipos de baixa fidelidade) que ilustram as principais telas da plataforma. Foi definido, ainda, o diagrama da arquitetura de sistema e do banco de dados, destacando módulos separados para maximizar a segurança e a proteção de dados.
2.1. ESTRUTURA CONCEITUAL DA PLATAFORMA
O PathoConnect Forense foi concebido como um ambiente profissional fechado, com acesso restrito a médicos e profissionais de saúde previamente verificados. Seus principais módulos são:
- Módulo de Autenticação e Perfis: Cadastro validado por titulação, garantindo a legitimidade dos participantes.
- Módulo de Discussão de Casos: Upload de imagens médicas (como lâminas digitais e exames radiológicos) com ferramentas integradas de anotação. Antes do envio, há obrigatoriedade de remover metadados identificáveis, assegurando a anonimização dos pacientes.
- Módulo de Grupos Especializados: Comunidades temáticas para subáreas da patologia oncológica, como tumores gastrointestinais ou patologia mamária, permitindo interações segmentadas.
- Biblioteca Colaborativa: Um repositório de materiais educacionais, protocolos e atlas de casos, com curadoria feita por moderadores científicos.
O protótipo visual produzido no Figma permitiu visualizar todo o fluxo de navegação e a experiência planejada para o usuário.
2.2. RESULTADOS DA ANÁLISE DE REQUISITOS
Dois pontos emergiram como pilares fundamentais para a viabilidade da plataforma:
- Anonimização de Dados – A remoção segura de informações pessoais dos pacientes foi reconhecida como requisito crítico, sendo necessário implementar mecanismos automatizados e validados que impeçam falhas humanas ou vazamentos.
- Governança e Moderação Científica – A existência de um conselho científico e de moderadores é indispensável para garantir a qualidade do conteúdo compartilhado, evitando informações incorretas, más interpretações ou uso inadequado dos dados.
Esses pilares não apenas sustentam a proposta, como também se alinham diretamente às exigências éticas futuras de qualquer comitê de pesquisa ou instância regulatória.
3. DISCUSSÃO
O desenvolvimento do PathoConnect Forense demonstra que é possível estruturar uma solução tecnológica alinhada às necessidades clínicas, viável do ponto de vista técnico e baseada em metodologias consolidadas de design. A utilização do UCD mostrou-se eficaz para garantir que o sistema fosse desenhado a partir da perspectiva do usuário, e não apenas de premissas técnicas.
Os wireframes desempenham papel central nesta fase: permitem visualizar a solução, antecipar problemas de usabilidade, validar fluxos de interação e ajustar funcionalidades antes de investir no desenvolvimento de um código final. Em paralelo, ajudam na comunicação da proposta para financiadores, parceiros tecnológicos e potenciais usuários.
Apesar dos avanços, a pesquisa reconhece suas limitações: não houve, ainda, validação junto a uma comunidade ampla de patologistas forenses, tampouco testes práticos de usabilidade. Essas etapas constituem o próximo passo e dependerão de protocolos de pesquisa submetidos e aprovados por comitês de ética.
4. CONCLUSÃO
O estudo conclui que o PathoConnect Forense apresenta uma proposta robusta, inovadora e alinhada às necessidades emergentes da patologia oncológica contemporânea. O projeto alcançou seus objetivos ao elaborar um design conceitual detalhado, um protótipo visual abrangente e a documentação de requisitos funcionais e não-funcionais.
Essa fase inicial oferece uma base sólida para o desenvolvimento de um produto mínimo viável (MVP), que poderá ser testado em ambientes controlados e, posteriormente, expandido para uso real. Além disso, os resultados apresentados são estratégicos para a captação de recursos, a busca por parcerias e a formalização de protocolos de pesquisa.
O PathoConnect Forense posiciona-se, portanto, como uma ferramenta promissora para modernizar a prática da patologia oncológica, favorecendo a colaboração estruturada, o aprendizado contínuo e o compartilhamento seguro de informações. Ao responder a lacunas práticas e éticas no processo de comunicação profissional, o projeto abre caminho para que futuras versões da plataforma tenham impacto real tanto na prática clínica quanto na educação médica continuada.
AGRADECIMENTOS
Agradecemos a Sociedade Brasileira de Epidemiologia e a Universidad Central del Paraguay pelo apoio institucional e pelas condições oferecidas para a realização deste trabalho.
Referências bibliográficas
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