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REVISÃO BIBLIOGRÁFICA DE SUICÍDIO ATÍPICO POR DISPARO DE ARMA DE FOGO


Renato Marques Chanquin (1)i

André Teixeira de Siqueira e Silva (1)

Victor Alexandre Percínio Gianvecchio (2)

(1) Médico pós-graduando do curso de Especialização em Medicina Legal e Perícia) Médica pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo

(2) Professor de Medicina Legal e Perícia Médica da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo

INTRODUÇÃO: A determinação de um suicídio envolvendo múltiplos disparos de arma de fogo representa um desafio significativo para os profissionais da área forense. O suicídio atípico envolvendo mais de um disparo por arma de fogo, por ser incomum, pode facilmente ser induzido a ser interpretado como um homicídio, devendo ser analisado com atenção em vários detalhes. A conclusão para excluir a possibilidade de homicídio, pode ser extremamente desafiadora para o profissional forense e deve se basear em fatos sólidos, muitas vezes envolvendo áreas multidisciplinares.

OBJETIVOS: Examinar os desafios enfrentados na análise de casos suicídio envolvendo múltiplos disparos de arma de fogo, destacando as complexidades associadas à interpretação das evidências físicas, à avaliação do estado mental da vítima e à análise do cenário do crime.

METODOLOGIA: Foi realizado o levantamento bibliográgico, incluindo-se artigos cujo objetivo estivesse de acordo com o interesse da presente revisão. A pesquisa foi realizada nos bancos de dados das bases Lilacs, BIREME, PubMed, MedLine, Scielo e Google Schoolar utilizando os termos de busca: Suicide, atypical, gun, multiple, wounds.

RESULTADOS E DISCUSSÃO: O suicídio atípico por múltiplos disparos de arma de fogo se refere a situações em que a vítima realiza repetidos disparos contra si mesma, contrariando o padrão usual de um único tiro fatal. A interpretação desses casos apresenta dificuldades, pois é incomum que um indivíduo continue a se automutilar após o primeiro disparo e ainda mantenha a capacidade de efetuar múltiplos disparos.
A análise das evidências físicas desempenha um papel crucial na determinação desses casos. A localização, padrão e trajetória dos ferimentos devem ser minuciosamente examinados para determinar a viabilidade de a vítima ter se infligido múltiplos disparos. No entanto, a interpretação dessas evidências pode ser complexa, uma vez que a sequência dos ferimentos e a natureza dos disparos podem variar consideravelmente.
Nos casos de suicídio típico a area mais comum de localização do disparo e a cabeça, mais comumente sendo na região temporal , enquanto que nos casos de suicídio atípico os disparos tendem a ser mais na região pre cordial , tendo que se levar em conta o tipo de arma utilizado e seu calibre que afetam diretamente as características dos ferimentos .
Em relação a trajetória dos disparos, na região da cabeça são comumente de trajeto lateral , enquanto que na região do tórax são de anterior para posterior. Para que seja possível de ser realizado, o primeiro disparo não pode causar morte instantânea, deixando a vítima com capacidade física de realizar os disparos subsequentes, neste aspecto o tipo de arma tem papel importante na participação uma vez que armas de calibres potentes raramente permitem essa condição . Neste mesmo aspecto armas automáticas produzem lesões típicas com ferimentos ascendentes devido as características de recuo das mesmas.
A avaliação do estado mental da vítima também é essencial nesses casos. É fundamental considerar o histórico de saúde mental, incluindo possíveis transtornos psiquiátricos ou fatores estressantes que possam ter influenciado a decisão de cometer suicídio. A obtenção de informações sobre consultas médicas anteriores, registros de tratamentos psiquiátricos e depoimentos de familiares e amigos é importante para compreender o contexto psicológico do indivíduo.
A análise do cenário do crime também desempenha um papel adicional na determinação desses casos; a presença de notas de despedida; a organização dos objetos e a ausência de sinais de luta podem fornecer pistas importantes, mas também devem ser considerados possíveis cenários de encenação ou manipulação.
A abordagem multidisciplinar é fundamental para superar os desafios na determinação correta desses casos. A colaboração entre especialistas em medicina legal, psiquiatria forense, investigadores criminais e outros profissionais é essencial para uma análise abrangente e precisa.


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